“Pesquisas de Senado criaram hierarquia desconhecida na totalização dos votos” -
Por Norton Lima Jr.

Norton Lima, Jr é jornalista

“Ao obrigar o entrevistado a ranquear os candidatos, a pesquisa induz respostas que muitos eleitores não teriam espontaneamente”, aponta o jornalista Norton Lima Jr.

Confira:

As pesquisas de intenção de voto para o Senado em 2026 adotam uma metodologia que força o eleitor a escolher um “primeiro” e um “segundo” senador — categorias que não existem na totalização oficial dos votos.

A ordem dos fatores não altera o produto. O procedimento induz uma hierarquia artificial e distorce análises e prognósticos da disputa.

Na urna, o eleitor digita dois números em sequência. Confirma o número de um senador e, em seguida, digita e confirma o número do outro. A interface apresenta dois campos consecutivos, mas a ordem de digitação não tem qualquer efeito na apuração. Os dois votos são simplesmente somados aos totais dos respectivos candidatos. Os dois mais votados são eleitos. Não existe “o senador da 1ª vaga” nem “o senador da 2ª vaga” na totalização.

Os institutos, no entanto, formulam a pergunta em duas etapas: “Em quem você votaria para a primeira vaga?” e, depois, “E para a segunda vaga?”. Essa construção transforma preferências paralelas em ranking e cria a impressão de que existe uma ordem oficial de preferência. Não há.

A diferença é relevante. Ao obrigar o entrevistado a ranquear os candidatos, a pesquisa induz respostas que muitos eleitores não teriam espontaneamente.

Se os institutos abandonassem a divisão artificial e adotassem uma única pergunta com duas respostas possíveis — “Nas eleições de outubro você vai escolher dois senadores. Quais são os dois candidatos em quem pretende votar?” —, a distribuição estimada do eleitorado ficaria mais próxima da realidade da urna.

O desenho atual das pesquisas cria um problema prático. Não há como responder, com clareza, quantos eleitores já escolheram os dois candidatos ao Senado; quantos escolheram apenas um; quantos estão em dúvida no segundo voto; e quantos não escolheram nenhum.

Transportando o problema para a disputa ao Senado do Ceará, a título de estimativa ilustrativa a partir de padrões observados em pesquisas com desenho semelhante: algo como 55-60% do eleitorado citaria dois nomes de imediato; 15-20% citaria um nome e ainda estaria decidindo o segundo; 8-12% teria apenas um nome definido; e 15-20% permaneceria indeciso ou optaria por branco/nulo.

O resultado dessa metodologia é uma colcha de retalhos rasgada.

A urna pede dois números em sequência, sem hierarquia. As pesquisas transformam isso em “primeiro” e “segundo” senador. A totalização dos votos não reconhece essa divisão. A correção metodológica é simples e já deveria ter sido adotada.

Norton Lima Jr. é jornalista

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