Após estrear no mercado editorial como finalista do mais importante prêmio da literatura brasileira, o escritor e jornalista cearense Bruno de Castro publica novo livro. Nós por nós: mídias negras combatem o racismo é o mais novo título do catálogo da Editora UFC e tem lançamento previsto para a primeira quinzena de outubro.
A obra reúne depoimentos de 12 jornalistas e comunicadores(as) negros(as). De três gerações diferentes e originários(as) de seis estados do Brasil, incluindo o Ceará, eles(as) revelam em entrevistas exclusivas como a atuação da imprensa negra foi central para as ações de combate à ditadura militar, que dizia não existir racismo no país, e desempenha até hoje papel importante na promoção da igualdade racial e desconstrução de mitos.
O livro revela ainda a existência do Malemba, um jornal negro que circulou em Fortaleza na década de 1990 e era feito pelo Grupo de União e Consciência Negra, o Grucon, coletivo do qual fazia parte o historiador Hilário Ferreira, então estudante da UFC, que viria a se tornar um dos mais importantes nomes do movimento negro no Ceará e faleceu em maio deste ano.
Nós por nós é resultado de dois anos de pesquisas desenvolvidas por Bruno. Esses estudos, inclusive, renderam a ele o III Prêmio Lélia Gonzalez, concedido pela Associação Brasileira de Antropologia (Aba) à melhor dissertação de mestrado do país feita por uma pessoa negra. A Aba é a mais antiga das entidades científicas nacionais na área de ciências sociais.
“A história da imprensa no Brasil quase sempre é restrita aos grandes grupos de comunicação. E nenhum deles é negro, apesar de o Brasil ter jornais negros desde 1833. Mesmo em locais que se dizem pioneiros do fim da escravização, como o Ceará, pouco se fala da imprensa negra. Então, são quase 200 anos de um setor que ainda conhecemos muito pouco. Eu mesmo só tomei conhecimento dele quando passei a fazer parte de um projeto de jornalismo antirracista”, afirma Bruno.
Ele é fundador do Ceará Criolo, o primeiro portal de jornalismo negro do Ceará, no qual atua dede 2018, também retratado no livro. “Quase 80% dos jornalistas brasileiros são brancos. Como um jornalista negro, quero contribuir com a preservação da memória da imprensa negra deste país, que sistematicamente tentam apagar da história quando, na verdade, ela deveria constar nos currículos dos cursos de jornalismo do Brasil todo. Não é mais admissível o país formar jornalistas sem oferecer a eles informações sobre a atuação negra, tão relevante à profissão e ao regime democrático”, acrescenta o jornalista.
Recomendam a obra
A exemplo do livro de estreia de Bruno, lançado com prefácio de Valter Hugo Mãe e posfácio de Socorro Acioli, Nós por Nós nasce respaldada por grandes nomes: a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto assina a orelha da publicação, a jornalista Fabiana Moraes faz a apresentação da publicação e a pedagoga Nilma Lino Gomes é autora da crítica da quarta capa.
“Este livro expressa um importante salto de qualidade nos estudos sobre imprensa negra no Brasil.
Bruno supera o paradigma descritivo das fontes e potencializa as vozes de agentes da comunicação antirracista que asseguraram o registro da incidência política da população negra no debate público desde os anos 1970. Trata-se de uma obra que ensina a ver como projetos de epistemicídio têm sido frustrados em nosso tempo-espaço por comunicadoras(es) negras(os)”, diz Ana Flávia, uma das maiores referências do Brasil em pesquisas sobre imprensa negra.
“A pesquisa de Bruno de Castro chega em um momento crucial. Vivemos um tempo de recrudescimento global da extrema-direita, com os Estados Unidos à frente de um projeto francamente fascista. Eles também crescem na Europa, na Ásia e na América Latina. Projetos explicitamente antinegros, anti-indígenas, antiperiféricos, misóginos, LGBTfóbicos. É exatamente por isso que uma imprensa que ousa dizer os reais nomes dos fenômenos sociais é necessária”, acrescenta Fabiana Moraes, um dos expoentes da luta antirracista na comunicação e vencedora de três prêmios Esso de Jornalismo.
“O livro revela como a palavra se consolidou não apenas como instrumento de denúncia, mas como afirmação da voz enquanto gesto de existência. Bruno reposiciona a comunicação no centro do debate sobre relações raciais no país. Ao iluminar trajetórias, disputas e narrativas, este livro evidencia que afirmar a própria voz é afirmar a própria humanidade — ontem, hoje e amanhã”, frisa Nilma Lino Gomes, uma das mais importantes ativistas do movimento negro brasileiro e primeira reitora da Unilab.
Sobre Bruno
Nascido em Fortaleza (CE), em 1986, Bruno de Castro é jornalista por formação e mestre em Antropologia. Está prestes a concluir o doutorado em Comunicação na UFC, no qual estuda a relação entre a identidade racial de jornalistas cearenses e as notícias que eles publicam. Já ganhou 22 prêmios em diversas áreas, sendo 15 deles por trabalhos sobre questões raciais.