“Debate mostra Elmano desenvolto e Ciro repetitivo” – Por Luiz Henrique Campos

Ciro e Elmano travaram, nesse domingo (9/8/2026), primeiro debate. Foto: Reprodução

Com o título “Debate mostra Elmano desenvolto e Ciro repetitivo”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, do jornalista Luiz Henrique Campos. “O primeiro debate não decidiu a eleição. Mas deixou a impressão política importante. Ciro falou como quem ainda disputa o Ceará de três décadas atrás. Elmano falou como quem pretende continuar governando o Ceará de agora. E essa diferença, em uma eleição, pode valer mais do que muitos números”, expõe o colunista.

Confira:

Ciro Gomes entrou no primeiro debate para o Governo do Ceará com aquilo que sempre foi sua principal arma, a palavra. Elmano de Freitas entrou com aquilo que muitos imaginavam ser sua principal fragilidade, a falta de carisma. O resultado, porém, pregou peça no roteiro antecipado. Quem esperava o governador acuado encontrou Elmano desenvolto. E quem esperava Ciro dominante, encontrou um candidato repetindo, em boa parte da noite, o velho repertório que o acompanha há décadas.

Elmano tinha tudo para ser trucidado no debate. Ciro conhece televisão, domina a retórica, tem rapidez para o ataque e não costuma economizar adjetivos. Mas o governador não apenas sobreviveu ao confronto. Saiu dele maior do que entrou. Falou com segurança, rebateu números e, em vários momentos, obrigou Ciro a abandonar a ofensiva para explicar o próprio passado.

Foi aí que apareceu uma das fragilidades do discurso cirista. Ao apresentar números sobre empregos, saúde e contratação de policiais, Ciro ouviu de Elmano pergunta incômoda sobre como estavam esses mesmos indicadores quando ele próprio governava o Ceará. O passado, que tantas vezes parece fotografia distante, voltou ao debate como espelho. E nem sempre espelhos são agradáveis.

Também chamou atenção o isolamento político de Ciro. Em nenhum momento ele pareceu interessado em apresentar sua tropa de apoiadores. Elmano fez exatamente o contrário. Lula, Camilo, Cid e Luizianne foram chamados para dentro do debate. E, quando faltaram argumentos novos, o governador ainda tratou de apresentar os aliados de Ciro pelo apelido que considerou mais conveniente, como Capitão Motim, pastor que pede a morte de Lula e, por fim, o já batizado “Cironaro”. Pode-se discutir a elegância do expediente. Mas não sua eficácia eleitoral. Ciro, que costuma desqualificar adversários com facilidade, descobriu que também pode ser vítima do método.

Na saúde, a situação ficou ainda mais desconfortável. O discurso recorrente de Ciro sobre corrupção encontrou pela frente a lembrança das acusações envolvendo a gestão de Roberto Cláudio na montagem dos hospitais da Covid, além da crise da Santa Casa durante a administração Sarto. Ciro, tão disposto a cobrar explicações, acabou tendo de ouvir algumas que não estavam exatamente na pauta que pretendia estabelecer.

Na segurança, outro velho tema voltou à mesa. Ciro falou do combate à violência como quem revisita tese conhecida. O problema é que o Ceará de hoje não é o Ceará de trinta anos atrás. E o eleitor talvez esteja menos interessado em ouvir discursos conhecidos do que em saber quais soluções estão sendo propostas. Nesse sentido, nada além de um grande museu de novidades.

Até as ironias pareceram envelhecidas. Ciro tentou provocar, fazer graça, desferir algumas estocadas. Algumas soaram mais como exercícios de estilo do que como argumentos capazes de mudar a percepção do eleitor. No fim, talvez a grande surpresa tenha sido justamente a de que Ciro descobriu um Elmano que não esperava encontrar. Mais preparado, mais firme e menos vulnerável aos ataques. Elmano, por sua vez, descobriu que pode enfrentar Ciro sem baixar a cabeça.

O primeiro debate não decidiu a eleição. Mas deixou a impressão política importante. Ciro falou como quem ainda disputa o Ceará de três décadas atrás. Elmano falou como quem pretende continuar governando o Ceará de agora. E essa diferença, em uma eleição, pode valer mais do que muitos números.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

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