“Conteúdo, carcaça e a permanência da poesia” – Por Mirelle Costa

Uma noite, literalmente, poética. Entre leituras, declamações e perguntas dos leitores, a palavra ocupou o centro da cena. Não havia pressa, nem o consumo acelerado que marca o nosso tempo. Foi assim que me senti ao participar, na Biblioteca Pública Estadual do Ceará (Bece), do lançamento de Conteúdo-Carcaça: o livro das consumações, a mais recente obra do poeta Dércio Braúna.

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Dércio Braúna

A mediação ficou a cargo do escritor Renato Pessoa, poeta que definiu o amigo de maneira contundente: “Dércio é, de fato, um dos maiores poetas deste país contemporâneo. Não digo isso apenas porque sou amigo dele, mas porque sua literatura jamais foi aventureira. Dércio trata a poesia com um rigor raro”, destaca. Para Renato, o novo livro representa uma espécie de despedida, uma reflexão ontológica sobre a existência e sobre o próprio fazer literário.

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Renato Pessoa e Dércio Braúna

Finalista do Prêmio Oceanos e autor de dezenas de livros, Dércio construiu uma trajetória singular. Tive a oportunidade de recebê-lo no podcast Cafezim com Literatura, onde contou que nasceu e cresceu na comunidade de Córrego de Areia, na zona rural de Limoeiro do Norte. Ali, o livro físico praticamente não existia em seu cotidiano. O primeiro encontro com a poesia aconteceu de forma improvável: nos muros do Colégio Diocesano, onde lia versos escritos enquanto fazia o percurso entre o campo e a cidade.

Antes mesmo de conhecer os grandes poetas brasileiros, encontrou abrigo nas letras de Renato Russo, Cazuza e Raul Seixas. Eram essas canções que lhe ofereciam uma linguagem para compreender as inquietações da adolescência. Mais tarde, a leitura de A Luta Corporal, de Ferreira Gullar, mudaria definitivamente sua relação com a literatura. Descobriu que a poesia podia falar do corpo, da matéria, do envelhecimento, das frutas sobre a mesa e da vida concreta.

Durante nossa conversa, Dércio compartilhou uma ideia que ajuda a compreender toda a sua produção: “Eu não escrevo poemas. Eu escrevo livros”, impõe-se e acrescenta ainda: “Cada obra nasce de um longo período de maturação. Antes da primeira palavra, existe um tempo de gestação em que o poeta precisa enxergar o livro inteiro, sua arquitetura, sua respiração e sua razão de existir. Só então começa a escrita”.

Essa concepção aparece de forma intensa em Conteúdo-Carcaça. O título sintetiza uma crítica contundente ao presente. Vivemos uma época em que tudo se transforma em conteúdo: pessoas, desejos, crenças e até a própria arte. Tudo precisa ser produzido, consumido e rapidamente substituído. Entre o conteúdo e a carcaça existe apenas um pequeno intervalo de tempo — um hífen quase invisível que simboliza a velocidade com que descartamos aquilo que acabamos de consumir.

Para o poeta, a literatura também faz parte dessa engrenagem, embora resista a ela. Os escritores seguem denunciando os mecanismos desse mundo enquanto ainda viajam dentro dele. Talvez seja justamente essa tensão que mantenha a poesia viva.

Escrevo para não sucumbir à loucura desse tempo tão raivoso“, disse ele diante da indicação ao Prêmio Oceanos como finalista, em 2020.

Outra reflexão que me marcou foi sua compreensão sobre o texto poético. Dércio acredita que um poema nunca entrega tudo. Ele preserva vazios para que o leitor possa habitá-los com suas próprias experiências. A poesia, assim, deixa de ser apenas a expressão de quem escreve para tornar-se também morada de quem lê.

Não por acaso, ao final do livro, Dércio dialoga com a escritora cearense Emília Freitas, trazendo para o presente palavras escritas no século XIX. É um encontro entre tempos distintos que demonstra como a literatura desafia o relógio. Enquanto quase tudo ao nosso redor nasce para durar poucos segundos nas telas, um poema continua encontrando novos leitores décadas — ou séculos — depois de ter sido escrito.

Saí da Bece com a impressão de que havia participado de algo maior que um lançamento editorial. Em tempos de consumo instantâneo, assistir a pessoas reunidas para ouvir poesia é quase um gesto de resistência.

Talvez seja essa a maior força da literatura: quando o mundo insiste em transformar tudo em conteúdo descartável, a poesia continua nos lembrando daquilo que permanece.

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Dércio Bráuna e eu, Mirelle Costa

Obrigada, Dércio! Por essa noite inesquecível, pelos amigos que já me apresentaste e pela poesia, principalmente, pela Poesia.

Se essa obra é uma despedida, eu teimo em esperar pelo próximo livro.

Dércio Braúna é autor de O pensador do jardim dos ossos (2005), A selvagem língua do coração das coisas (2006), Metal sem húmus (2008), Como um cão que sonha a noite só (2010), Aridez lavrada pela carne disto (2015), Como cavalos fatigados abrindo um mar (2017), Escrevivências: livro de vidas imaginografas (2017, em parceria com Joel Neto), Esta solidão aberta que trago no punho (2019), Auto de incineração (2021), Eu talvez desejasse matar poetas [exercícios barrocos] e Conteúdo-carcaça: livro das consumações (2026), dentre outros.

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