Com o título “Quem protege as regras do jogo?”, eis artigo de Cleyton Monte, cientista político. “Se tivermos novamente uma disputa apertada, acompanhada de desinformação, questionamentos sobre as urnas ou conflitos sobre as regras eleitorais, o país precisará de instituições com autoridade para arbitrar essas disputas”, expõe o articulista.
Confira:
O Brasil chega às eleições de 2026 diante de um paradoxo. O Supremo Tribunal Federal, que teve papel decisivo na defesa da ordem democrática após a eleição de 2022, atravessa agora uma crise que atinge justamente aquilo de que mais precisa para exercer sua função: legitimidade.
Há quatro anos, diante da contestação das urnas e da escalada que culminou nos ataques de 8 de janeiro, o STF foi uma das barreiras institucionais contra a ruptura democrática. É possível discutir decisões, excessos e o protagonismo assumido pela Corte naquele período. Mas é difícil negar sua importância na preservação da ordem constitucional e do resultado produzido pelo voto.
O cenário de 2026 é diferente. E o caso Banco Master ajuda a compreender a dimensão do problema.
Mais do que as suspeitas envolvendo personagens específicos, o episódio expõe uma questão maior: a capacidade do poder econômico de construir redes de influência que atravessam a política, o mercado e instituições responsáveis por regular, fiscalizar e julgar.
Costumamos associar o abuso do poder econômico às eleições: financiamento, influência sobre campanhas ou tentativa de interferir na decisão do eleitor. Mas ele pode atuar muito antes da urna, por meio do acesso privilegiado aos espaços onde decisões públicas são tomadas.
Quando essas relações alcançam instituições que deveriam estabelecer limites ao próprio poder, o problema deixa de ser apenas jurídico. Torna-se democrático.
É exatamente nesse ponto que a crise do Supremo encontra as eleições de 2026.
Se tivermos novamente uma disputa apertada, acompanhada de desinformação, questionamentos sobre as urnas ou conflitos sobre as regras eleitorais, o país precisará de instituições com autoridade para arbitrar essas disputas.
E autoridade institucional não nasce apenas da Constituição. Depende também da confiança de que as decisões são tomadas com independência, transparência e respeito às regras.
Por isso, defender o STF não significa defender ministros individualmente. Da mesma forma, cobrar transparência, investigar eventuais irregularidades e discutir limites não significa atacar a democracia. Ao contrário: instituições fortes são aquelas capazes de enfrentar suas próprias crises.
O Supremo precisa sair desse processo mais institucional e menos personalista, mais colegiado e mais transparente. Sobretudo, precisa estar protegido de relações que possam produzir dúvidas sobre sua independência.
Em 2022, aprendemos que a democracia precisa de instituições fortes para proteger o resultado das urnas. Em 2026, o desafio será garantir que essas instituições tenham legitimidade para exercer novamente esse papel.
Afinal, quem protege as regras do jogo também precisa demonstrar, todos os dias, que está submetido a elas.
Cleyton Monte é cientista político