Com o título “Sublimação é Viver: A Economia é Meio para a Vida em Sua Poesia”, eis artigo de Célio Fernando Bezerra Melo, presidente da Academia Cearense de Economia. ” A economia, longe de ser fria abstração de números e mercados, revela-se meio para compreender essa vida, ou talvez apenas um espelho tardio do que a poesia já sabia por intuição”, expõe o articulista.
Confira:
A dor transformada é força, a escassez compartilhada é abundância, e nenhuma travessia se faz sozinha, ela se faz de propósito, de resignação e de companhia, os três elementos que, no fim, transformam sobreviver em viver.
Nossas imperfeições nos levam todos os dias a recomeçar. O nome é resiliência. Muitas vezes a dor nos busca para desafios onde preenchemos vazios com mais força e determinação. Superação nunca foi a melhor palavra, sublimação me traduz muito mais. Ao encontrar tantas literaturas que trazem esse rebento do amor incondicional e ter vivido as mais diversas perdas, tudo passa a ser vitória. Um copo d’água é suficiente na sede das travessias dos muitos desertos. Às vezes encontramos oásis: os melhores momentos da vida. Ninguém consegue fazer nada só, é preciso as companhias para viver. Não se trata nunca de sobrevivência.
Essa distinção entre superar e sublimar não é apenas semântica, é filosofia de vida. Superar sugere vencer um obstáculo e deixá-lo para trás. Sublimar é transformar a dor em substância criativa, em força que permanece e floresce. Transformar vidas exige propósito e resignação, não a resignação que se curva e desiste, mas aquela que aceita a dor como parte do caminho para segui-lo com mais clareza. José Saramago escreveu: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” (Ensaio sobre a Cegueira, 1995). A cegueira que assola sua narrativa é metáfora exata dessas imperfeições que nos levam a recomeçar todos os dias. No caos, os personagens não se salvam sozinhos, eles se reconhecem na coletividade forçada pelo sofrimento comum, provando que mesmo na escuridão mais absoluta, é o vínculo, não a solidão, que sustenta a travessia.
Nessa mesma direção, Toni Morrison aprofunda esse sublimar, tratando o trauma não como algo a ser superado e esquecido, mas como memória que se transforma em amor e identidade. Ela escreve: “Freeing yourself was one thing, claiming ownership of that freed self was another.” (Beloved, 1987). Esse é o sublimar em sua forma mais pura: não apagar a dor, mas reivindicá-la como parte de quem se tornou. O rebento do amor incondicional que se menciona, nascido justamente das perdas mais diversas, encontra em Morrison sua tradução literária
mais precisa, a dor que gera amor, e não ressentimento.
Se a poesia nos ensina a nomear o sublimar, a economia nos ensina a medi-la como capacidade humana. Amartya Sen argumenta que o verdadeiro desenvolvimento não se mede pela ausência de privação, mas pela capacidade do indivíduo de converter adversidade em liberdade real de escolha, o que ele chama de capability (Development as Freedom, 1999). O copo d’água suficiente na sede das travessias é, na linguagem de Sen, a prova de que a riqueza não está na abundância, mas na capacidade de transformar o pouco em suficiente, o deserto em possibilidade.
Nesse sentido, se ninguém consegue fazer nada só, é Elinor Ostrom quem oferece a comprovação econômica dessa verdade poética. Ostrom, a primeira e até hoje única mulher a receber o Nobel de Economia, demonstrou que comunidades que compartilham recursos escassos, água, terra, bens comuns, prosperam através da confiança mútua e da cooperação, não da competição isolada (Governing the Commons, 1990). Seus estudos sobre gestão coletiva de recursos são, em essência, a economia dos oásis: os melhores momentos da vida, nas palavras dela, acontecem quando a comunidade decide atravessar a deserto junta.
Talvez sublimar seja apenas isso, viver. A economia, longe de ser fria abstração de números e mercados, revela-se meio para compreender essa vida, ou talvez apenas um espelho tardio do que a poesia já sabia por intuição.
*Celio Fernando Bezerra de Melo
Presidente da Academia Cearense de Economia.