Com o título “Carta ao ‘senador’ Tasso Jereissati”, eis artigo de Francisco Bezerra, jornalista, radialista e escritor. Ele aborda a trajetória de Tasso Jereissati e o momento político-eleitoral do tucano.
Confira:
“Se algum dia vocês forem surpreendidos pela injustiça ou pela ingratidão, não deixem de crer na vida, de engrandecê-la pela decência, de construí-la pelo trabalho”. (Frase de autoria do chanceler Edson Queiroz, que se tornaria epígrafe do jornal Diário do Nordeste em todas as suas edições).
Caro “Senador”,
Aqui quem assina esta missiva é um jornalista com quase 40 anos de janela, e que em sua primeira eleição foi seu eleitor e apoiador entusiasmado. “Senador,” me permita a curiosidade, o senhor, por acaso, sabe a diferença entre o otimista e o entusiasta? Se o distinto receptor desta singela mensagem não souber, posso, através destas mal traçadas linhas, sem nenhuma presunção de ser seu preceptor, esclarecer que o otimista torce para dar certo. Por sua vez, o entusiasta faz dar certo. Ou seja, ele não espera acontecer, ao contrário, ele faz acontecer. Pois, naquela que, sem dúvida alguma, foi uma das campanhas eleitorais mais lindas que a história política do Ceará registrou eu fui um entusiasta.
Naquela pugna, o senhor caiu tão no gosto do povo que este mesmo vulgo até um apelido carinhoso lhe deu. Epíteto que até hoje o acompanha, o senhor é o “Galeguim dos Zói Azul” do povão generoso do nosso estado. Apesar do apoio do governador Gonzaga Mota, do presidente Sarney, da popularidade do Plano Cruzado, um fator foi assaz relevante para sua vitória em 86, o seu carisma pessoal que o
marketing apenas realçou. O senhor ainda bem jovem, cheio de sonhos, causou suspiro nas mulheres, um certo despeito em maridos ciumentos. Granjeou a simpatia de crianças, jovens, adultos e velhos. Assomou pregando um novo tempo, uma nova história.
O grande jornalista Sílvio Carlos um dia me disse esta pérola:
– Bezerrinha, é o seguinte, quando a mulher bota a foto do candidato na penteadeira de sua casa não tem jeito, é besteira, não tem quem tome a eleição dele.
Com efeito “Senador”, as peças publicitárias de sua campanha eram vistas em todos os cantos: no vidro dos carrinhos de pipoca, nos fiteiros, portas de geladeiras, em bolsas circulares de bicicletas, carrinhos de catadores de lixo, balcão de bares e bodegas, em portas e janelas de residências humildes, para-choques de caminhões e em tantas outras superfícies. Seus cartazes apareciam pregados em muros, postes, pontos de ônibus, viadutos e até em placas de trânsito. Suas bandeiras eram vistas em cumieiras de grandes casas de cidades do interior, no telhado de casebres, no alto dos arranha-céus de Fortaleza, nas janelas dos carros tremulando ao vento. Seus adesivos eram grudados nos vidros de carros, ônibus, caminhões e em todo tipo de veículos de condução humana e não humanas.
Uma campanha eletrizante, onde tudo deu certo. O candidato, a embalagem, o discurso, a estratégia eleitoral e a organização impecável da campanha. Neste contexto, eu me lembro bem do comício da virada, quando o PMDB realizou a maior concentração popular em Juazeiro do Norte, terra berço do seu maior adversário, o coronel Adauto Bezerra. Era tanta gente nesta concentração popular que, se brincar, até o Padre Cícero (me perdõe, meu Padim) deve ter ficado com uma pontinha de inveja ao ver aquela multidão toda correndo atrás, não do seu andor, mas no encalço do “Galeguinho do Zói Azul”. Aliás, “Senador,” seus grandes olhos azuis eram a chama da fé em um novo tempo que se anunciava Ao final da campanha que inovou e quebrou vários paradigmas na área do marketing eleitoral (quem não se lembra dos mega showmícios com artistas nacionais ) o senhor deu uma surra eleitoral no coronel pefelista de criar bicho.
Foram números arrasadores para um marinheiro político de primeira viagem. E que números: o senhor obteve 1.407.693 votos ( em termos percentuais, 61,46%). O seu oponente, com larga experiência na política – Adauto já tinha sido deputado estadual, e nesta condição chegou a presidir a Assembleia, governador biônico (1975-1978), deputado federal (1979-1983) e vice-governador do estado (1983-1987) – granjeou apenas 807.315 votos (35,25% do eleitorado). No mesmo pleito, o intimorato e saudoso padre Haroldo Coelho foi distinguido nas urnas por apenas 68.044 sufrágios, uma merreca de apenas 2,9 % do eleitorado. O padre Vermelho, assim como o exército de Brancaleone petista da taba, estava ainda inebriado com a vitória histórica de Maria Luíza na disputa pela prefeitura de Fortaleza, que se dera um ano antes de forma absolutamente surpreendente, sobre o favoritíssimo candidato peemedebista Paes de Andrade. Uma virada inaudita que chamou a atenção dos holofotes da imprensa nacional. Desculpe-me a digressão caro alocutário, mas é que as eleições foram tão próximas que é difícil falar de uma sem se referir a outra.
Diante de tão humilhante derrota, o coronel de patente que se achava um general na política nunca se recuperou do tombo e por isto mesmo jamais voltaria a disputar eleições. Parafraseando o saudoso Belchior, o dublê de político e banqueiro se recolheu à sede do BIC, ali na Barão do Rio Branco, e passou a contar, com mais acuidade, seus vis metais.
Sob enorme expectativa o senhor assumiu seu primeiro mandato em 15 de março de 1987. Um dia marcado pelo clima de festa cívica e euforia popular. E o senhor não decepcionou a galera ao escalar um timaço de auxiliares de primeiro escalão. Um secretariado composto por nomes da maior respeitabilidade, competência e espírito público. Imaginem você colocar num mesmo estafe um Eudoro Santana, um
Barros Pinho, um Paulo Elpídio, um Ariosto Holanda, um lima Matos, um Vasco Damasceno Weine, Antônio Rocha Magalhães, Chico Lima etc. Me permita nobre “Senador” só um reparo. Talvez o senhor tenha errado na escolha do capitão desta seleção de homens públicos competentes e probos. O senhor colocou como capitão deste time um jogador que se sentia dono do campo, da bola, das chuteiras, das
camisas e até do apito do juiz. Refiro-me ao empresário Sérgio Machado, uma espécie de eminência parda no seu primeiro governo. Ele nunca jogou em função do coletivo. Nunca agregou, nem tampouco exerceu o cargo de confiança com generosidade. Nesse sentido, o dream time foi se desmilinguindo, derretendo feito um sorvete ao sol inclemente do nosso estado. Como num bigbrother, um a um seus auxiliares foram sendo eliminados. Talvez tenha sido esta a razão dos descaminhos do seu governo. O Serjão, também chamado de premiê ou de Samurai, foi empurrando o seu governo do centro conservador para a direita reacionária.
O senhor magnetizou nossa gente, nos fez sonhar, nos fez esperançar, ter fé num futuro melhor. O povão sofrido e abandonado abraçou sua campanha com força, com paixão. E agora, 40 anos depois, eu lhe pergunto “Senador”: será que o senhor abraçou este povão do Ceará de verdade? Com a mesma paixão? Com o mesmo entusiasmo que se via nas ruas das cidades e nas localidades do interior? Será que todas as
promessas feitas nas ruas, nos palanques não passaram de mera retórica vazia? Com a palavra Vossa Excelência.
No Ceará de um novo “Salvador da pátria,” ou de um novo “Messias”, no que pese, durante seus governos, os indicadores sociais específicos como a mortalidade infantil e o analfabetismo terem diminuído de forma relevante, a pobreza absoluta e a alta concentração de renda mantiveram-se elevadas, o que gerou enorme frustração no povo de um modo geral diante da promessa mirabolante inicial de erradicar a miséria. Se o seu governo não tivesse que administrar sob o tacão do receituário neoliberal e draconiano do Banco Mundial, certamente as promessas de campanha poderiam ter saído dos palanques para mudar realmente o perfil trágico do nosso estado. Mas sobre seu primeiro governo me deterei noutra oportunidade,
Sinceramente, meu “Senador”, não entendo como um cabra passado na casca do alho, um senhor quase octogenário, não se sinta constrangido ao dividir palanque com esta escumalha bolsonarista. Figuras horripilantes que são o suprassumo da imbecilidade, da idiotice e da indigência mental e moral.
Esta turma nada mais é, “Senador, do que a carcaça fétida de fascistas anacrônicos, defuntos ideológicos insepultos. Que vexame para um político que já foi 3 vezes governador, 2 vezes senador, duas vezes presidente de um partido de âmbito nacional como o PSDB. Um político que, num passado recente, era sempre lembrado para disputar a presidência da República. Tenha dó meu “Senador”. O senhor foi
correligionário de políticos respeitáveis como Fernando Henrique, Mário Covas, Franco Montoro, Pimenta da Veiga, José Richa, para ficar em poucos, e não tem o direito de, do dia para a noite, se transformar em macaco de auditório de políticos desqualificados, sem espírito público, umas nulidades. “Senador,” não rasgue a sua biografia, não jogue o nome da sua família na lata do lixo da história. Lembre-se do nome do seu pai, um grande empreendedor, político de boa cepa que honrou os mandatos populares que conquistou.
Carlos Jereissati, o Calila, que tão cedo nos deixou quando exercia mandato de senador não merece o que o senhor está fazendo com o brasão da família Jereissati. Eu imagino o seu constrangimento, eterno senador, ao se ombrear com um fascistinha como este tal de André Fernandes, cuja alcunha deve fazer corar a sua descendência. “Senador”, infelizmente, eu tenho que lhe perguntar: o senhor consegue, à noite, no recesso do seu lar, na sua alcova inexpugnável, se olhar no espelho sem sentir nenhum tipo de arrependimento ou lhe
assoma o medo da decadência moral?
Será que o senhor consegue dizer pros seus filhos com que tipo de gente o senhor tem se acompanhado no ocaso da sua vida? “Senador”, por favor, saia da vida político-eleitoral pela porta da frente, por onde tão airosamente o senhor entrou. A porta dos fundos está reservada a escória humana. Não pegue corda do Ciro. Seu eterno parceiro de empreitadas política é, hoje, um poço de ressentimento, um homem
profundamente amargo e sem futuro na política local e nacional. Aproveite o grau de amizade que vos une e dê conselhos para que ele não suje mais suas mão no charco do nazifascismo.
Meu “Senador”, não constranja sua fiel companheira de uma vida toda. A ínclita e eterna primeira-dama do nosso estado, dona Renata, uma Queiroz do tronco familiar do saudoso Edson, um empresário que é motivo de orgulho para o setor produtivo cearense. Um visionário, um homem a frente do seu tempo. Imagine, caro Jereissati, seus filhos o verem em companhia de um pastor como este Alcides. “Senador” peça ao Ciro que afaste do senhor este cálice, que, diferente dom Santo Graal. não contém o sangue de Jesus. O cálice que o Ciro lhe oferece contém fel, um líquido pernicioso que mistura rancor, ódio, inveja e a hipocrisia bolsonarista.
Resista como Jesus resistiu, no episódio bíblico em que o filho de Deus, após jejuar por 40 dias e 40 noites no deserto da Judeia, foi testado pelo diabo. O fato está registrado nos evangelhos de Mateus 4:1- 11, Marcos 1:12-13 e Lucas 4:1-13; na literatura destes evangelistas, Jesus recusou todas as ofertas do Satanás e venceu o tentador usando as Escrituras. Use-as, nobre ex-parlamentar.
Não se esqueça, ilustre “Senador”, entre vocês dois quem sempre teve mais juízo foi o amigo (perdoe-me chamá-lo de amigo, mas sou só um observador da cena política que tenta lhe abrir os olhos, um alguém que, embora não faça parte do seu círculo próximo, demonstra preocupação com o legado do senhor). O Ciro sempre foi destemperado, um doidivanas, uma Maria, a Louca. Já vosmecê, ao contrário, sempre mediu suas palavras, seus atos. Um político ponderado que nunca fez política com o fígado. Pense em tudo que escrevi nesta carta, caro “Senador,” a sua opinião sempre teve muito peso na sociedade cearense. O senhor referendaria a misoginia, a xenofobia, o racismo, a homofobia? Creio que não. Um forte abraço.
PS. Ah, ia esquecendo “Senador”: como estão os seus netos? A pergunta me veio a cabeça em função do que o senhor prometeu após ser derrotado na eleição de 2010, quando tentava a releição para o Senado. Aliás, nesta citada eleição, tal e qual um Brutus, o Ciro Gomes o apunhalou pelas costas, indo se aninhar no palanque dos seus algozes. Depois da derrota, o senhor foi categórico: “vou me dedicar agora a cuidar dos meus netos.” Um lembrete final. Não deixe que seus netinhos vejam o material de campanha dos seus candidatos bolsonaristas. Não seria de bom tom.
*Francisco Bezerra
Jornalista, radialista e escritor.