“Ciro e Tasso viraram as verdadeiras forças do atraso Ceará” – Por Francisco Bezerra

Francisco Bezerra é jornalista e escritor

Com o título “Ciro e Tasso viraram as verdadeiras forças do atraso Ceará”, eis artigo de Francisco Bezerra, jornalista, radialista e escritor. “Ainda me lembro como se fosse hoje, eu um neófito no jornalismo político, me acotovelando com um batalhão de repórteres para acompanhar o desembarque do Totó no Pinto Martins para o anúncio mais esperado do ano. Ilhado por microfones e gravadores GM foi curto e grosso: “desisto de uma possível candidatura ao senado e permaneço no governo até o final do meu mandato, abraçando, a partir de hoje, a ingente missão de fazer do Tasso meu sucessor”, expõe o articulista.

Confira:

Este, por ser um ano de eleição, deve ser de muitas reflexões, caro leitor. Para começar o rosário de reflexões temos que lembrar que 2026 é o aniversário de 40 anos da primeira eleição do empresário Tasso Jereissati ao governo do Ceará. O tucano, à época, disputou a eleição pelo PMDB com a chancela do ex-governador Gonzaga Mota. Aliás, o senhor Tasso condicionou sua candidatura ao executivo estadual à permanência do Totó até o final do governo deste. Totó tinha a intenção manifestada de renunciar ao cargo para se desencompatibilizar e poder disputar mandato de senador.

Tasso, acolitado por alguns peemedebistas históricos e não históricos, montou uma arapuca para o então governador. Num roteiro ardiloso, Jereissati conseguiu audiência com o presidente de plantão da época, José Sarney, e levou consigo o Totó e alguns parmamentares para o encontro. No Palácio do Planalto, o tema central da conversa, como não podia deixar de ser, era a eleição do Ceará. O libanês atávico ponderou ao Totó a importância de sua permanência no governo para viabilizar sua eleição que se daria em novembro contra o coronel Adauto Bezerra, então vice-governador e filiado ao PFL. Na conjuntura de então, o pefelista era pule de dez para vencer a disputa. Todo o drama do Galego foi narrado sob as oiças do Sarney.

Com um script previamente acertado com o presidente da República Gonzaga foi seduzido e convencido pelos apelos do Galego, reforçado pela promessa de assumir cargo de primeiro escalão no Governo Federal no ano seguinte, a ficar até o final do seu mandato para ajudar a eleger seu sucessor. Como se sabe, GM foi peça fundamental para a vitória de quem no futuro seria seu algoz. E o nosso Totó sucumbiu ao ardiloso plano para abrir caminho para a chegada do empresário do CIC ao Palácio da Abolição.

Ainda me lembro como se fosse hoje, eu um neófito no jornalismo político, me acotovelando com um batalhão de repórteres para acompanhar o desembarque do Totó no Pinto Martins para o anúncio mais esperado do ano. Ilhado por microfones e gravadores GM foi curto e grosso: “desisto de uma possível candidatura ao senado e permaneço no governo até o final do meu mandato, abraçando, a partir de hoje, a ingente missão de fazer do Tasso meu sucessor”.

O dia da informação ficou registrado nos anais do folclore político cearense como o dia do fico, uma reprise do fato político na época do império protagonizado por D pedro I. A primeira etapa do plano astucioso da turma do CIC de tomar de assalto o poder estadual foi concluída com sucesso. O Totó havia mordido a isca. O passo seguinte foi ancorar a candidatura na Nova República e surfar na onda da popularidade do Plano Cruzado. Os marqueteiros “ciquianos”, então, botaram o bloco na rua.

A primeira ação de marketing eleitoral, ainda na pré-campanha, foi espalhar por todo o território cearense vários outdoors. Neles, Tasso aparecia dando um abraço de urso no presidente Sarney e abaixo da mega foto dos dois a seguinte frase: O Brasil mudou. Mude o Ceará. O terceiro ato da campanha foi articular as alianças com os partidos de esquerda e centro-esquerda. Para isso, foi apresentado aos futuros parceiros um programa de governo ousado, alicerçado no combate à miséria, ao clientelismo e à política atrasada dos coronéis. O futuro mostraria que o programa de governo era só coisa para inglês ver.

O passo seguinte da patrulha foi urdir, nos laboratórios do CCI, um projeto de marketing eleitoral que encantou os cearenses e pegou de calças curtas os três coronéis, cujo mando político já passava das duas décadas. Todos os instrumentos de marketing eleitoral mais modernos da época foram utilizados ao longo da campanha. Como não era ainda figurinha carimbada da política em nosso estado, Tasso aparecia, no início do pleito, com baixos índices de popularidade. Já o coronel Adauto cavalgava disparado e airoso na raia eleitoral. O plano Cruzado aliado a atmosfera de mudança provocada pela fadiga de material do ciclo dos coronéis teve o efeito de um ciclone na campanha adautista

Já no meio da disputa, Tasso apresentava índices em pesquisas que colocaram em polvorosa o quarte general da campanha do coronel banqueiro. Na virada do calendário eleitoral, Adauto Bezerra e os parceiros de empreitada, Virgílio Távora e César Cals, sentiram o cheiro inexorável da derrota que se prenunciava. No epílogo do processo eleitoral, Adauto sofreu uma derrota acachapante de um adversário que, no começo da refrega das urnas foi tachado por ele de amador. Um fato chamou a atenção de quem tinha muitos quilômetros de estrada na política cearense: bem antes da abertura das urnas, os “meninos do CIC”, como os denominava o senador Virgílio Távora, jâ tinham abandonado na beira da estrada o governador Gonzaga Mota, que virou bago de laranja chupada.

Depois de contados os votos que garantiram-lhe a vitória, Tasso et caterva passaram a pressionar o presidente Sarney para que nunca cumprisse a promessa do “empregão” em Brasília para o Totó. Até hoje o nosso ínclito GM espera pelo tal emprego. Em 15 de março de 1987, começava um novo ciclo de poder no Ceará. No mandato, Tasso rasgou a a proposta de governo que apresentara na campanha, afugentando os parceiros de esquerda que nele acreditaram, administrou 4 anos com o receituário neoliberal Banco Mundial debaixo do braço e empreendeu campanha feroz para destruir seu antecessor.

Em 1990, Tasso, já no PSDB, aliou-se ao PDT de Lúcio Alcãntara e do Edson Silva Panelada, para fazer de Ciro Gomes seu sucessor, dando o velho traço de arrodeio(termo muito usado no jargão futebolíticos) no seu ex-partido, o PMDB. Como uma noiva abandonada no altar, só restou ao partido do senador Mauro Benevides se agarrar com antigos adversários, o PFL e o PSD. A dita cuja aliança frankstein suscitou de Ciro Gomes a célebre frase que ficou famosa naquele ano: “infelizmente o PMDB resolveu se juntar às forças do atraso.” Todo este relato aqui feito, caro leitor, me assomou a mente quando vi, em minhas redes sociais, o Jereissati, no evento do lançamento da candidatura de Ciro Gomes, ladeado pela escória da política cearense.

Diante da cena dantesca, posso assegurar com todas as letras que Tasso e Ciro sim é que hoje realmente é que são as forças do atraso do Ceará. E vão morrer politicamente abraçados ouvindo o choro das carpideiras bolsonaristas. Se a memória não falhar e o Eliomar deixar contarei mais adiante, com fatos irrefutáveis, que os três governos do Jereissati foram ouro de tolo. Sai da frente que atrás vem gente.

*Francisco Bezerra

Jornalista, radialista e escritor.

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