Com o título “Os donos da abundância”, eis artigo de Machidovel Trigueiro Filho, professor titular de Direito Digital e Direito Econômico da Faculdade de Direito da UFC, secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico de Caucaia (RMF) e presidente da Comissão de Data Centers da OAB.
Elon Musk antecipa máquinas superiores, trabalho opcional e dinheiro quase irrelevante. A questão decisiva é quem controlará a infraestrutura, a riqueza e o poder nessa nova ordem.
Confira:
Antes que Zanny Minton Beddoes faça a primeira pergunta, o cenário já formulou a questão central. Numa fábrica da Tesla no Texas, automóveis recém-produzidos deixam autonomamente a linha de montagem enquanto Elon Musk fala sobre o futuro. A imagem condensa o mundo que ele anuncia: inteligência artificial capaz de planejar, robôs aptos a executar e trabalho humano perdendo centralidade. Mas também expõe o ponto cego da profecia. Os carros não têm motorista; o código, a energia, a fábrica e a definição do destino continuam tendo proprietários.
A conversa de aproximadamente noventa minutos com a editora-chefe da The Economist foi publicada em 23 de julho de 2026 no The Insider, programa em vídeo da revista. Era a primeira entrevista extensa de Musk desde a abertura de capital da SpaceX. Inteligência artificial, robótica, energia, emprego, China, política e exploração espacial apareceram como partes de um mesmo desenho. Musk expôs uma visão completa, e profundamente pessoal, sobre o próximo estágio da civilização.
A revista evocou Cassandra, a personagem mitológica capaz de antecipar o futuro sem ser acreditada. A analogia falha num ponto essencial: Cassandra não controlava os instrumentos de sua profecia. Musk dirige empresas que financiam e constroem parte do mundo que descreve,
inclusive os riscos que diz temer. Ao anunciar uma direção, pode orientar investimentos, pressionar governos e contribuir para que ela se realize.
Essa condição explica por que deve ser ouvido com atenção, mas não com devoção. As empresas sob sua liderança tiveram papel decisivo na expansão dos veículos elétricos, dos foguetes reutilizáveis e da comunicação por satélite, mas também acumularam prazos não cumpridos,
sobretudo na condução autônoma. Musk costuma perceber cedo o sentido de certas mudanças sem demonstrar a mesma precisão ao datá-las. Seu valor está menos no calendário do que no alerta.
Na entrevista, a previsão mais contundente foi expressa como um prazo de aproximadamente cinco anos, o que, tomado literalmente, aponta para 2031. Até lá, a inteligência artificial poderia superar a inteligência combinada da humanidade. Em uma década, os seres humanos talvez já não estivessem no comando. Para tornar a hipótese compreensível, Musk sugeriu que a distância cognitiva entre nós e sistemas futuros poderá ser ainda maior do que aquela que hoje separa pessoas e chimpanzés.
A imagem tem força, mas não oferece uma métrica científica. Não existe uma unidade capaz de somar a inteligência de oito bilhões de indivíduos. Superar médicos, programadores ou matemáticos em tarefas específicas não equivale a reproduzir universidades, laboratórios, governos, empresas e comunidades pensando em conjunto, com memória, conflito, contexto e cooperação. Ainda assim, a deficiência da fórmula não elimina a advertência. Sistemas de IA já sustentam tarefas mais longas, articulam ferramentas e operam com autonomia crescente. Musk pode exagerar a medida; não inventa a direção do movimento.
Seu erro mais relevante talvez seja político. Estar no comando não é um prêmio biológico concedido à inteligência mais eficiente. Poder nasce de autorizações, dependências, contratos, regras e instituições. Uma máquina não se torna soberana porque calcula melhor; torna-se poderosa quando recebe acesso a recursos, capacidade de agir e autoridade para decidir sem controle efetivo. Se os seres humanos perderem espaço, isso poderá ocorrer menos por uma derrota inevitável diante de cérebros superiores do que por uma sequência de delegações mal reguladas. O fatalismo tecnológico frequentemente esconde escolhas humanas.
Por isso, 2031 deve ser tratado como teste de resistência, não como data marcada. Se a transformação chegar antes, já estaremos atrasados. Se demorar, o tempo adicional só terá valor se for utilizado. Redes elétricas, sistemas educacionais, marcos jurídicos e políticas industriais
não se improvisam. Uma previsão imperfeita pode revelar um atraso perfeitamente real.
No plano econômico, a arquitetura imaginada por Musk é sedutora. A inteligência artificial forneceria a capacidade cognitiva: calcular, planejar, projetar e decidir. Os robôs humanoides levariam essa inteligência ao mundo físico: moveriam objetos, construiriam, cuidariam e fabricariam. Quando mente e força pudessem ser reproduzidas em escala, a produção de bens e serviços cresceria muito além da capacidade humana de consumo. O trabalho deixaria de ser obrigação, uma renda universal elevada preservaria o acesso aos bens, a deflação substituiria a inflação e o dinheiro perderia grande parte de sua importância.
O encadeamento parece simples porque omite o atrito do mundo material. Software pode ser replicado em segundos; um robô exige minerais, semicondutores, sensores, motores, fábricas, manutenção e logística. Modelos digitais avançam em ciclos curtos; redes de transmissão, cidades, leis e governos obedecem a outro ritmo. Entre uma demonstração e uma economia inteira existe uma longa cadeia de capital, território e trabalho.
A automação, portanto, não elimina a escassez. Ela a desloca. Quanto mais acessível se torna a inteligência digital, mais estratégicos ficam os elementos físicos que a sustentam: chips, eletricidade, cabos, subestações, centros de dados, áreas adequadas e, conforme a tecnologia de refrigeração, água. A inteligência artificial não dissolve a indústria; inaugura uma indústria da inteligência, intensiva em energia e infraestrutura. A chamada nuvem tem chão, equipamentos, endereço e jurisdição.
Musk percebe essa materialidade quando diferencia os gargalos da disputa internacional. Fora da China, energia e refrigeração tendem a limitar a expansão computacional; para os chineses, o acesso aos chips mais avançados continua sendo uma restrição importante. Mesmo assim, o país já construiu uma base difícil de ignorar. Segundo a Federação Internacional de Robótica, 54% dos robôs industriais instalados no mundo em 2024 foram destinados à China, cerca de 295 mil unidades. O dado expressa mais do que automação fabril: revela a articulação entre manufatura, escala energética, cadeias de suprimentos e estratégia de Estado.
Para o Brasil, essa mudança deveria produzir menos encantamento e mais método. O país reúne energia renovável, território, posição geográfica, cabos submarinos, mercado consumidor e competência científica. Nenhuma dessas vantagens, isoladamente, assegura protagonismo. Se continuarmos apenas consumindo inteligência produzida no exterior, entregaremos dados, produtividade e capacidade de decisão enquanto permanecemos fornecedores de recursos básicos. Vender eletricidade e recomprá-la na forma de serviços computacionais seria uma dependência nova com aparência de modernidade.
Agregar capacidade de processamento à energia gerada no território nacional é uma política industrial do século XXI. Isso exige um cinturão de energia e conectividade, centros de dados submetidos a critérios transparentes, parques tecnológicos, redes de transmissão e fibra óptica, formação profissional, pesquisa aplicada e compromissos concretos com fornecedores e comunidades locais. Grandes projetos digitais não devem funcionar como enclaves que consomem recursos e exportam valor. Precisam deixar conhecimento, infraestrutura e oportunidades no território que os recebe.
Soberania infraestrutural não significa autarquia nem a pretensão de fabricar internamente cada componente. Significa possuir condições materiais e institucionais para escolher parceiros, negociar investimentos, proteger dados, aplicar a lei e limitar abusos. Um país será formalmente soberano e materialmente dependente se não puder hospedar, alimentar, conectar, auditar e governar sistemas essenciais à sua economia. A autonomia digital começa muito antes do aplicativo: começa na energia, passa pelos cabos e termina na capacidade de fazer valer decisões públicas.
Essa base material conduz à pergunta que a narrativa da abundância não resolve: quem será dono dela? Se robôs, modelos, chips, centros de dados e fontes de energia permanecerem concentrados em poucas empresas, uma produção extraordinária poderá conviver com uma concentração de poder igualmente extraordinária. A automação reduz a necessidade de trabalho humano justamente quando o trabalho ainda é a principal fonte de renda e de influência econômica da maioria. Uma sociedade pode tornar muitos bens baratos e, ao mesmo tempo, tornar seus cidadãos politicamente mais frágeis.
A renda universal elevada imaginada por Musk poderia sustentar o consumo durante a transição. Não devolveria, por si só, poder de negociação a quem deixasse de ser necessário à produção. Receber recursos não equivale a participar das decisões sobre a riqueza automatizada. Distribuição envolve renda, mas envolve também propriedade, representação, acesso e voz. Se as pessoas forem necessárias apenas como consumidoras, a democracia terá de impedir que a dependência econômica se converta em obediência política.
Também é precipitado concluir que o dinheiro se tornará dispensável. A automação poderá reduzir drasticamente o custo de inúmeros produtos, mas terra bem localizada, energia firme, minerais críticos, moradia, tempo, atenção, obras singulares e posições de prestígio continuarão limitados. Onde houver escassez, haverá escolha e atribuição de valor. A moeda poderá mudar de forma ou perder espaço em certas relações, mas seguirá cumprindo funções de conta, obrigação, tributação e coordenação social.
A própria proposta de pagamentos públicos expõe essa permanência. Para transferir renda, o Estado precisará arrecadar, escolher bases fiscais, definir beneficiários e justificar prioridades. Isso ocorrerá justamente quando a tributação do trabalho poderá encolher. A economia automatizada exigirá novas formas de alcançar o capital, as rendas extraordinárias e a exploração de infraestrutura. Longe de desaparecer, o Estado terá de se tornar mais competente, transparente e tecnicamente preparado.
Há ainda uma dimensão que nenhuma curva de produtividade alcança. O trabalho não oferece apenas salário. Organiza o tempo, cria reconhecimento, vínculos e sentido de contribuição. Torná-lo opcional pode ser uma conquista extraordinária, desde que a sociedade consiga oferecer participação, educação contínua e novos espaços de realização. Caso contrário, a abundância material poderá conviver com desorientação e perda de propósito. Libertar alguém de uma obrigação não significa ensinar o uso da liberdade.
O problema se torna mais grave quando a promessa de abundância é combinada com o risco. Confrontado com uma estimativa anterior de 10% a 20% para a possibilidade de um resultado catastrófico da inteligência artificial, Musk não a retirou; preferiu ressaltar o cenário positivo e a dificuldade de interromper a corrida. Essa resposta é insuficiente. Uma ameaça dessa magnitude não pode ser tratada como pedágio inevitável do progresso. A velocidade da pesquisa não suspende o dever público de governar.
Sua proposta de reuniões periódicas e revisão por pares entre os grandes laboratórios tem mérito. Empresas situadas na fronteira conhecem vulnerabilidades que os governos ainda não compreendem. Mas concorrentes possuem interesses comerciais e não substituem supervisão independente. Uma governança séria requer avaliação antes da implantação, auditorias externas, comunicação obrigatória de incidentes, protocolos de emergência e fiscalização da infraestrutura computacional. O Estado não precisa fingir que domina sozinho a ciência; precisa assegurar que quem domina a técnica também responda por suas escolhas.
As contradições de Musk ajudam a compreender o que está em jogo. O empresário que prevê a perda de importância do dinheiro preserva extraordinário controle econômico. O crítico da concentração estatal comanda redes privadas capazes de afetar comunicações, mercados e conflitos. O defensor de uma futura abundância acumula os ativos que serão mais valiosos durante a travessia. Nada disso invalida sua percepção tecnológica. Demonstra, apenas, que propriedade e poder provavelmente sobreviverão muito mais do que seu enredo econômico admite.
Suas previsões políticas exigem cautela ainda maior. Ao anunciar a possibilidade de uma guerra civil no Reino Unido em cerca de vinte anos sem apresentar indicadores verificáveis, Musk deixa o terreno dos limites físicos e entra no das convicções. Como controla uma plataforma global, sua fala pode influenciar o ambiente que afirma apenas descrever. Quanto maior o alcance da voz, maior a responsabilidade sobre seus efeitos.
A melhor maneira de ler a entrevista, portanto, não é decidir se Musk merece o estatuto de visionário ou de excêntrico. É utilizá-la como exercício de antecipação institucional. Mesmo que o prazo de cinco anos se alongue, a transformação já começou. Para a tecnologia, uma década pode parecer extensa. Para universidades, governos, redes elétricas e sistemas jurídicos, é quase amanhã. O prazo pode falhar; a década não pode ser perdida.
O desafio atribuído a 2031 começa nas escolhas de 2026: geração e transmissão de energia, licenciamento de centros de dados, conectividade, formação de pessoas, propriedade das máquinas, proteção de dados, tributação, segurança dos modelos e direitos daqueles que serão afetados pela automação. Esperar que a tecnologia resolva essas questões seria confundir capacidade de cálculo com sabedoria política.
Na fábrica do Texas, os carros já conseguem sair da linha sem motorista. Ainda assim, alguém escreve o código, fornece a eletricidade, possui as máquinas, define as regras e escolhe o destino. É nesse espaço que o direito, a política e a democracia precisam permanecer presentes. Produzir abundância poderá ser uma conquista da engenharia. Transformá-la em liberdade compartilhada
continuará sendo tarefa da civilização. Musk pode errar o calendário. Nós não podemos desperdiçar a década.
*Machidovel Trigueiro Filho
Professor titular de Direito Digital e Direito Econômico da Faculdade de Direito da UFC, secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico de Caucaia (RMF), presidente da Comissão de Data Centers da OAB e autor, entre outros, de “Depois dos Data Centers” e “Direito das Contrapartidas Computacionais”.