“Drones, guaxinins e o que nos revela a campanha” – Por Luiz Henrique Campos

“O crime organizado não se intimida com slogan. A fila do hospital não desaparece porque alguém encontrou uma frase de efeito. E o déficit público, esse sujeito particularmente mal-educado, não costuma respeitar promessas de campanha”, aponta o jornalista Luiz Henrique Campos

Confira:

A pouco mais de um mês da eleição, a campanha está em plena efervescência e candidatos e candidaturas revelam aquilo que, em tempos de pré-campanha, ainda podia ser cuidadosamente escondido. O despreparo de uns, a inconsistência de outros e a disposição de muitos para transformar a política em uma disputa pelo aplauso mais fácil. A campanha tem esse efeito curioso. Ela desmonta personagens. O candidato deixa de ser aquilo que cuidadosamente construiu durante anos e passa a ser aquilo que consegue entregar quando está diante de uma câmera, de um adversário e, sobretudo, de alguns milhões de eleitores.

O problema, é que nem todos parecem estar se saindo bem nesse teste. É particularmente decepcionante quando a revelação vem de quem se imaginava preparado. Um dos exemplos recentes, veio de escritor respeitado por seus livros e palestras, alguém que construiu sua reputação falando de comportamento, relações humanas e escolhas, que aparece agora diante do eleitor oferecendo soluções que parecem ter pouco contato com o mundo real. Não há pecado algum em pensar fora da caixa. A questão é quando se joga a caixa fora, junto com a lógica.

Utopias podem inspirar. Governos, entretanto, precisam funcionar. É nesse ponto que os drones entram em cena. A tecnologia, obviamente, pode ser grande aliada do poder público. O drone pode fiscalizar, monitorar, prevenir, mapear. Mas há algo de profundamente brasileiro nessa nossa tendência de transformar qualquer novidade tecnológica em solução definitiva para problemas que são, na verdade, sociais, econômicos, culturais e institucionais. Talvez seja mais fácil prometer drone do que explicar como enfrentar a causa do problema. O drone voa. A realidade, não.

E enquanto alguns candidatos parecem procurar soluções no céu, a campanha vai produzindo seus próprios animais terrestres. Os guaxinins, são um deles.

Eles entraram de forma inusitada na eleição, mas talvez sejam os personagens mais honestos dessa história. Fuçam, observam, sobrevivem, não prometem nada e não precisam fingir que têm plano para o Brasil. Em uma campanha em que tudo parece precisar virar espetáculo, o guaxinim ao menos não tenta se passar por estadista.

O fenômeno, porém, é maior do que drones ou guaxinins, em outras já foi um leitão. É a transformação da politica em entretenimento. A frase precisa viralizar. O ataque precisa render corte. A provocação precisa produzir indignação. A proposta precisa caber em um vídeo. O candidato precisa estar eternamente em cartaz. Só há um pequeno fato que não pode ser esquecido, que é o de que país não é uma rede social.

A inflação não entende de algoritmo. O crime organizado não se intimida com slogan. A fila do hospital não desaparece porque alguém encontrou uma frase de efeito. E o déficit público, esse sujeito particularmente mal-educado, não costuma respeitar promessas de campanha. Nesse aspecto, há candidatos que parece terem jogado na lata do lixo uma trajetória que levou anos para ser construída. Alianças incompreensíveis seriam apenas parte do jogo político, não fosse o fato de virem acompanhadas de uma crescente agressividade contra adversários. E quando a crítica chega ao cabelo do oponente, é chegada a hora de perguntar se ainda estamos discutindo o futuro do país ou apenas procurando qualquer coisa que possa ser usada como munição. E ai, não é o cabelo que importa. É o que ele revela. Quando o debate político desce ao penteado do adversário, talvez seja porque os argumentos já estão ficando curtos.

Mas ainda há tempo para mudar (apesar de particularmente não acreditar nisso). Enfim, os candidatos podem abandonar os personagens, deixar de lado o besteirol, explicar o que pretendem fazer e, sobretudo, mostrar como pretendem fazer. O eleitor merece mais do que promessas engenhosas e ataques de ocasião. De todo modo, entre drones que prometem resolver o que não se resolve pelo ar, guaxinins que parecem mais espontâneos do que muitos candidatos e políticos que preferem comentar cabelos a discutir projetos, a campanha já começou a cumprir uma função importante, pois está nos ensinando a olhar menos para o que os candidatos dizem ser e mais para o que fazem quando o voto está realmente em disputa.

No fim, talvez a única tecnologia eleitoral de que realmente precisamos seja um pouco de discernimento, porque quando a campanha terminar, os drones voltarão a seus hangares, os guaxinins continuarão sendo guaxinins, e os memes perderão a graça. O país, esse continuará aqui. E será ele — não o algoritmo — quem terá de conviver com as escolhas que fizermos.

Luiz Henrique Campos
Jornalista, psicólogo e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar

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