Com o título “O desafio de uma marca é ser genuína diante dos excessos”, eis artigo de Tamires Soares Brito, diretora executiva do Nosso Meio. “O desafio, portanto, não é falar mais alto em meio ao excesso. É ter clareza suficiente sobre o próprio propósito para saber quando vale a pena falar e quando o silêncio, ou a simples consistência do dia a dia, comunica mais do que qualquer campanha. Em um mercado inchado de discurso, a marca que se destaca é a que resiste à tentação de se moldar para caber em todo lugar”, expõe a articulista.
Confira:
Vivemos a era em que quase toda marca fala. Fala em redes sociais, em campanhas, em posicionamento, em propósito. O problema não é a quantidade de vozes, é que, em meio a tanto ruído, ficou cada vez mais difícil distinguir quem tem algo genuíno a dizer de quem apenas repete a cartilha do momento.
Na posição que ocupo hoje, tenho acompanhado de perto os movimentos de mercado e as iniciativas de marcas de diferentes segmentos. Esse contato me permite observar que em muitos momentos o excesso virou o pano de fundo da comunicação. Excesso de conteúdo, de tendências, de fórmulas prontas, de marcas tentando parecer relevantes usando o mesmo vocabulário, os mesmos formatos, os mesmos gatilhos emocionais. Nesse cenário, não importa mais parecer real, mas ser de fato.
Isso muda a régua de como avaliamos uma marca. Não basta comunicar bem, é preciso que exista coerência entre o que se diz e o que se pratica. O consumidor de hoje, especialmente o público mais jovem, tem um radar afinado para identificar discurso vazio. Ele não julga apenas a campanha, ele acompanha a empresa ao longo do tempo, observa como ela se comporta nos bastidores, como trata quem trabalha para ela, como reage quando erra. A confiança, nesse contexto, depende da repetição consistente de comportamento.
Isso não significa que estratégia e consistência sejam opostos à espontaneidade. Muito pelo contrário, as marcas mais autênticas que conheço são também as mais disciplinadas. Elas sabem exatamente quem são, o que representam e onde não vão ceder, e é essa clareza que permite que se comuniquem com naturalidade, sem precisar forçar um tom que não pertence a elas. A autenticidade, quando bem trabalhada, não é ausência de estratégia, mas o resultado de uma estratégia muito bem resolvida internamente antes de chegar ao público.
O desafio, portanto, não é falar mais alto em meio ao excesso. É ter clareza suficiente sobre o próprio propósito para saber quando vale a pena falar e quando o silêncio, ou a simples consistência do dia a dia, comunica mais do que qualquer campanha. Em um mercado inchado de discurso, a marca que se destaca é a que resiste à tentação de se moldar para caber em todo lugar.
No fim, talvez o maior ato de ousadia de uma marca hoje seja simplesmente continuar sendo ela mesma.
*Tamires Soares Brito
Diretora executiva do Nosso Meio.