Com o título “O futebol brasileiro não nasceu ontem e nem pode virar refém da jogatina”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada por Luiz Henrique Campos, jornalista e psicólogo. “Nesse cenário, chama atenção o silêncio relativo de setores econômicos que também sofrem as consequências da perda de renda das famílias. Quando bilhões de reais deixam de ser destinados ao consumo e passam a financiar apostas, comércio, serviços e outros segmentos também são afetados”, expõe o colunista.
Confira:
A recente reação de clubes e federações contra possíveis restrições às bets revelou contradição incômoda no futebol brasileiro. Em manifesto divulgado na semana passada, entidades do setor chegaram a afirmar que o fim do mercado regulado poderia significar “o fim do futebol brasileiro”. O argumento pode até ser compreensível do ponto de vista financeiro, mas insuficiente quando se observa o problema por inteiro. As casas de apostas se transformaram em importantes patrocinadoras dos clubes, mas também passaram a ocupar espaço gigantesco na vida econômica e social do país.
Segundo levantamento divulgado pelo governo federal, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões com as bets em 2025. O dinheiro apostado não surge do nada, pois sai do orçamento das famílias e deixa de circular em outras áreas da economia. Estudo do Made/USP estima que as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025. São números grandes demais para serem tratados como efeito colateral secundário da indústria do entretenimento.
Mais preocupante ainda é o impacto sobre pessoas que já enfrentam dificuldades. O próprio poder público informa que cerca de 40 milhões de pessoas estavam cadastradas em plataformas de apostas autorizadas, enquanto aproximadamente 10% desse universo já estava impedido de apostar por diferentes mecanismos de proteção. Entre os bloqueados, é bom destacar, estão beneficiários de programas sociais e pessoas que renegociaram dívidas. Ou seja, a discussão não envolve apenas diversão, futebol ou liberdade de escolha. Envolve renda, endividamento, saúde financeira e proteção de parcelas vulneráveis da população.
Nesse cenário, chama atenção o silêncio relativo de setores econômicos que também sofrem as consequências da perda de renda das famílias. Quando bilhões de reais deixam de ser destinados ao consumo e passam a financiar apostas, comércio, serviços e outros segmentos também são afetados.
Ainda assim, a mobilização mais ruidosa veio justamente de quem recebe parte relevante desse dinheiro, que é o futebol. É legítimo que os clubes defendam suas receitas e alertem para os efeitos de mudança abrupta nas regras. Mas transformar essa dependência financeira em argumento para a sobrevivência do futebol exige reflexão mais profunda, afinal, o futebol brasileiro existia muito antes de as bets ocuparem camisas, placas, transmissões e programas esportivos.
Flamengo, Corinthians, Santos, São Paulo, Grêmio, Internacional e tantos outros construíram sua história quando sequer havia internet, quanto mais plataformas digitais de apostas. O futebol não nasceu das bets, nem sua importância cultural depende delas. O que mudou foi o modelo de financiamento de parte do espetáculo. Em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A tinham bet como patrocinadora no espaço principal das camisas; em 2026, eram 13. Isso mostra que a própria indústria de apostas não constitui fonte de receita necessariamente estável ou permanente.
Além disso, defender a permanência das bets reguladas pode ser acompanhado da cobrança por regras mais rigorosas, fiscalização e proteção ao consumidor. Os próprios clubes reconhecem, em seu manifesto, que a expansão das apostas trouxe impactos sociais e exige mecanismos de prevenção e proteção. O ponto central, portanto, não deveria ser escolher entre futebol e sociedade. Deveria ser perguntar por que esporte tão poderoso econômica e culturalmente chegou ao ponto de apresentar a receita das apostas como indispensável à sua própria sobrevivência.
O futebol brasileiro é muito maior que qualquer patrocinador, por mais milionário que seja. E uma sociedade que começa a perder bilhões de reais para a jogatina precisa discutir seus custos antes de contabilizar apenas os benefícios de quem lucra com ela, sob pena de passar de fenômeno cultural para instrumento de corrosão social.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e psicólogo.