“Do gramado às urnas: o verdadeiro jogo é a confiança nas instituições” – Por Jurandir Gurgel

Jurandir Gurgel é mestre em Economia e membro da Fundação Sintaf-Ceará. Foto: Arquivo Pessoal

Com o titulo “Do gramado às urnas: o verdadeiro jogo é a confiança nas instituições”, eis artigo de Jurandir Gurgel, mestre em Economia e membro do Conselho Curador da Fundação SINTAF de Ensino e Pesquisa. “Sob essa perspectiva, a Copa do Mundo oferece uma lição que transcende o esporte: apesar das controvérsias e pressões externas, prevaleceu quem demonstrou maior preparo e consistência. Quando as regras são preservadas, o mérito legitima o resultado; quando são fragilizadas, é a própria confiança na competição que se perde”, expõe o articulista.

Confira:

O calendário de 2026 reservou ao Brasil dois acontecimentos capazes de mobilizar intensamente a sociedade: a Copa do Mundo e as eleições gerais. Em poucas semanas, o entusiasmo que uniu milhões de brasileiros em torno da seleção nacional deu lugar ao debate
político. O apito final nos estádios marcou, simbolicamente, a largada da disputa eleitoral. Mudou o palco, mudaram os protagonistas, mas permaneceu o mesmo elemento essencial: a confiança nas instituições responsáveis por organizar a regra do jogo.

À primeira vista, futebol e política pertencem a universos distintos. Um desperta paixões esportivas; o outro define os rumos do Estado. Contudo, ambos dependem da legitimidade das regras e da credibilidade das instituições responsáveis e envolvidas pela participação dos
eventos. No futebol, essa responsabilidade recai sobre a FIFA; na democracia, sobre os partidos políticos, a Justiça Eleitoral, o Congresso Nacional e os demais Poderes da República. Sem confiança nessas instituições, nem a vitória em campo nem o resultado das urnas produzem a legitimidade necessária para garantir a confiança e unir a sociedade.

A experiência recente demonstra que credibilidade institucional não é patrimônio permanente. A FIFA, referência máxima do futebol mundial, teve sua imagem abalada por escândalos de corrupção e recentes controvérsias sobre sua governança e independência. A lição é inequívoca: instituições podem superar crises, mas sua autoridade depende da confiança que são capazes de preservar.

Douglass North, Nobel de Economia, sintetizou essa lógica ao definir as instituições como as “regras do jogo” da sociedade. Regras claras, estáveis e imparciais reduzem incertezas, orientam comportamentos e fortalecem a confiança coletiva; quando se tornam instáveis ou
seletivas, elevam os custos sociais e corroem a legitimidade institucional.

Sob essa perspectiva, a Copa do Mundo oferece uma lição que transcende o esporte: apesardas controvérsias e pressões externas, prevaleceu quem demonstrou maior preparo e consistência. Quando as regras são preservadas, o mérito legitima o resultado; quando são
fragilizadas, é a própria confiança na competição que se perde.

No campo da democracia, contudo, enfrenta desafios mais complexos. As eleições não são apenas uma disputa entre candidatos; representam um teste permanente da confiança dos cidadãos em suas instituições. Em um ambiente marcado por intensa polarização, pela
velocidade das redes sociais e pela permanente disputa de narrativas, cresce a dificuldade de distinguir projetos de Estado de estratégias eleitorais, compromisso público de conveniência política, liderança voltada ao interesse próprio em detrimento do interesse coletivo.

Mais preocupante ainda é quando a política deixa de oferecer referências capazes de inspirar a sociedade. O problema não reside apenas na sucessão de escândalos que, ao longo das últimas décadas, atingiram diferentes partidos, governos e agentes públicos. O dano mais profundo consiste na erosão gradual da confiança coletiva, elemento indispensável ao funcionamento de qualquer democracia. Quando o cidadão passa a acreditar que as regras servem apenas aos interesses de quem exerce o poder, instala-se um ciclo de descrédito que enfraquece tanto as instituições quanto a própria crença no estado democrático de direito.

Uma pesquisa recente da Genial/Quaest evidencia um expressivo déficit de confiança nas instituições políticas brasileiras. Enquanto instituições religiosas (76%) e de segurança (75%) apresentam elevada credibilidade, partidos políticos (44%), Congresso (49%) e STF (50%)
registram índices bem inferiores, revelando uma diferença média de 26 pontos percentuais. Em contraste, o PIX alcança 80% de confiança, sugerindo que a credibilidade institucional está diretamente associada à eficiência, previsibilidade e capacidade de entregar resultados à
sociedade.

Essa preocupação remonta à Antiguidade. Em Vidas Paralelas, Plutarco – filósofo, educador e biógrafo da tradição clássica – não escreveu apenas para preservar a memória de estadistas, generais e governantes da Grécia e de Roma. Seu propósito era essencialmente cívico:
demonstrar que a solidez das instituições depende, em grande medida, da qualidade moral daqueles que as conduzem. Para Plutarco, virtudes como prudência, coragem, temperança, justiça e senso de dever não são transmitidas por definições teóricas, mas pelo exemplo
concreto de homens públicos cuja conduta inspira, educa e molda o caráter das gerações que os sucedem.

Essa reflexão permanece atual e conduz a uma provocação inevitável: se Plutarco tivesse de escrever hoje suas Vidas Paralelas tomando como referência parte de nossos agentes políticos, talvez encontrasse dificuldade em cumprir seu propósito pedagógico. Afinal, sua obra buscava revelar, por meio da trajetória de homens públicos, exemplos de virtude, prudência, coragem e compromisso com o bem comum.

Em contraste, a sucessão de escândalos, desvios éticos e condutas incompatíveis com o espírito republicano que envolve parcela da vida política contemporânea ofereceria ao biógrafo menos exemplos a serem seguidos e mais advertências sobre aquilo que uma República deve evitar. E esse talvez seja o aspecto mais preocupante: quando aqueles que deveriam servir de referência pública passam a simbolizar a erosão dos valores que representam, o prejuízo não se limita à confiança nas instituições – alcança a formação cívica das gerações que aprendem, também pelo exemplo, o significado da política.

A confiança na democracia não se fortalece pela suspeição de seus instrumentos, mas pelo aperfeiçoamento das instituições e pela qualidade das escolhas que fazemos. Esse é o verdadeiro desafio das eleições de 2026: ao escolher seus representantes, a sociedade não decide apenas quem exercerá o poder, mas também quais padrões de liderança, valores republicanos e exemplos públicos deseja legitimar.

Encerrada a Copa do Mundo, começa uma disputa muito mais decisiva: não por uma taça, mas pela credibilidade da República. Governos passam, mandatos terminam e vitórias eleitorais são circunstanciais; instituições sólidas permanecem. Por isso, o voto não encerra a
responsabilidade do cidadão – ele a inaugura. Cada geração recebe uma democracia como herança, mas será julgada pelos valores democráticos que deixar como legado.

*Jurandir Gurgel

Mestre em Economia, membro do Conselho Curador da Fundação SINTAF de Ensino e Pesquisa.

jggondim@terra.com.br

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