“Quem forma um leitor?” – Por Mirelle Costa

Mirelle Costa e Vinicios Ferraz

Antes de uma criança reconhecer letras, sílabas e palavras, ela pode descobrir algo ainda mais importante: que as histórias têm lugar na sua vida. A leitura começa antes da alfabetização. Começa no colo, na voz de alguém que conta uma história, no livro aberto antes de dormir, no afeto criado entre quem lê e quem escuta.

Mas quem tem assumido esse papel de apresentar os livros às crianças?

A pergunta parece simples, mas revela um desafio profundo da sociedade brasileira. O escritor, educador e pesquisador Vinícius Ferraz chamou atenção recentemente para dados do estudo Construa bases sólidas para a vida: resultados do estudo de 2025 sobre aprendizagem na primeira infância e bem-estar infantil, realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A pesquisa, com dados coletados no Ceará, Pará e São Paulo, aponta que apenas 14,4% dos pais ou responsáveis entrevistados afirmaram ler para as crianças em casa. Quando considerada a prática de contar histórias oralmente, sem o apoio do livro, o índice chega a apenas 17,3%. Outro dado chama atenção: somente 4,6% disseram frequentar bibliotecas com os filhos.

Os números revelam um problema que vai além do acesso ao livro. Eles falam sobre cultura, hábito, exemplo e pertencimento.

“Os dados sugerem que apenas uma em cada dez famílias brasileiras lê para seus filhos durante a primeira infância. Trata-se de um dado extremamente preocupante”, observa Vinícius.

Para ele, escritores, professores, bibliotecários e todos os profissionais envolvidos com a cadeia do livro sabem que esse encontro com as histórias precisa começar cedo. A

literatura infantil não é apenas entretenimento. Ela ajuda a criança a lidar com sentimentos, desenvolver comunicação, ampliar vocabulário, construir valores e preparar caminhos para a alfabetização.

Vinícius defende que a formação de leitores precisa ultrapassar os muros das escolas, universidades e bibliotecas. Deve chegar às casas, às comunidades, às igrejas, às consultas de pré-natal e aos espaços cotidianos de convivência.

“Da mesma forma que administra medicações ou recomenda vitaminas a uma gestante, um médico poderia orientar a família sobre a importância das histórias infantis na vida do bebê”, provoca.

Mas se a família é uma peça fundamental nessa construção, existe outra pergunta necessária: quem forma os formadores de leitores?

A professora do IFCE de Jaguaribe, Efigênia Alves, pesquisadora da área de formação leitora e literatura, chama atenção para outro desafio: muitos professores chegam à sala de aula sem terem construído uma relação afetiva com a leitura literária.

Ela relata situações em que mediadores de leitura entram em uma escola e alguns professores deixam a sala, perdendo a oportunidade de participar daquela experiência junto com os estudantes.

“Nos momentos formativos, quando perguntamos sobre as leituras, muitas vezes o que aparece são livros de autoajuda. E a gente sabe que a literatura, a boa literatura, ela também ajuda, mas não com esse rótulo”, observa Efigênia que está em sala de aula desde os seus dezoito anos.

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Efigênia Alves

A reflexão da professora não busca responsabilizar individualmente os educadores. Ela lembra a sobrecarga enfrentada pelos profissionais e reconhece os desafios da rotina escolar. O ponto central é outro: para despertar leitores, é importante que o professor também tenha a oportunidade de viver a experiência da leitura como descoberta, prazer e formação humana.

“Temos alunos que chegam aos cursos de Letras e Pedagogia sem serem leitores, passam pela formação acadêmica e podem sair ainda sem essa vivência, mas serão responsáveis por formar leitores na educação básica. Como assim?”, questiona.

A provocação une as duas pontas dessa conversa.

Uma criança que cresce em uma casa sem livros pode encontrar na escola a primeira porta para a literatura. Mas essa porta precisa ser aberta por alguém que também conhece o encanto de atravessá-la.

A formação de leitores não pertence apenas às famílias. Nem apenas aos professores. Nem apenas às bibliotecas ou às políticas públicas. Ela depende de uma rede.

Porque formar leitores é, antes de tudo, formar pessoas capazes de imaginar outras realidades, compreender outras vidas e construir novos caminhos.

Talvez a pergunta não seja apenas “por que nossas crianças leem pouco?”. Talvez seja: quantos adultos estão lendo com elas?

Lançamento de livro

A Princesa Cor de Rosa convida crianças e adultos a refletirem sobre identidade, pertencimento e autoestima
Primeira obra infantil da jornalista Ana Carolina Carvalho aborda os impactos da comparação e reforça a importância da autovalorização desde a infância

Em uma sociedade marcada por comparações constantes, aprender a reconhecer o próprio valor tornou-se um desafio cada vez mais presente, não apenas para adultos, mas também para crianças.

É a partir dessa reflexão que nasce A Princesa Cor de Rosa, primeira obra infantil da jornalista Ana Carolina Carvalho. Com uma narrativa sensível e acolhedora, o livro aborda temas como identidade, pertencimento, autoestima e autoconhecimento, convidando os leitores a enxergarem a beleza de serem exatamente quem são.

“A ideia de A Princesa Cor de Rosa nasceu da minha própria experiência com as comparações. Quando criança, eu ouvia constantemente referências ao que outras pessoas faziam melhor ou diferente, e isso nunca me pareceu saudável. Hoje, vejo que essa pressão se tornou ainda mais forte para as novas gerações, impulsionada pelas redes sociais e pela busca constante por padrões de perfeição. Com este livro, quis mostrar que cada criança tem seu próprio valor e que a verdadeira felicidade está em reconhecer e celebrar a própria identidade.”, afirma Ana Carolina Carvalho.

SERVIÇO

Lançamento “A Princesa Cor de Rosa”
Data: 2 de agosto (domingo)
Horário: 15h às 16h30
Local: Biblioteca Estadual do Ceará – BECE
Avenida Presidente Castelo Branco, 255

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Jornalista Ana Carolina Carvalho
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Respostas de 2

  1. Muito orgulho de você Carol! Eu fiquei muito feliz por saber que sou única e todas nós somos ♥️

  2. Sonho que um dia a leitura seja reconhecida como alimento para a alma, e portanto que as pessoas TODAS, sejam leitores alimentados de historias, aventuras, poemas, cronicas e tido que compõe a literatura.

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