“China e o desafio à estratégia americana de estrangulamento da economia do Irã” – Por Vanilo de Carvalho

Vanilo de Carvlaho é advogado e mestre em Negócios Internacionais. Fotot: Acervo Pessoal.

Com o título “China e o desafio à estratégia americana de estrangulamento da economia do Irã”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, professor, advogado, especialista em Direito Constitucional e mestre em Negócios Internacionais. “

Confira:

A estratégia norte-americana contra o Irã busca reduzir suas receitas de petróleo, bloquear canais financeiros e pressionar seus parceiros comerciais por meio de sanções secundárias. O objetivo é limitar a capacidade de Teerã de financiar o Estado, sustentar a economia e manter sua política externa.

O principal obstáculo para Washington é a China, que ocupa uma posição capaz de reduzir significativamente a eficácia dessa estratégia.

Em abril de 2026, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos reconheceu que a China compra aproximadamente 90% das exportações de petróleo iraniano, grande parte destinada a refinarias independentes conhecidas como teapots. Em 2025, as importações chinesas teriam alcançado, em média, 1,38 milhão de barris por dia.

Essa relação funciona, portanto, como uma importante válvula de sobrevivência econômica para Teerã.

O papel da China no comércio de petróleo

Enquanto houver um grande comprador disposto a adquirir petróleo iraniano, ainda que com desconto e por meio de estruturas comerciais complexas, o bloqueio americano terá eficácia limitada.

A China reúne um enorme mercado consumidor, refinarias independentes, capacidade financeira e infraestrutura logística. As teapots, especialmente concentradas em Shandong, possuem menor exposição ao sistema financeiro americano e podem assumir riscos que grandes bancos e companhias internacionais evitam.

Os descontos oferecidos pelo Irã reforçam esse incentivo. Para determinados agentes chineses, o comércio com Teerã representa não apenas um desafio às sanções, mas também uma oportunidade de obter energia mais barata.

A dimensão financeira

A força das sanções americanas depende da centralidade do dólar e do controle de Washington sobre o sistema financeiro internacional. Para reduzir essa vulnerabilidade, China e Irã vêm ampliando o uso de moedas nacionais, especialmente o renminbi, além de recorrer a bancos chineses menos expostos ao sistema financeiro americano.

Esses mecanismos não eliminam a dependência do sistema global, mas criam canais de proteção contra parte das sanções.

Também existem operações de compensação e acordos semelhantes a oil-for-infrastructure, nos quais receitas do petróleo são vinculadas à compra de produtos e à execução de projetos por empresas chinesas. A Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China identificou operações desse tipo envolvendo bilhões de dólares.

Assim, o Irã não deixa de depender completamente da arquitetura econômica ocidental, mas passa a contar com uma rede alternativa centrada na China.

O dilema de Washington

Para estrangular efetivamente a economia iraniana, os Estados Unidos teriam de ampliar a pressão sobre refinarias, compradores e instituições financeiras chinesas.

Essa medida, porém, poderia transformar a questão iraniana em uma crise direta entre Washington e Pequim. A nova ofensiva já atingiu empresas chinesas, mas Washington ainda evitou sancionar amplamente os maiores bancos envolvidos no comércio com o Irã.

A cautela decorre do risco de retaliações chinesas em áreas como comércio, tecnologia, minerais críticos e cadeias industriais. O custo de pressionar o Irã pode ser abrir uma nova frente de confronto econômico com a China.

Os limites da resposta chinesa

Pequim, contudo, não pode tornar as sanções irrelevantes.

O renminbi ainda não possui a mesma circulação internacional do dólar, e o sistema financeiro chinês permanece fortemente regulado. Empresas iranianas continuam dependendo de dólares e euros para determinadas operações. Além disso, a internacionalização do renminbi enfrenta limitações para substituir o dólar no comércio global de energia.

A pressão americana também produziu efeitos concretos: as exportações iranianas de petróleo para a China teriam caído para cerca de 534 mil barris por dia em agosto de 2026, contra uma média muito superior em 2025.

A China pode, portanto, atenuar o estrangulamento, mas não anulá-lo.

Uma disputa sobre a ordem financeira

O caso iraniano integra uma disputa mais ampla sobre o uso do dólar como instrumento de poder geopolítico.

Os Estados Unidos ainda controlam pontos centrais do sistema financeiro internacional e podem utilizar sanções secundárias para pressionar empresas e governos estrangeiros. A China, por sua vez, desenvolve gradualmente mecanismos para reduzir essa vulnerabilidade: comércio em moedas nacionais, sistemas próprios de pagamentos, contratos bilaterais e maior integração com países submetidos a sanções ocidentais.

O objetivo de Pequim provavelmente não é destruir o sistema do dólar, mas reduzir a capacidade de Washington de usar seu acesso como instrumento de coerção contra a China e seus parceiros. Por isso, o Irã tornou-se um laboratório estratégico. Se os Estados Unidos conseguirem interromper o comércio sino-iraniano e fechar seus canais financeiros, demonstrarão que ainda controlam amplamente os fluxos econômicos globais. Se a China mantiver parte significativa desse comércio, ficará evidente que as sanções encontram limites quando
confrontam uma economia de seu tamanho e autonomia.

A disputa, portanto, não envolve apenas Washington e Teerã. Também diz respeito a quem poderá decidir quais países vendem petróleo, em que moeda recebem e por quais sistemas financeiros negociam.

A escalada recente reforça esse dilema. Em 24 de agosto de 2026, Washington ampliou as sanções e advertiu países que mantêm relações econômicas com Teerã. Pequim rejeitou as medidas unilaterais e sinalizou que protegerá seus interesses.

Quanto mais os Estados Unidos tentam transformar o comércio com o Irã em uma questão de sobrevivência econômica, mais incentivam a China a construir alternativas às regras financeiras dominadas por Washington.

*Vanilo de Carvalho

Professor, advogado, especialista em Direito Constitucional e mestre em Negócios Internacionais.

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias