Tenho pena porque ninguém parece lembrar que o forte sente angústia, dor, culpa, medo. Lembrar que ele existe é difícil, afinal, ele sempre dá conta.
“Liga para ele”
“Ela resolve”
E assim, sem perceber, vamos construindo em torno dos fortes uma espécie de reputação (o forte até vê isso com um certo orgulho, coitado) que, com o tempo, vira uma sentença: você é forte, então aguenta.
Você nem vai ousar perguntar ao forte se ele está precisando de alguma coisa, isso seria quase uma ofensa, não é verdade?
Porque a gente já imagina a resposta.
“Está tudo bem”.
E nem sempre está, mas o forte aprendeu a dizer que está até porque a pergunta já vem com tom de afirmação, pois a gente não tá preparado pra ouvir que não está.
O forte já sabe até o que vai ouvir logo em seguida:
– Qualquer coisa, tô aqui!
Mas no fundo, no fundo, o que ele entende é: “Se precisar de mim, desprecise”!
O forte sorri, acredita? Ele gargalha, talvez por pena de si mesmo, quiça por falta de opção.
O forte aprendeu a resolver tudo enquanto sorri (ou chora escondido) lavando a louça e até ouvindo um podcast ou assistindo uma aula online importante (o forte ainda ousa ter planos). O forte sabe ouvir áudios de incontáveis minutos de whatsapp, que poderiam ser três linhas digitadas, mas os fortes não precisam ser poupados, até porque eles nunca deixam o telefone no silencioso, mesmo quando queriam (e precisavam de) silêncio.
O forte sabe fazer café para quem está triste.
Sabe encontrar o documento perdido.
Sabe organizar a casa depois da tempestade.
Sabe dar conselho.
Sabe comprar presentes para os aniversariantes da semana.
Sabe visitar quem está doente.
Sabe sorrir na fotografia.
Sabe dizer “vai passar”.
E, quando chega a sua vez de perguntar quem vai dizer isso para ele, geralmente não há ninguém porque ele É forte, lembra?
Tenho pena dos fortes porque, muitas vezes, eles são vítimas da própria competência.
Quanto mais dão conta, mais invisíveis se tornam e menos ajuda recebem.
Quanto melhor você fica em sobreviver, menos as pessoas perguntam se você está sobrevivendo.
Talvez seja por isso que algumas pessoas desapareçam aos poucos sem que ninguém perceba.
Elas continuam trabalhando.
Respondendo mensagens.
Pagando boletos.
Cuidando dos filhos.
Visitando os pais (EITA).
Publicando fotografias.
Continuam dizendo “estou bem”.
E a gente acredita que, portanto, não precisam de mais nada.
(Graças a Deus).
Acreditar é mais confortável. Importar-se dá um trabalho danado.
Afinal, o forte sempre foi forte.
Só que ninguém é forte o tempo inteiro.
O aço enferruja.
A parede racha.
Até a árvore mais experiente balança no rojão do B-R-O bro. Quando a gente dá fé, os ventos saem carregando as folhas tudim. Valha! Não aguentou não, foi? E a gente culpa o tempo, o El Niño….
Será que é por isso que o Amarelo é em SetemBRO (bro)?
Até quem sustenta suas folhas o ano inteiro (seja quando verdinha ou quando seca) precisa, em algum momento, deixar o vento soprar e levar o que for preciso.
Talvez o gesto mais bonito que possamos oferecer a alguém não seja dizer “você é muito forte, parabéns (os fortes odeiam ouvir isso, tá? De nada!)”.
Talvez seja perguntar:
“Posso ficar aqui com você?”
Sem a curiosidade de fazer perguntas.
Sem pedir respostas.
Há pessoas que passam tanto tempo sendo fortes que já não sabem nem como pedir ajuda.
Que deixemos chegar o vento do BRO bro e que ele arraste consigo tudo o que não suportamos mais sustentar.
Permita desfolhar-se sempre que pesar.
Obrigada pela leitura!
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O Tagarella volta a circular, 161 anos depois
Há jornais que desaparecem. E há aqueles que, mesmo depois de mais de um século, continuam tendo coisas a dizer. É o caso de O Tagarella – Jornal Livre, Crítico e Noticioso, periódico que circulou em Fortaleza em 1865 e que agora ganha uma edição fac-similar reunindo seus 22 números.
A publicação será lançada no próximo dia 23 de setembro, às 19h, na Academia Cearense de Letras (ACL), durante a programação de lançamentos da Fliman. A iniciativa é da Fundação Waldemar Alcântara, por meio do Ministério da Cultura.

Criado em fevereiro de 1865, O Tagarella se apresentava como um jornal disposto a dizer “tudo aquilo que quiser e souber”. A promessa vinha acompanhada de uma linguagem crítica e provocativa. O periódico fazia oposição ao poder provincial e criticava a imprensa local, que considerava submissa ao governo.
A vida do jornal, no entanto, foi curta: depois de 22 edições, deixou de circular em 27 de agosto daquele mesmo ano. Nas páginas sobreviventes, ficaram registros de uma Fortaleza oitocentista vista pelo humor, pela sátira e pela crítica. Caricaturas, gravuras, enigmas, textos políticos e seções como Crônicas e Teatro Popular revelam também uma maneira particular de fazer jornalismo no século XIX.
Os exemplares que serviram de base para a edição foram cedidos pelo colecionador, pesquisador e livreiro Jorge Brito, reconhecido na publicação como entusiasta do projeto.
Para Sílvia Furtado, da Fundação Waldemar Alcântara, recuperar O Tagarella é também preservar um retrato de seu tempo. “Ao trazer O Tagarella novamente ao público, preservamos não apenas um jornal, mas um retrato de uma época”, destaca.
A edição traz ainda uma Nota ao leitor, assinada por Cid Saboia de Carvalho, e texto de Lúcio Alcântara sobre o periódico e sua importância para a história da imprensa cearense.
No fim das contas, talvez o mais interessante seja justamente isso: O Tagarella mudou de século, mas não perdeu a voz. Volta agora em fac-símile para que leitores, pesquisadores e curiosos possam descobrir o que um jornal de 1865 tinha a dizer sobre a Fortaleza de seu tempo — e, quem sabe, perceber que algumas inquietações da imprensa são bem mais antigas do que parecem.