“A retroalimentação do medo como mote de campanha” – Por Luiz Henrique Campos

Hora de explorar o medo para ganhar votos. Foto: Arquivo

Com o título “A retroalimentação do medo como mote de campanha”, eis artigo de Luiz Henrique Campos, jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar. “A população sente-se insegura, os políticos percebem essa insegurança e passam a explorá-la eleitoralmente. Quanto mais se fala sobre violência sem apresentar respostas concretas, maior é a sensação de que estamos diante de problema sem saída por parte do governo de plantão. E quanto maior o medo, mais fácil se torna vender ao eleitor soluções rápidas, radicais e, muitas vezes, impraticáveis”, expõe o colunista.

Confira:

A violência parece ter escolhido seu lugar na eleição deste ano como o centro do discurso político. Basta acompanhar as primeiras movimentações dos candidatos para perceber que segurança pública deverá ser a principal moeda eleitoral. O problema é que, até aqui, fala-se muito mais sobre o medo do que sobre as soluções capazes de enfrentá-lo.

Não é preciso ser especialista em segurança para perceber que o problema brasileiro é complexo demais para caber em frases de efeito. Violência não nasce de única causa, tampouco desaparece com medidas voluntaristas. Exige inteligência policial, investigação, integração entre as forças de segurança, combate ao crime organizado, prevenção, recuperação de territórios e, sobretudo, políticas sociais capazes de reduzir a vulnerabilidade de milhares de jovens.

O que se observa, entretanto, é espécie de retroalimentação do medo. A população sente-se insegura, os políticos percebem essa insegurança e passam a explorá-la eleitoralmente. Quanto mais se fala sobre violência sem apresentar respostas concretas, maior é a sensação de que estamos diante de problema sem saída por parte do governo de plantão. E quanto maior o medo, mais fácil se torna vender ao eleitor soluções rápidas, radicais e, muitas vezes, impraticáveis.

É nesse ambiente que surgem os salvadores de ocasião, sempre munidos de discursos duros e promessas aparentemente definitivas. Prendem-se mais pessoas, armam-se mais agentes, endurecem-se penas e anuncia-se guerra verbal contra o crime. Tudo parece muito simples no palanque. O difícil é explicar como essas medidas serão executadas, quanto custarão e quais resultados efetivamente produzirão.

A segurança pública não pode ser transformada em espetáculo eleitoral apenas como temos visto por parte de useiros e vezeiros em produzir vídeos nas redes sociais. O eleitor tem o direito de saber quais são as propostas, quais metas serão perseguidas, quais recursos serão destinados e como será medida a eficiência das políticas anunciadas. Afinal, governar não é apenas identificar o problema, mas apresentar caminhos possíveis para enfrentá-lo.

O grande risco é que o medo deixe de ser consequência da violência e passe a ser também instrumento de sua exploração política. Quando isso acontece, cria-se círculo perverso, onde a insegurança alimenta o discurso, o discurso amplia a insegurança e a insegurança, por sua vez, fortalece aqueles que fizeram dela sua principal bandeira.

A eleição deveria romper esse ciclo. Segurança é direito fundamental e não pode ser tratada como simples mote de campanha. O eleitor merece menos gritos e mais projetos; menos promessas e mais planejamento; menos exploração do medo e mais compromisso com resultados.

No fim, a verdadeira coragem política talvez esteja justamente em abandonar as soluções fáceis para enfrentar problemas difíceis. Porque combater a violência exige muito mais do que discurso duro. Exige competência, recursos, integração e continuidade. Transformar o medo em voto pode até render dividendos eleitorais. Transformá-lo em segurança, porém, é responsabilidade de quem pretende governar com um mínimo de respeito a quem lhe autorizou a fazê-lo, ludibriado, ou não.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

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