Com o título “Fuga burlesca de Trump nos lembra os filmes da Sessão da Tarde”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar, assinada pelo jornalista e psicólogo Luiz Henrique Campos. “Para preservar Trump, os demais passageiros e autoridades que estavam ao seu redor parecem ter sido tratados como figurantes de história cujo protagonista precisava sobreviver a qualquer custo. Entre eles, inclusive, aqueles que poderiam ocupar a linha sucessória do poder americano. Tudo em nome da missão maior, naquele velho espírito do verso de Vandré: morrer pela pátria e morrer sem razão”, expõe o colunista.
Confira:
Há episódios da política internacional atualmente que parecem ter saído de roteiro de comédia da velha Sessão da Tarde da TV Globo. A suposta fuga de Donald Trump, em Ancara, de um avião para outro — e a história de seu deslocamento protegido em carro frigorífico diante do temor de possível atentado iraniano — tem todos os ingredientes dessas produções em que o surreal e a realidade se encontram sem cerimônia. A cena seria engraçada, não fosse o contexto. O homem considerado por muitos como o mais poderoso do planeta, cercado pela mais sofisticada estrutura de segurança que um Estado pode oferecer, precisando ser retirado às pressas de situação de risco, da forma como se deu, revela contradição perturbadora.
Se alguém como Trump, protegido por agentes, tecnologia e protocolos de segurança, não está completamente a salvo, o que dizer dos seres humanos comuns, que atravessam diariamente um mundo cada vez mais imprevisível? Há ainda aspecto quase burlesco na operação. Para preservar Trump, os demais passageiros e autoridades que estavam ao seu redor parecem ter sido tratados como figurantes de história cujo protagonista precisava sobreviver a qualquer custo. Entre eles, inclusive, aqueles que poderiam ocupar a linha sucessória do poder americano. Tudo em nome da missão maior, naquele velho espírito do verso de Vandré: morrer pela pátria e morrer sem razão.
O episódio, entretanto, merece menos gargalhadas do que reflexão. A retomada da visão de mundo baseada predominantemente na força, na intimidação e na lógica do inimigo permanente apenas amplia a paranoia internacional. Quando governos passam a enxergar ameaças em cada esquina, o medo deixa de ser consequência da política e passa a ser combustível dela. É nesse ambiente que prosperam os exageros, as teorias conspiratórias e as interpretações delirantes da realidade. A geopolítica parece, em alguns momentos, ter adquirido contornos de esquizofrenia coletiva, vide o despenteado presidente argentino, na qual dirigentes e seguidores transformam qualquer acontecimento em prova de conspiração.
O fato protagonizado por Trump talvez seja apenas uma cena pitoresca de um mundo perigosamente sério. Rimos da fuga, do carro frigorífico e da extravagância do roteiro. Mas, por trás da comédia involuntária, existe pergunta incômoda: até onde a humanidade armada, desconfiada e permanentemente assustada pretende chegar? Quando a política transforma o planeta em cenário de guerra permanente, até a realidade começa a parecer filme. O problema é que, desta vez, não há Sessão da Tarde capaz de interromper a transmissão.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.