Com o título “É o fim do dinheiro barato?”, eis artigo de Alex Araújo, economista e ex-secretário de Desenvolvimento Local e Regional do Estado do Ceará. “É essa mudança que proponho chamar de aumento da competição pelo capital”, expõe o articulista.
Confira:
Em setembro de 2023, um título público brasileiro NTN-B com vencimento em 2050 pagava ao investidor uma taxa real de cerca de 5,75% ao ano — ou seja, o retornoacima da inflação que o governo se comprometia a entregar em troca do empréstimo. Hoje, para o mesmo tipo de título, essa taxa gira em torno de 7,50%.
Uma diferença de quase dois pontos percentuais, num papel de prazo tão longo, não é um detalhe técnico: é um sinal. A explicação mais comum aponta para a situação fiscal do país, as expectativas de inflação e as decisões do Banco Central.
Mas existe uma possibilidade mais ampla, e por isso mais interessante: talvez o próprio preço do capital — o custo de tomar dinheiro emprestado, em qualquer lugar do mundo — esteja subindo de forma estrutural.
Se essa hipótese estiver correta, as consequências vão além da política monetária. Juros altos deixariam de ser apenas o resultado de bancos centrais mantendo as taxas restritivas para conter a inflação. Passariam a refletir algo mais profundo: uma mudança na relação entre quanto capital o mundo quer tomar emprestado e quanto capital o mundo tem disponível para emprestar.
É essa mudança que proponho chamar de aumento da competição pelo capital.
Décadas de dinheiro barato
Durante boa parte das últimas décadas, o mundo viveu uma combinação rara: inflação baixa, juros reais em queda constante e grande volume de poupança disponível para investimento.
Esse ambiente reduziu o custo do dinheiro em todo o planeta e favoreceu ativos de risco, projetos de longo prazo e empresas cujo modelo de negócio dependia de financiamento barato, de startups de tecnologia a grandes obras de infraestrutura.
Esse período parece estar chegando ao fim, não porque a poupança global tenha desaparecido, mas porque a demanda por capital cresceu em pelo menos três frentes ao mesmo tempo.
A primeira força vem dos governos. Nos Estados Unidos, a dívida federal em poder do público deve saltar de aproximadamente 101% do PIB em 2026 para 120% em 2036, segundo projeções do Congressional Budget Office, o órgão independente que calcula o orçamento do Congresso americano.
Os déficits devem permanecer bem acima da média histórica pelo mesmo período. O Brasil segue uma trajetória parecida: a dívida pública cresce, e o peso dos juros sobre as contas do governo se torna cada vez mais relevante. Na prática, isso significa que os governos vão continuar recorrendo ao mercado financeiro, ano após ano, para pagar suas contas e renovar dívidas antigas.
A segunda força é a inteligência artificial. Construir a infraestrutura que sustenta a nova geração de IA exige somas extraordinárias de capital: data centers, chips avançados, redes elétricas, novas usinas de energia e sistemas de armazenamento de dados. As grandes empresas de tecnologia já projetam investimentos da ordem de centenas de bilhões de dólares por ano só nessa área.
Aqui aparece um paradoxo que vale a pena notar: a IA pode, no longo prazo, aumentar a produtividade e até ajudar a reduzir a inflação, mas, antes que isso aconteça, ela está consumindo uma quantidade enorme de capital para ser construída.
Uma mesma tecnologia pode ser deflacionária no futuro e, ao mesmo tempo, pressionar o preço do dinheiro durante a fase em que sua infraestrutura ainda está sendo erguida.
A terceira força é a defesa. Depois de décadas em que os gastos militares perderam importância relativa nos orçamentos, o mundo mudou de direção. A guerra na Ucrânia, a tensão crescente entre Estados Unidos e China e a deterioração geral do ambiente geopolítico levaram vários países a aumentar seus investimentos militares.
A OTAN, por exemplo, fixou a meta de elevar os gastos de defesa de seus membros para o equivalente a 5% do PIB até 2035. Isso não significa apenas comprar tanques e mísseis: significa construir fábricas, desenvolver semicondutores, garantir energia e reconstruir capacidade industrial. Tudo isso também é capital.
Um mesmo mercado, quatro demandas
Governos precisam financiar seus déficits. A inteligência artificial precisa financiar sua infraestrutura. A defesa precisa reconstruir sua capacidade industrial. E a transição energética precisa acompanhar tudo isso ao mesmo tempo. São necessidades diferentes entre si, mas todas disputam a mesma coisa: os recursos financeiros disponíveis no mundo, num mesmo período de tempo.
Não é preciso afirmar que o mundo está ficando sem poupança, e não há evidência de uma escassez absoluta de capital. A pergunta relevante é outra: existe hoje algum motivo para esperar que a oferta de capital cresça na mesma velocidade que a demanda? Não parece evidente que sim.
E quando a demanda por investimento cresce mais rápido do que a poupança disponível para financiá-la, o mecanismo de ajuste é simples e conhecido: o preço do capital, os juros, sobe até equilibrar os dois lados. Se essa leitura estiver certa, juros reais estruturalmente mais altos não seriam uma anomalia temporária, mas o resultado natural desse novo equilíbrio.
Para o Brasil, essa discussão importa de um jeito particular. O país não define o preço global do capital, ele o recebe como referência e precisa somar a esse preço o seu próprio prêmio de risco.
Se o juro real dos Estados Unidos permanecer mais alto, o custo de oportunidade de investir no Brasil sobe junto, porque investidores comparam o retorno brasileiro ao retorno que poderiam obter, com menos risco, em títulos americanos. O Brasil ainda carrega uma característica adicional: precisa financiar uma dívida pública relevante justamente num momento em que o custo desse financiamento já está elevado. É uma combinação desconfortável.
Se o mundo estiver mesmo entrando numa era de maior competição pelo capital, países com maior necessidade de financiamento, como o Brasil, vão precisar oferecer retornos ainda mais atraentes para continuar atraindo recursos.
Por muito tempo, o debate sobre juros girou em torno de uma única pergunta: quando os bancos centrais vão cortar as taxas? Os últimos anos sugerem que essa pergunta, sozinha, já não basta. Ela pressupõe que o preço do capital voltará, naturalmente, aos patamares baixos do passado assim que a inflação ceder.
O que os dados começam a sugerir é mais desconfortável: mesmo com a inflação sob controle, o mundo pode ter de se acostumar a pagar mais caro pelo capital, não porque a inflação voltou, mas porque o capital pode ter deixado de ser tão abundante quanto foi nas últimas décadas.
É o fim do dinheiro barato? A resposta ainda não está escrita. Mas a pergunta, pela primeira vez em muito tempo, é legítima.
*Alex Araújo
Economista e ex-secretário de Desenvolvimento Local e Regional do Estado do Ceará.