Com o título “As relações de Vorcaro, o vídeo de Porchat e o filme”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista e psicólogo Luiz Henrique Campos. “O episódio da série “Revelando” sobre as conexões de Vorcaro com a Igreja Batista da Lagoinha e personagens da política ganhou enorme repercussão. Em seguida, o perfil da série foi retirado do Instagram pela Meta, sem explicação plausível”,expõe o colunista.
Confira:
A transparência, tão exigida pela sociedade no caso Daniel Vorcaro, começa a adquirir, curiosamente, a aparência de bem escasso. As informações existem. O que parece faltar é a disposição para colocá-las todas sob a mesma luz. O celular do banqueiro, apreendido pela Polícia Federal, tornou-se peça central da investigação. Mensagens revelaram contatos de Vorcaro com o ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF) e relações com os filhos dos também ministros da Corte, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Há registros que merecem investigação, há negativas dos envolvidos e há, sobretudo, muitas perguntas sem resposta.
É preciso, evidentemente, separar relação de irregularidade. Mensagem não é condenação, assim como proximidade pessoal não é prova de crime. Mas também seria curiosa concepção de transparência considerar que determinadas relações deixam de merecer escrutínio apenas porque envolvem gente poderosa. Foi quando apareceu Fábio Porchat. O episódio da série “Revelando” sobre as conexões de Vorcaro com a Igreja Batista da Lagoinha e personagens da política ganhou enorme repercussão. Em seguida, o perfil da série foi retirado do Instagram pela Meta, sem explicação plausível. Mais tarde, a plataforma voltou atrás e restaurou a conta, atribuindo o episódio a revisão interna.
A Meta pode, naturalmente, ter sua justificativa interna. O problema é que explicações vagas, em casos sensíveis, costumam produzir o efeito inverso do pretendido, pois em vez de encerrar a dúvida, alimentam-na. E houve mais. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, determinou, no mesmo dia, a retirada de vídeo que relacionava Flávio Bolsonaro a Vorcaro e ao financiamento de “Dark Horse”. A decisão considerou que a publicação associava o senador a pessoas investigadas e a fatos criminosos sem comprovação concreta. Aqui, porém, surge o personagem que talvez esteja sendo tratado como coadjuvante quando deveria estar no centro do palco, que é o próprio filme.
Segundo as investigações, Flávio Bolsonaro procurou Vorcaro em busca de recursos para a produção de “Dark Horse”. Mais de R$ 60 milhões teriam sido repassados. A destinação desse dinheiro passou a ser objeto de investigação. A pergunta, portanto, não precisa ser ideológica. Nem partidária. Nem moralista. É contábil. Onde foi parar o dinheiro? É uma pergunta bastante menos cinematográfica do que a discussão sobre quem conhecia quem, quem encontrou quem, quem esteve em qual evento ou quem apareceu em determinada mensagem. Mas talvez seja justamente por isso que mereça tanta atenção.
Dezenas de milhões de reais não costumam desaparecer em simples mudança de cenário. Deixam rastros. Contratos. Transferências. Notas. Prestadores. Contas. Documentos. E, quando não deixam, a ausência do rastro também precisa ser explicada. O mais curioso é que o caso vai produzindo espécie de roteiro paralelo. Mensagens são reveladas. Outras permanecem sob sigilo. Relações aparecem. Vídeos desaparecem e depois reaparecem. Decisões judiciais mandam retirar conteúdos das redes. E, no meio de tudo isso, o dinheiro que financiaria um filme parece disputar com o próprio filme o direito de permanecer fora do enquadramento.
Talvez tudo tenha explicação perfeitamente legal. As investigações dirão. Mas transparência não deveria significar apenas aquilo que pode ser mostrado sem causar desconforto. Transparência é justamente permitir que a sociedade enxergue também aquilo que seria mais conveniente deixar na penumbra. No caso Vorcaro, há banqueiro, políticos, magistrados, igrejas, garotas de programa, empresários, mensagens, vídeos, decisões judiciais e milhões de reais. Temos, portanto, praticamente todos os ingredientes de grande produção. Falta apenas uma coisa. O público conhecer o roteiro completo. E, neste filme, seria realmente uma pena descobrir, no final, que justamente a parte mais cara da produção ficou fora de cena.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e psicólogo.