Com o título “As Senhoras-Meninas de Saboeiro”, eis mais um texto de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará.
Confira:
No Dia do Amigo, celebrado na última segunda-feira, 20, as primeiras lembranças que me vieram foram as das amigas que caminham comigo há mais de meio século. E, nesse instante, mais uma vez me senti uma pessoa de sorte.
A vida me presenteou com boas amizades. Elas nasceram nos lugares mais diversos: no trabalho, nas atividades sociais, na caminhada religiosa. São pessoas que seguem comigo, mesmo quando a rotina nos afasta.
Hoje, quero falar de seis amigas de uma vida inteira. E não é força de expressão. Desde que me entendo por gente, elas estão ao meu lado.
Quando busco as primeiras lembranças da infância, encontro-as entre as brincadeiras pelas ruas de Saboeiro, as gargalhadas sem hora para acabar e as descobertas dos primeiros anos. Na adolescência, continuavam ao meu lado: nas festas, nos piqueniques, nos mergulhos nas águas do Rio Jaguaribe, nos segredos compartilhados, nas pequenas brigas que logo terminavam e nas confidências que pareciam destinadas a durar para sempre. Crescemos juntas.
Há mais de cinco décadas viajamos juntas. Conhecemos cidades, percorremos retas, nos apoiamos nas curvas, vislumbramos parques, desbravamos sertões, criamos vidas, acumulamos lembranças suficientes para muitas existências.
Rimos e sofremos juntas. Dividimos histórias, construímos laços, escolhemos caminhos diferentes, realizamos projetos distintos, tocamos corações, andamos por outras paragens, fizemos amigos, mas sempre presas à mesma viagem. Essa viagem começou lá atrás, em nossa terra amada. Cada uma seguiu seu caminho, com suas próprias vivências. Juntas, continuamos inteiras.
Deram imenso trabalho na infância. Difícil era torcê-las, retorcê-las, medi-las e desmedi-las. Desafiavam as caudalosas águas do rio Jaguaribe, brincavam de gente grande nos guizados, feiras e quermesses. Foi-se a turbulência ativa das crianças e com ela a inocência do querer. Chegaram à brejeirice, tertúlias, namoros, serenatas (para duas delas), despedidas.
E o tempo se foi. Deixou saudades, acumulou medos, serenou corações, fertilizou alegrias. Na maturidade, reencontro com as meninas desafiadoras, tímidas, serenas…
Belas. Tudo é motivo para gargalhadas, presentes, brincadeiras. Arengar também é permitido. Peixe, camarão, doces, sorvetes e boa conversa. Fartura na mesa e nos corações.
Fim de tarde, abraços, beijos, novas despedidas. Reencontro marcado. E lá se vão as seis senhoras-meninas já contando os dias para a próxima viagem.
*Suzete Nocrato
Jornalista e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.
suzete.nocrato@gmail.com