Com o título “Ela vai Voltar”, eis artigo de Marcos C. Holanda, engenheiro, PhD em Economia e ex-presidente do Banco do Nordeste. “A inflação é, historicamente, o imposto mais regressivo que existe, porque incide integralmente sobre quem não tem como se defender dela”, expõe o articulista.
Confira:
A maldita inflação, que achávamos que estava domada, está voltando de mansinho. A razão não está em choques de oferta, preços de alimentos ou tarifas de energia. Ela é a de sempre: governo irresponsável, que gasta mais do que arrecada e gera uma trajetória de dívida impagável.
Pelos critérios do FMI, a dívida bruta do governo geral brasileiro já orbita na casa dos 100% do PIB. O problema não é o nível em si, mas a dinâmica. Com uma taxa real de juros da ordem de 7% ao ano e um crescimento potencial do PIB próximo de 2%, a matemática da sustentabilidade da dívida é implacável. Para simplesmente estabilizar a relação dívida/PIB nesse patamar, seria necessário um superávit primário em torno de 5% do PIB. Um ajuste dessa magnitude não tem precedente na história fiscal recente do país. Quando um país não consegue gerar o superávit primário necessário para estabilizar sua dívida, restam, na prática, apenas dois caminhos.
O primeiro é o calote com consequências gravíssimas. Fecha o acesso a mercados de crédito, destrói a poupança de quem detém títulos públicos direta e indiretamente e provoca uma crise bancária.
O segundo caminho é a inflação. Historicamente, é sempre o preferido. A inflação corrói o valor real da dívida denominada em moeda local sem que nenhum político precise assinar um decreto de calote, sem que nenhuma votação no Congresso seja necessária, e sem que a responsabilidade recaia claramente sobre uma decisão específica. O mecanismo de transmissão costuma ser previsível. O gatilho mais
provável é uma forte desvalorização cambial, deflagrada em um momento de pânico de mercado, quando investidores locais e estrangeiros deixam de rolar a dívida pública nos termos atuais e migram para dólar.
O aspecto mais perverso desse processo é distributivo. Os mais ricos têm acesso a instrumentos de proteção: podem alocar patrimônio em ativos indexados, dólar, imóveis ou ativos no exterior. Os mais pobres, que vivem de salário e têm a maior parte da renda comprometida com consumo imediato ficam totalmente desprotegidos. A inflação é, historicamente, o imposto mais regressivo que existe, porque incide integralmente sobre quem não tem como se defender dela.
Ou seja: a mesma política que costuma ser apresentada como para defender o bem- estar dos mais pobres é, na prática, o mecanismo que mais os penaliza. O Brasil não se cansa de penalizar os mais pobres.
*Marcos C. Holanda
Engenheiro, PhD em Economa e ex-presidente do Banco do Nordeste.