“O ególatra não busca aliados para governar, busca espelhos para se admirar” – Por Francisco Bezerra

Francisco Bezerra é jornalista, radialista e escritor

Com o título “O ególatra não busca aliados para governar, busca espelhos para se admirar (texto tirado do livro O Poder e o Espelho)”, eis artigo de Francisco Bezerra, jornalsta, radialista e escritor. Elke aborda nova contradições do discurso do candidato tucano ao Governo do Ceará, Ciro Gomes.

Confira:

Ciro Gomes é o político mais mercurial da história política do Ceará. Um trânsfuga que iniciou carreira política na Arena, passou por quase todos os partidos do espectro ideológico dos trópicos e finalmente retornou ao ninho onde se projetou nacionalmente: o PSDB. É certo que a capacidade retórica abriu-lhe muitas portas nas esferas de poder institucional. O conheci na Assembleia ao tempo em que eu era repórter no Legislativo Estadual e ele líder do governo Tasso I, naquela Casa. Seus discursos eloquentes encantavam ouvintes pela clareza, fluidez e elegância, gerando forte impacto em quem os ouvia. Sua retórica articulada tornavam suas alocuções organizadas, lógicas e compreensíveis ao senso comum. Suas palavras tinham a capacidade de convencer seus pares e influenciavam opiniões por meio de argumentos não sólidos, mas de retórica eficaz que transmitia segurança e verdade – sobretudo nos incautos – e facilmente ganhava aderência. Pronto, o Ceará estava diante do seu Demóstenes tupiniquim.

O púlpito da Assembleia foi o trampolim para um alpinista da vida pública, que usou o verbo fluente como combustível para ir galgando cargos públicos ao longo do seu trajeto: deputado, prefeito, governador ministro etc. Mas havia em tudo uma pantomima, um jogo sedutor de palavras e gestos com o fito de iludir plateias e agregar seguidores. A principal tática do orador perfunctório era a manipulação
psicológica, comumente estruturada por meio de falácias argumentativas, distorção de fatos e apelos emocionais. O nosso prestidigitador das palavras usou de forma peremptória meias-verdades, omitindo partes cruciais para mudar completamente o sentido das coisas. Outra tática é o de pinçar frases fora de contexto, isolando informações do cenário original para criar uma falsa narrativa. Teatralmente o nosso
Lacerda da taba de Alencar sempre apelou para a enxurrada de números aleatórios em rápida sucessão, tornando difícil ao interlocutor a tarefa de contestar o que ouvira.

Nos debates face to face, entra em cena a falácia do espantalho, que consiste em distorcer ou exagerar o argumento do oponente para depois atacar essa versão modificada e mais fraca. De todos os estratagemas do nosso orador, o mais usado, sem dúvida, é o ataque ad hominem: atacar o caráter, a vida pessoal ou as intenções da pessoa que fala, em vez de debater o argumento dela. Um exemplo bem presente. No ano de 2021, Ciro Gomes dizia a plenos pulmões que Camilo Santana era o melhor governador do Brasil. Hoje, o senador do PT é alvo de todo tipo de impropério.

Ciro disputou quatro vezes a presidência da república. Na primeira disputa, seu desempenho foi tímido. Na segunda, vexatório. O comitê de campanha de José Serra desconstruiu todas as “verdades” ciristas espalhadas na mídia local e nacional. A terceira campanha foi furtiva. No segundo turno entre Haddad e Bolsonaro, ele preferiu a fuga para Paris. Já a última campanha do Ciro Gomes, 2022, terminou de forma
trágica. Ele perdeu até em Sobral, seu berço político. Conseguiu a proeza de chegar atrás de Lula e Bolsonaro na Princesa do Norte. Desta vez, nosso Macunaíma não fugiu para a capital da França. Ficou aqui em silêncio obsequioso, mas, por baixo do pano, torcendo e quem sabe até orientando voto em Bolsonaro contra Lula no segundo turno daquela eleição.

Após tantos dissabores no cenário nacional, Ciro Gomes volta a aldeia e é candidato a governador numa aliança que parece esdrúxula, mas não é. Ressentido até o fundo da alma com Lula e Camilo, ele armou palanque aqui na “terrinha” com a nata do bolsonarismo local. Aí quando se junta ressentimento com idiotia sabe-se lá o que vai resultar. Aliás, a aliança de Ciro com o bolsonarismo vem de longe. Em 2018,
a fuga. Em 2022, a adoção da neutralidade, como se fosse possível haver neutralidade na política. Na política não existe “mais ou menos”. Em política, neutralidade significa a tomada de posição inativa frente aos acontecimentos.

Sob esse ponto de vista, a lógica da neutralidade política de nosso tempo significa, mais uma vez, a manutenção virulenta e autoritária de interesses escusos de um grupo de pessoas irritadas com qualquer diferença. Envergonhados, os ciristas ficaram apoiando Bolsonaro nas sombras. Na campanha municipal de 2024, a estrutura do cirismo já votou em André Fernandes no primeiro turno. A candidatura a reeleição de José Sarto – de longe o pior prefeito da história da capital – foi só uma cortina de fumaça. Quando, no segundo turno, Roberto Cláudio anunciou apoio ao candidato do PL contra o candidato do PT, foi a sinalização de que Ciro e o seu grupo perderam a compostura e votaram no bolsonarista desavergonhadamente.

Portanto, a oposição no Ceará, que uniu ressentimento com estupidez, mostra à luz do dia que o cirismo e o bolsonarismo sempre andaram de mãos dadas no Cearazinho de açúcar. Uma oposição minúscula em contingente e em ideias. O cirismo, uma espécie de partido da egolatria, cabe dentro de um jeep. Além do próprio Ciro, e usando a sigla do PSDB, estão alinhados Roberto Cláudio, José Sarto e o empresário Prisco Bezerra. No mesmo polo, André Fernandes um bolsonarista raiz e o milico Wagner, apenas mais reacionário que a política produz. Esta união, não tenham a menor dúvida, só pode terminar em tragédia. Quanto ao senhor Tasso que um dia mandou nos votos do Ceará, neste cenário, anda fazendo papel de Bobo da Corte. Voto que é bom, hoje, ele só tem o dele. E agora sai da frente que atrás vem gente.

*FranciscoBezerra

Jornalista, radialista e escritor.

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