“Considero que transformar a Selic no único fator responsável pelo avanço no volume de grupos econômicos entrando em recuperação judicial, seria uma simplificação muito arriscada”, aponta o administrador de empresas Fabiano Mapurunga
Confira:
Taxa de juros elevada, certamente contribui para a pressão sobre o caixa, mas as fortes crises nos grupos empresariais também são reflexos de um endividamento mal estruturado, de margens de lucros suprimidas, de falhas na gestão, de assimetrias de mercado e de ausência de governança.
Logo que começamos a presenciar o aumento do número de empresas entrando em recuperação judicial, temos uma tendência imediata de apontar a taxa Selic como a melhor explicação. Não podemos negar que este associação faz muito sentido, pois os juros elevados aumentam as despesas financeiras, o que provoca uma maior dificuldade em fazer a renovação de dívidas, restrição mais forte ao crédito e uma redução reflexiva no consumo e nos investimentos.
A Selic sofreu uma redução em agosto de 2026, mas mesmo assim está em 14% a.a., o que configura um batente ainda restritivo para a atividade econômica.
Considero que transformar a Selic no único fator responsável pelo avanço no volume de grupos econômicos entrando em recuperação judicial, seria uma simplificação muito arriscada. A taxa de juros elevada, pode até ser um desencadeador, mas, na maioria dos casos, a corrosão financeira já vinha ocorrendo há algum tempo.
Alguns números nos demonstram a profundidade do problema:
– Conforme a Serasa Experian, o Brasil teve 977 registros de processos de recuperação judicial em 2025, compreendendo 2.466 CNPJs. Houve um crescimento de 13% no número de empresas com relação ao ano anterior, configurando o maior patamar da série histórica.
– O Monitor RGF-BIZDOC, é uma plataforma de levantamentos estatísticos desenvolvida pela consultoria RGF Associados e Bizdoc, faz o acompanhamento do estoque de empresas que estão em recuperação judicial. Em 30 de junho de 2026 demonstrou um recorte que contabilizava 6.382 empresas em recuperação judicial, apontando então um crescimento de 22% em doze meses.
Podemos observar que os dois levantamentos recorrem a metodologias diferentes, onde um procura observar principalmente as novas entradas e o outro, o estoque acumulado, porém ambos apontam para um acentuado ambiente de estresse empresarial.
A SELIC É UM AGRAVANTE, MAS NÃO A EXPLICAÇÃO ABSOLUTA
Vamos partir do seguinte princípio: todas as empresas estão operando expostas à mesma taxa básica de juros, porém nem todas estão entrando em recuperação judicial.
Este fato se dá porque a Selic não encontra estruturas financeiras iguais. Vários grupos empresariais apresentam baixo endividamento, dívidas de longo prazo, reservas de liquidez, boas margens e uma governança capaz de antecipar problemas. Porém, outras já chegam ao ciclo de juros elevados com passivo de curto prazo elevado, fraca geração de caixa, capital de giro insuficiente e uma grande dependência de refinamento bancário.
Concluímos então que, os efeitos do comportamento da Selic, dependem da situação em que a empresa se encontra quando há a elevação dos juros.
Um grupo empresarial que veio a financiar crescimento acelerado com uma dívida pós-fixada, contando que o crédito permaneceria barato, acabou assumindo um risco estrutural. Em surgindo um aumento no custo financeiro, logo aparece o problema, porém sua origem não está centrada apenas na política monetária. Ele também se apresenta na decisão de crescer sem ter contado com uma estrutura de capital compatível com a sua capacidade de geração de caixa.
Daí a necessidade de se separar o gatilho da causa.
Podemos entender que, o juro elevado poderá vir a ser o gatilho que transforma uma fragilidade em crise. Porém, a causa, corriqueiramente se encontra no agrupamento entre excesso de endividamento, vencimentos concentrados, baixa rentabilidade, decisões estratégicas equivocadas e ausência de planejamento financeiro.
EMPRESAS NÃO QUEBRAM APENAS POR FALTA DE LUCRO
É comum acreditar que, toda empresa que é lucrativa, necessariamente apresenta uma boa saúde financeira.
Fato é que, lucro e caixa não são a mesma coisa.
Um grupo empresarial pode executar boas vendas, exibir resultado contábil positivo e, ainda assim, não ter fôlego de caixa para pagar fornecedores, salários, tributos e bancos. Este fenômeno acontece quando os prazos concedidos aos clientes são maiores do que os obtidos com os fornecedores, quando há um crescimento excessivo dos estoques, quando a inadimplência aumenta ou quando os investimentos consomem recursos antes que os retornos apareçam.
A falta de uma rigorosa gestão do capital de giro, pode fazer o crescimento destruir a liquidez.
Na proporção que a empresa executa vendas, ela vai precisando financiar estoques, produção, logística e contas a receber. Porém se esse crescimento não for acompanhado por margem e geração de caixa, essa expansão de vendas deixa se ser uma solução e passa a ser parte do problema.
É justamente nesse momento que muitas organizações recorrem ao crédito de curto prazo. Antecipam recebíveis, utilizam capital de giro emergencial, renegociam impostos e começam a trocar dívidas estruturadas por linhas cada vez mais caras.
A Selic elevada acelera essa deterioração, mas não criou o descasamento financeiro original.
MARGENS COMPRIMIDAS TAMBÉM EMPURRAM EMPRESAS PARA A CRISE
A recuperação judicial não decorre apenas do lado financeiro do balanço. Muitas empresas enfrentam uma crise operacional antes de enfrentar uma crise bancária.
Custos de matérias-primas, energia, fretes, salários, tecnologia e tributos podem crescer mais rapidamente do que a capacidade de reajustar preços. Em mercados altamente competitivos, o empresário nem sempre consegue repassar integralmente esses aumentos ao consumidor.
A companhia continua faturando, mas passa a ganhar menos em cada venda.
Ao não se perceber rapidamente essa perda de margem, a empresa vai tentar compensá-la aumentando o volume comercial. Vende mais, concede mais prazo, amplia estoques e assume novos compromissos. O faturamento cresce, mas a geração de caixa diminui.
É o crescimento sem valor econômico.
Esse processo costuma ser silencioso. A crise não começa quando o banco nega o crédito. Ela começa quando a operação deixa de remunerar adequadamente o capital empregado e a administração demora a reconhecer a mudança.
MODELOS DE NEGÓCIO TAMBÉM ENVELHECEM
Outro fator relevante é a transformação dos mercados.
Mudanças no comportamento do consumidor, digitalização, entrada de novos concorrentes, marketplaces, inteligência artificial, novos canais de distribuição e alterações regulatórias podem tornar modelos tradicionais menos competitivos.
Empresas que possuíam vantagens importantes no passado podem continuar operando como se essas vantagens fossem permanentes. Mantêm estruturas físicas pesadas, custos elevados, portfólios pouco rentáveis e processos incompatíveis com a nova realidade competitiva.
Nesse contexto, a dívida passa a financiar a preservação de um modelo que já perdeu capacidade de produzir retorno.
A recuperação judicial, então, não nasce somente do custo do dinheiro. Ela surge porque a empresa demorou a adaptar sua estratégia, sua estrutura e sua proposta de valor.
Reduzir a Selic ajuda a aliviar a despesa financeira, mas não recupera, por si só, um modelo de negócio que perdeu relevância.
A AUSÊNCIA DE GOVERNANÇA COBRA SEU PREÇO
Muitas crises empresariais também são crises de governança.
Decisões concentradas, ausência de orçamento, falta de indicadores confiáveis, mistura entre patrimônio empresarial e familiar, investimentos aprovados sem análise de retorno e resistência em comunicar dificuldades aos sócios e credores são fatores recorrentes em processos de deterioração financeira.
Quando a informação chega atrasada à liderança, a decisão também chega atrasada.
Empresas bem governadas não estão imunes às crises, mas tendem a identificá-las mais cedo. Conseguem interromper investimentos, renegociar dívidas, vender ativos, buscar capital, rever custos e ajustar a estratégia antes que a situação se torne irreversível.
Nas organizações frágeis, o problema costuma ser negado até o caixa se esgotar.
A recuperação judicial acaba sendo requerida quando já não existe margem para uma reestruturação negociada de maneira preventiva. Nesse estágio, credores estão desconfiados, fornecedores reduziram prazos, bancos exigem garantias adicionais e talentos importantes começam a deixar a companhia.
CADA SETOR POSSUI SUA PRÓPRIA CRISE
Também não se pode analisar todas as recuperações judiciais como se tivessem a mesma origem.
No agronegócio, eventos climáticos, quebras de safra, volatilidade das commodities, custos de insumos e baixa utilização de seguros podem comprometer ciclos inteiros de produção. No segundo trimestre de 2026, a agropecuária permaneceu como o principal foco de expansão das recuperações judiciais no levantamento da RGF – BIZDOC.
No varejo, pesam o endividamento das famílias, a inadimplência, a concorrência digital, o custo dos estoques e a dependência das vendas financiadas.
Na indústria, os problemas podem envolver capacidade ociosa, câmbio, energia, matérias-primas, baixa produtividade e investimentos de retorno demorado.
Nos transportes, destacam-se combustível, manutenção, renovação de frota, fretes pressionados e dívida elevada para aquisição de ativos.
A Selic atravessa todos esses setores, mas encontra problemas distintos em cada um deles.
A INADIMPLÊNCIA MOSTRA UMA CRISE MAIS AMPLA
Em junho de 2026, mais de 9,1 milhões de empresas brasileiras estavam inadimplentes, acumulando R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas. Em média, cada CNPJ possuía 7,3 contas em atraso. As micro e pequenas empresas representavam 8,6 milhões desse total.
Esses números indicam que o problema não se limita às companhias que conseguem acessar a recuperação judicial. Muitas empresas menores simplesmente encerram suas atividades, renegociam informalmente ou permanecem operando em situação de inadimplência, sem estrutura financeira e recursos para conduzir um processo judicial complexo.
Há, portanto, uma crise de liquidez mais ampla do que os números das recuperações conseguem demonstrar.
RECUPERAÇÃO JUDICIAL NÃO SUBSTITUI REESTRUTURAÇÃO EMPRESARIAL
A recuperação judicial é um instrumento legítimo de preservação da atividade econômica. Pode suspender temporariamente cobranças, organizar os credores e permitir a renegociação dos passivos.
Mas ela não cria clientes, não aumenta margens, não reduz desperdícios e não corrige decisões estratégicas.
Se a empresa apenas alongar dívidas, sem modificar aquilo que produziu a crise, o processo judicial servirá apenas para adiar o problema.
Uma recuperação consistente exige revisão do modelo de negócio, redução estrutural de custos, gestão do capital de giro, venda de ativos improdutivos, fortalecimento da governança, possível entrada de novos investidores e, principalmente, geração operacional de caixa.
O plano financeiro precisa estar subordinado a um plano empresarial viável.
O DIAGNÓSTICO CORRETO EVITA SOLUÇÕES INCOMPLETAS
Não se quer aqui estar minimizando os efeitos da Selic. Quando os juros estão elevados, isso acaba penalizando o investimento produtivo, encarecendo o crédito, comprimindo o consumo e retirando recursos que poderiam ser direcionados à inovação, à contratação de pessoas e à expansão das empresas.
Porém, atribuir toda recuperação judicial à taxa básica de juros pode esconder responsabilidades e impedir diagnósticos mais profundos.
Apenas a Selic não é capaz de explicar, uma aquisição mal planejada, uma expansão sem capital, um estoque que não gira, uma margem deficitária, uma governança ineficiente, ou mesmo um modelo de negócio ultrapassado.
Ao paço que, atribuir exclusivamente a culpa à gestão, seria desprezar o fato de que até empresas eficientes podem ser gravemente atingidas por choques econômicos, climáticos setoriais ou regulatórios.
Dificilmente uma crise empresarial possui um único agente.
Seu nascimento vem do encontro entre o ambiente econômico e as escolhas realizadas dentro da organização. Então a Selic pode acabar tornando esse encontro mais duro, mais rápido e mais visível. Contudo, quando uma empresa chega à recuperação judicial, é provável que exista uma história anterior escrita em suas decisões estratégicas, financeiras e operacionais.
A alta dos juros certamente irá elevar o peso da dívida.
A correta combinação entre volume e qualidade de dívida, gestão estratégica, governança e capacidade de adaptação que determina se a empresa continuará de pé.
Uma resposta
Como sempre. Um excelente trabalho. Parabéns 👏 👏 👏 👏