“O Cenário e os Dados da Violência Contra a Mulher” – Por Bianca Bessa

Bianca Bessa de Aguiar é estudante de Jornalismo

Com o título “O Cenário e os Dados da Violência Contra a Mulher”, eis artigo de Bianca Bessa de Aguiar, universitária. “As estatísticas cravam que em mais de 80% dos casos de feminicídio o autor do crime é alguém do convívio íntimo da vítima. Companheiros atuais são responsáveis por quase 60% das mortes, enquanto ex-parceiros que não aceitam o fim do relacionamento respondem por mais de 20%. Esses números provam que, para a mulher brasileira, o ambiente doméstico é, estatisticamente, o local mais perigoso para se estar”, expõe a articulista.

Confira:

O ano de 2026 consolida uma realidade alarmante e paradoxal sobre a segurança pública evidenciando que os avanços no combate ao crime não se distribuem de forma igualitária na sociedade. Enquanto o país celebra uma expressiva redução geral nos índices de homicídios — que registraram uma queda de 8% e atingiram o menor patamar em mais de uma década —, a violência de gênero caminha na contramão. O Brasil alcançou um triste recorde histórico ao contabilizar 1.568 vítimas de feminicídio no último balanço anual consolidado, um aumento de 4,7% que se traduz na trágica média de quatro mulheres assassinadas por dia unicamente por sua condição de gênero.

A letalidade, contudo, é apenas o ápice de uma escalada de abusos que se reflete em diversos outros indicadores alarmantes. Os dados
demonstram que a coerção antecede o crime fatal, com os registros de perseguição saltando 30% e os casos de violência psicológica
crescendo 17%. Mais preocupante ainda é o aumento de 17% nos episódios de descumprimento de medidas protetivas de urgência. Essa estatística específica escancara uma grave falha estrutural: o Estado, mesmo quando acionado, frequentemente não consegue impor autoridade suficiente para conter o ímpeto do agressor, deixando a mulher vulnerável mesmo com a lei teoricamente ao seu lado.

A problematização dessa violência exige a desconstrução do mito do agressor desconhecido que espreita em ruas escuras. As estatísticas
cravam que em mais de 80% dos casos de feminicídio o autor do crime é alguém do convívio íntimo da vítima. Companheiros atuais são responsáveis por quase 60% das mortes, enquanto ex-parceiros que não aceitam o fim do relacionamento respondem por mais de 20%. Esses números provam que, para a mulher brasileira, o ambiente doméstico é, estatisticamente, o local mais perigoso para se estar. A violência nasce e se perpetua dentro de casa, mascarada por relações de afeto, controle e posse.

O vazio institucional agrava dramaticamente essa dinâmica, criando uma geografia do perigo que penaliza o interior do país. Municípios com até 100 mil habitantes concentram metade de todos os feminicídios do Brasil. Essa desproporção não é acidental, mas um reflexo direto da ausência do Estado: apenas 5% dessas cidades possuem uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) e meros 3% oferecem Casas Abrigo. Sem infraestrutura para denunciar em segurança ou para escapar do convívio com o agressor, a denúncia torna-se um risco. A ineficácia do sistema de proteção atinge seu limite trágico na constatação de que dezenas de mulheres foram executadas possuindo medidas protetivas ativas no momento em que foram mortas, revelando que o papel impresso pela Justiça não tem o poder de parar uma bala ou uma faca sem fiscalização ostensiva.

Apesar do cenário de profunda crise contínua, os primeiros levantamentos do ano de 2026 trazem um leve aceno de mudança. Entre janeiro e julho, o Brasil contabilizou 848 vítimas de feminicídio, uma redução de 3,2% em comparação às 876 mortes registradas no mesmo período do ano anterior. Especialistas em segurança pública associam essa queda inicial, ainda que tímida, às primeiras diretrizes do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, que tenta integrar esforços de assistência social, policiamento e gestão de dados. No entanto, a problematização central permanece: enquanto a violência contra a mulher for tratada apenas como um desvio criminal, e não como o sintoma de uma desigualdade estrutural profunda que desvaloriza a vida feminina, as políticas públicas estarão apenas enxugando gelo. A verdadeira mudança exige que o Estado se faça presente antes que a agressão invisível se torne uma estatística fatal.

*Bianca Bessa

Universirtária.

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