“O ostracismo como preço de uma aposta política” – Por Luiz Henrique Campos

Direita no Brasil virou caminho estreito.

Com o título “O ostracismo como preço de uma aposta política”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta segunda-feira, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “A política nacional exige visão ampla, capacidade de composição e compreensão da diversidade do Brasil. Quando essas virtudes cedem lugar à retórica de enfrentamento e à ilusão de unanimidade produzida por bajuladores e ambientes fechados, o resultado costuma ser retorno abrupto à realidade”, expõe o colunista.

Confira:

As convenções partidárias se encerram esta semana mas já é possível dizer que a política no Brasil costuma ser implacável com quem confunde aplausos locais com viabilidade nacional. O cenário que se desenha para alguns governadores que, nos últimos anos, fizeram da oposição ao presidente Lula o principal eixo de seus discursos parece ilustrar essa realidade. Nomes como Eduardo Leite, Ratinho Junior, Cláudio Castro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ibaneis Rocha chegaram a ser apresentados por aliados como alternativas para comandar o país. Hoje, porém, muitos deles enfrentam horizonte político bem mais modesto do que aquele projetado por seus entusiastas.

Em comum, esses líderes apostaram na adoção de discurso de direita cada vez mais duro, muitas vezes marcado por tom de confronto permanente. A estratégia parecia simples, pois para estes, bastava consolidar suas bases eleitorais e herdar eventual espólio político do bolsonarismo. No entanto, a política nacional mostrou-se bem mais complexa do que a lógica das redes sociais ou das plateias militantes. A repercussão obtida dentro de seus estados não foi suficiente para transformá-los em protagonistas de projeto nacional consistente.

Alguns ainda precisaram lidar com desgastes decorrentes de investigações ou suspeitas envolvendo aliados e episódios amplamente explorados no debate público. Outros, mesmo sem esse tipo de ônus, descobriram que administrar um estado e compreender as múltiplas demandas de país continental são desafios de naturezas distintas. O Brasil exige capacidade de dialogar com diferentes realidades econômicas, sociais e culturais, algo que dificilmente se constrói apenas com palavras de ordem ou discursos voltados para segmento específico do eleitorado.

Também chama atenção a distância entre a narrativa construída por grupos políticos e a percepção do conjunto da sociedade. Cercados por apoiadores e por círculos de confirmação, muitos passaram a acreditar que suas visões de mundo representavam o sentimento predominante do país. A história recente demonstra, entretanto, que o Brasil costuma rejeitar projetos excessivamente fechados em suas próprias bolhas ideológicas, sejam elas de direita ou de esquerda. Há ainda componente revelador nesse processo.

No momento decisivo, quando se imaginava que surgiria nova liderança capaz de reorganizar o campo conservador, prevaleceu novamente a dificuldade de construir projeto autônomo. Em vez da renovação prometida, grande parte da direita acabou subordinando suas estratégias às expectativas em torno de liderança personalista, em um modelo de autocracia rasa, reduzindo o espaço para alternativas próprias e limitando o surgimento de novas referências nacionais. Tarcísio de Freitas, tão propalado como candidato natural desse espectro político que o diga.

A trajetória desses governadores evidencia que popularidade regional não garante projeção nacional. Governar bem um estado pode ser condição importante, mas está longe de ser suficiente para liderar país das dimensões e das desigualdades brasileiras. A política nacional exige visão ampla, capacidade de composição e compreensão da diversidade do Brasil. Quando essas virtudes cedem lugar à retórica de enfrentamento e à ilusão de unanimidade produzida por bajuladores e ambientes fechados, o resultado costuma ser retorno abrupto à realidade. E, na política, poucas prestações de contas são tão severas quanto o isolamento e o esquecimento.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.             

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