“Uma em cada seis pessoas no mundo vive algum grau de solidão” – Por Washington Araújo

Washington Araújo é psicanalista e jornalista. Reprodução: Blogdoeliomar

“Celulares ocupam os intervalos urbanos antes abertos ao acaso e reduzem encontros entre desconhecidos que ajudavam a ampliar nossa experiência humana comum no dia a dia”, aponta o psicanalista e jornalista Washington Araújo

Confira:

Pessoas aguardam atendimento numa clínica, esperam o elevador, percorrem uma fila, ocupam um ônibus ou dividem uma mesa num aeroporto, enquanto os olhos permanecem voltados para pequenas telas. A proximidade física continua intacta; a disponibilidade para o contato sofreu uma mudança profunda. O telefone ampliou como poucas invenções a comunicação entre pessoas distantes e, ao mesmo tempo, ocupou aqueles intervalos em que desconhecidos costumavam reconhecer a presença uns dos outros. O fenômeno parece pequeno diante das grandes crises contemporâneas, mas toca uma dimensão decisiva da vida urbana: a convivência com quem não escolhemos previamente encontrar.

Em 2025, a Organização Mundial da Saúde divulgou o relatório de sua Comissão sobre Conexão Social e estimou que uma em cada seis pessoas no mundo vive algum grau de solidão. Entre adolescentes e jovens, a proporção é ainda maior. O documento relaciona isolamento e fragilidade de vínculos a consequências sobre saúde, educação, trabalho e vida comunitária, além de chamar atenção para ambientes que dificultam relações presenciais. A dimensão do problema ajuda a perceber o valor de interações que raramente aparecem nas estatísticas: uma conversa de cinco minutos numa fila, um comentário no transporte coletivo, a troca de informações entre pessoas que provavelmente jamais voltarão a se encontrar.

O acaso perde espaço

Esses contatos tiveram durante séculos um papel silencioso na formação das cidades. Esperar o ônibus, procurar um endereço, dividir um banco de praça, comentar uma demora ou perguntar as horas ofereciam pequenas aberturas para a conversa. A maioria delas desaparecia no mesmo instante, sem produzir amizade, compromisso ou qualquer continuidade. Ainda assim, fazia circular experiências entre pessoas de idades, profissões, origens e visões de mundo diferentes. As grandes cidades construíram parte de sua vitalidade sobre essa convivência imprevista, porque obrigavam indivíduos a dividir espaços com gente que nenhuma rede de afinidade havia selecionado.

Pesquisas experimentais recentes ajudam a medir o que mudou. Em estudos realizados com pessoas que ainda não se conheciam, participantes com acesso imediato ao telefone tenderam a interagir menos e a avaliar de maneira menos positiva a experiência de espera. Outro conjunto de pesquisas, conduzido com passageiros de transporte público, encontrou resultado igualmente significativo: pessoas orientadas a conversar com desconhecidos relataram uma experiência melhor do que aquelas que permaneceram isoladas, embora antes do contato tivessem imaginado que a conversa seria menos agradável. Existe, portanto, uma diferença entre aquilo que antecipamos sobre o encontro e aquilo que efetivamente sentimos depois de conversar.

O smartphone modifica esse cenário porque funciona como um endereço portátil para onde a atenção pode se transferir a qualquer instante. O corpo permanece na praça, no metrô ou no café, enquanto a consciência se desloca para uma conversa familiar, uma notícia, um vídeo ou uma rede de pessoas conhecidas. Aos poucos, a cidade começa a reunir multidões presentes pela metade. Essa transformação lembra os antigos portos depois da construção de grandes canais privados: as embarcações continuam diante da mesma costa, mas parte crescente do tráfego passa por rotas que evitam o cais comum. O espaço público permanece cheio, porém uma parcela considerável da circulação humana acontece fora dele.

Olhos que já não se cruzam

A literatura percebeu muito cedo o valor desses instantes. Baudelaire, observando a multidão parisiense do século XIX, transformou o encontro com uma desconhecida em “A uma passante”. A mulher cruza a rua, os olhares se encontram e o poeta resume a violência daquele instante: “Um relâmpago… depois a noite!”. Toda a força do poema depende de uma condição simples e cada vez menos garantida: duas pessoas levantam os olhos no mesmo momento. Walt Whitman escreveu experiência semelhante em “A um estranho”, dirigindo-se a alguém que passa pela rua e sugerindo que, por segundos, uma vida inteira poderia caber naquele reconhecimento. O desconhecido aparece na literatura porque a cidade lhe dava espaço para existir.

Uma pesquisa etnográfica publicada em 2025, realizada em espaços públicos de Oslo, estudou exatamente as condições que favorecem conversas casuais. O trabalho identificou aquilo que o pesquisador chamou de abertura mútua: sinais corporais, posições no espaço, disponibilidade do olhar e situações compartilhadas capazes de permitir que um contato comece. A conclusão possui consequências para a arquitetura urbana e também para os hábitos individuais. Bancos voltados uns para os outros, calçadas agradáveis, mercados, cafés, transporte público e praças podem criar oportunidades; ainda assim, o encontro depende de pessoas suficientemente presentes para reconhecer essas oportunidades.

É nesse ponto que a perda da conversa casual ultrapassa a nostalgia. O ambiente digital permite escolher com extraordinária precisão quem acompanhamos, quais grupos frequentamos, quais assuntos consumimos e de quais pessoas desejamos distância. O espaço público sempre funcionou segundo outra lógica: nele, a sociedade aparece sem filtro prévio. O vizinho de idade diferente, a trabalhadora que pega o mesmo ônibus, o turista perdido, o adolescente no elevador, o vendedor da esquina e a senhora que pergunta sobre uma rua fazem parte de uma convivência que obriga cada pessoa a lidar com a variedade humana sem recorrer imediatamente a mecanismos de seleção.

A cidade fora dos filtros

Essa característica possui importância democrática. Uma sociedade formada apenas por círculos de afinidade tende a conhecer muito bem suas próprias razões e muito pouco a vida concreta de quem permanece fora deles. As conversas entre desconhecidos jamais resolveram conflitos políticos, mas introduziam pequenas fraturas na tendência de imaginar o mundo apenas a partir do grupo ao qual pertencemos. Uma frase escutada num táxi, numa fila ou numa sala de espera podia revelar uma dificuldade social que nunca havia atravessado nossa experiência. A cidade ensinava por contato lateral, sem currículo, sem mediação e sem promessa de continuidade.

O desaparecimento desses encontros também altera a percepção de segurança social. Pessoas que trocam algumas palavras reconhecem-se mutuamente como indivíduos e deixam de ser apenas figuras anônimas no mesmo espaço. Um bairro no qual comerciantes, passageiros, vizinhos e frequentadores de uma praça estabelecem contatos mínimos acumula uma espécie de conhecimento compartilhado que ajuda a transformar território em comunidade. Esse tecido depende de gestos quase invisíveis, construídos pouco a pouco, e pode enfraquecer sem que nenhuma estatística urbana registre imediatamente a perda.

O valor do inesperado

Seria absurdo responsabilizar o telefone por uma transformação que envolve desenho das cidades, jornadas de trabalho, medo, desigualdade, transporte, hábitos familiares e mudanças culturais profundas. Também seria ingênuo ignorar que o aparelho ocupa hoje justamente os segundos em que o acaso costumava trabalhar. Uma espera de três minutos já oferece conteúdo suficiente para impedir qualquer silêncio. E certas formas de sociabilidade nasciam porque existia silêncio, demora e alguma disponibilidade para perceber o que acontecia ao redor.

As cidades continuarão cheias de desconhecidos, mas a simples presença deles já não garante encontro. O desafio consiste em preservar espaços e hábitos nos quais a convivência possa surgir sem finalidade definida, sem inscrição prévia e sem algoritmo de compatibilidade. Ninguém precisa conversar o tempo inteiro; o direito ao silêncio permanece tão legítimo quanto o desejo de interação. O que merece ser protegido é a possibilidade de que alguma coisa inesperada atravesse a rotina. Durante séculos, a cidade ofereceu diariamente milhões dessas pequenas colisões entre trajetórias humanas. Ainda continuamos próximos o bastante para que aconteçam. Falta apenas saber quantas vezes levantaremos os olhos a tempo.

Washington Araújo
Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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