“Passa a Marcha” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovíítera: o contador de hstórias. Foto: Portal IN

Com o título “Passa a Marcha”, eis mais um texto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

Confira:

Outro dia, eu estava ouvindo Café Soçaite, de Miguel Gustavo, quando Maria Bethânia solta, lá no final, aquela frase que sempre chama atenção: “Como é que pode, Nina Chaves conta…”

Para muita gente, o nome talvez passe despercebido. Mas Nina Chaves tinha escrita fina e elegante, dessas que impunham autoridade sem precisar levantar a voz. Nos anos 1960, foi editora de moda de O Globo. Culta e respeitada nos meios artísticos, foi ela quem apresentou Zuzu Angel ao universo da alta-costura, ajudando a abrir caminho para que seu talento alcançasse o mundo.

Em 2001, conheci Nina em Paris, onde vivia. Fui apresentado por Anuar Nahes, então conselheiro cultural da Embaixada do Brasil na França – mais tarde, embaixador no Iraque. Conversamos sobre arte, literatura, memória e essa necessidade humana de transformar a vida em linguagem. Saí dali encantado. Nina tinha o raro dom de dizer coisas profundas com naturalidade. Parecia simples, mas não era. A verdadeira sofisticação costuma morar justamente aí.

Talvez por isso aquela frase de Café Soçaite continue me atravessando feito lembrança antiga. Há citações que, como chaves, abrem portas inteiras da memória.

Quer saber duma coisa? Vou é botar Café Soçaite de novo pra tocar na radiola.

Passa a marcha.

Já que, entre uma música e outra, a vida cobra seus deveres domésticos, confesso: hoje tenho certa dificuldade para cortar as unhas dos pés. Falta-me alcance – culpa da adiposidade abdominal somada à inevitável presbiopia. Recorro, então, ao atendimento domiciliar de uma pedicure, profissional experiente dessas pessoas discretas que exercem ofícios essenciais à dignidade humana.

O negócio é o seguinte: posso até tomar uns dez banhos por dia, usar água de colônia – nunca me dei bem com perfumes – roupa limpa e até loção importada. Mas, se as unhas não estiverem bem cortadas e limpas, sinto-me desalinhado comigo mesmo. Há formas de asseio que vão além da aparência. Entram no terreno da disciplina íntima, do respeito que a gente deve ao próprio corpo.

Talvez eu esteja virando um velho rigoroso demais com a própria higiene. Mas, pensando bem, não me parece um mau destino.

Por fim, talvez tudo isso tenha mesmo alguma relação: Café Soçaite, Nina Chaves, Paris, unhas dos pés e velhice. Afinal, viver também é isso – misturar alta-costura com chinela de dedo, memória refinada com limitações domésticas, sem perder o humor nem a disposição de continuar passando a marcha pela estrada pavimentada pelo tempo.

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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