“Façam ideia ” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovítera é arquiteto e escritor. Foto: Reprodução

Com o título “Façam ideia”, eis mais um texto de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

Confira:

Tem-me visitado uma dúvida recorrente: seríamos mais inteligentes dormindo do que acordados?

A dúvida nasceu de um hábito. Quase todos os dias desperto com uma ideia nova. Às vezes resolve um problema; noutras, abre caminho para um novo olhar sobre a vida. Aprendi a registrá-las sem demora. Basta confiar na memória e o esquecimento entra em cena. Esquecer só me faz bem quando parte de uma decisão.

Gosto da sensação de acordar com a mente cheia de novidades, como se a noite trabalhasse enquanto durmo. Na maioria das vezes encontro apenas ideias simples. Talvez por isso inteligentes. A simplicidade costuma chegar primeiro.

Intriga-me descobrir por qual motivo tantas respostas aparecem durante o sono e permanecem escondidas ao longo do dia, sufocadas pelos compromissos, pelo excesso de informações e pela rotina. Suspeito haver, na madrugada, uma espécie de liberdade concedida à imaginação.

Criar faz um bem danado. Escrever, desenhar, inventar, compor… tudo isso serena meus eus. Organiza a gente por dentro. Sim, eu somos nós, como costumo dizer. Talvez durante o sono eles conversem melhor entre si. Abrigo uma pequena multidão cá dentro. Na maior parte do tempo, convivemos em relativa harmonia.

Enquanto escrevo, ouço ao longe uma cantora lírica aquecendo a voz. As notas atravessam a manhã com delicadeza e acabam virando a trilha sonora do meu despertar. Logo minha imaginação completa a cena. Vejo os pássaros comentando entre si: “De tanto imitar a gente, daqui a pouco ela vai querer voar.”

Aliás, ando intrigado com outra observação. Tenho visto os pombos ocupando o espaço dos passarinhos. Os pardais parecem discretos; os pombos, ao contrário, dominam fios, praças e calçadas.

Voltando às ideias. Até hoje, muita gente me procura apenas para pedir uma. Justamente meu instrumento de trabalho! Sempre vivi das ideias. Como arquiteto e artista, aprendi cedo a transformá-las em projetos, desenhos e sonhos.

Ideias amadurecem. Mudam de forma, de direção e, às vezes, até de dono. Mudar de ideia nunca me pareceu sinal de fraqueza. Ao contrário. Só não muda de ideia quem não tem nenhuma.

Antes de encerrar esta conversa, uma última provocação. Se Deus criou o mundo a partir do nada, talvez o nada nunca tenha sido vazio. Desde o princípio, guardava todas as possibilidades.

Façam ideia.

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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