“Cid Carvalho – A Voz que ficou no Ar” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovíítera: o contador de hstórias. Foto: Portal IN

Com o título “Cid Carvalho – A Voz que ficou no Ar”, eis crônica de Totonhom Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico. Ele fala sobre um dos maiores radialistas do Ceará.

Confira:

Fecho os olhos. E ouço Cid Carvalho falando como quem reza.

Sua voz chegava mansa, mas nunca despercebida. Entrava pelo rádio, atravessava a sala e, de algum modo, sentava-se ao nosso lado.

Cid tinha o dom da palavra. Não apenas falava. Esculpia ideias. Dava ritmo ao pensamento, respirava as frases, fazia da pausa também uma forma de dizer.

Era um artista da comunicação.

Mas havia, por trás daquela voz serena, um guerreiro. Cid era combativo. Firme nos princípios, fiel aos ideais, não fugia da luta nem recuava diante das dificuldades. Sabia defender suas convicções sem perder a elegância, enfrentar o debate sem abandonar o respeito.

Sua arma era a palavra. E ele sabia manejá-la como poucos.

Quando Cid falava, o tempo parecia suspender os ponteiros. Relógios e calendários perdiam a importância. Ficava apenas aquela voz, conduzindo pensamentos, histórias, lembranças e sentimentos.

Ouvir Cid era uma maneira de ler o mundo. Ele enxergava além da notícia. Percebia o homem por trás do acontecimento, a emoção escondida no cotidiano, a vida por trás das palavras.

E fazia isso sem espalhafato. Sua força estava justamente na simplicidade. Uma palavra bem colocada. Uma pausa no momento certo. Um silêncio dizendo quase tanto quanto a própria fala.

Hoje, quando ligo o rádio, sinto sua falta. O _Doa a Quem Doer_ dói na saudade espalhada pelas _Antenas e Rotativas_ e por essas léguas de infinito onde continuam viajando as vozes capazes de permanecer.

Cid Carvalho permaneceu. Permaneceu na memória de quem o ouviu, na história do rádio cearense e, sobretudo, naquele lugar invisível onde moram as vozes capazes de nos fazer companhia mesmo depois do silêncio.

Por isso, fecho os olhos novamente.

E lá está Cid. Falando. Lutando. Defendendo suas ideias. Como quem reza.

E talvez seja esse o maior milagre da palavra: algumas vozes partem…
mas nunca deixam de ser ouvidas.

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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