Com o título “O valor da saúde pública: de Oswaldo Cruz ao SUS”, eis artigo de Kleber Junio Silveira, presidente da Cafaz Saúde. “Atualmente, o SUS consolida-se como um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo. Sua relevância vai muito além dos atendimentos hospitalares”, expõe o articulista.
Confira
Celebrado anualmente em 5 de agosto, o Dia Nacional da Saúde não é apenas uma data comemorativa no calendário brasileiro. Trata-se de um momento oportuno para refletir sobre a evolução da saúde pública no país. Instituída para homenagear o nascimento do médico e sanitarista Oswaldo Cruz, a data convida a sociedade a analisar o presente e a reconhecer o Sistema Único de Saúde (SUS) como um pilar indispensável de cidadania, bem-estar e soberania nacional.
No início do século XX, o Brasil enfrentava um cenário caótico. Os principais portos e a capital da época, o Rio de Janeiro, eram assolados por epidemias severas de febre amarela, peste bubônica e varíola. Foi nesse contexto de crise que Oswaldo Cruz assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública, em 1903, revolucionando as práticas sanitárias e a medicina social brasileira.
Com métodos rigorosos baseados na bacteriologia, ciência que estudou no renomado Instituto Pasteur, em Paris, o médico implementou brigadas sanitárias, o isolamento de doentes e o combate aos vetores de transmissão, como mosquitos e ratos. Sua atuação culminou na histórica e polêmica campanha de vacinação obrigatória contra a varíola, em 1904.
Apesar da forte resistência popular que gerou a Revolta da Vacina, o tempo provou o acerto de suas diretrizes: as epidemias foram controladas e o país compreendeu o valor da imunização em massa.
A visão de Oswaldo Cruz de que a saúde pública é um dever do Estado ecoou décadas mais tarde na Constituição Federal de 1988. Foi a partir da Carta Magna que nasceu o SUS, inspirado nos movimentos de Reforma Sanitária. O novo sistema rompeu com o modelo anterior, que limitava a assistência médica apenas aos trabalhadores com carteira assinada, e estabeleceu os princípios fundamentais da universalidade, equidade e integralidade do atendimento.
Atualmente, o SUS consolida-se como um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo. Sua relevância vai muito além dos atendimentos hospitalares. O sistema estrutura-se silenciosamente na rotina de cada cidadão por meio da Vigilância Sanitária, que fiscaliza a qualidade dos alimentos e medicamentos, e do Programa Nacional de Imunizações (PNI), responsável por gerenciar um dos calendários de vacinação mais completos do planeta.
Além disso, o SUS financia cerca de 90% dos transplantes de órgãos realizados no país e oferece tratamentos oncológicos e antirretrovirais gratuitos de ponta, garantindo a assistência farmacêutica a milhões de pacientes crônicos.
Comemorar esta data significa, pois, honrar a ciência do passado e, simultaneamente, proteger a estrutura do presente. Se no início do século passado a luta era para conscientizar a população sobre a importância de uma vacina, hoje o desafio reside em defender o financiamento adequado, a modernização tecnológica e a valorização dos profissionais da saúde. Manter o SUS forte é garantir que o binômio entre ciência e cidadania continue salvando vidas em todo o território nacional.
*Kleber Junio Silveira
Presidente da Cafaz Saúde
kleber.silveira@cafaz.org..br