“Sheen compreendeu, antes de muitos outros, que Rádio e Televisão não eram necessariamente instrumentos de banalização da cultura e da fé. Podiam transformar-se em púlpitos modernos”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves
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Ainda na pré-adolescência, membro da Juventude Franciscana na cidade de Cedro-Ceará, tive um breve contato com Fulton Sheen. Não por intermédio da catequese da paróquia local, mas em conversa com um grupo de jovens visitantes, que realizavam os “Encontros de Jovens com Cristo”. Simpatizei com as ideias de Sheen. Porém, talvez por ser muito jovem para compreendê-lo em conversa fortuita, esqueci a figura. Só muitos anos depois, ao cursar Teologia em um Seminário Presbiteriano – os caminhos de Deus são insondáveis! – reencontrei Sheen. E não numa cadeira de Espiritualidade, mas numa de Comunicação. O reencontro deixou-me inexplicavelmente surpreso. Depois apaixonei-me pelas ideias do Bispo de Nova York com sobrenome que soava oriental. Passei a ler suas obras com avidez e daquele tempo a esta parte, já lá se vão cerca de quarenta anos de encantamento e devoção. Sheen foi um extraordinário pregador da liberdade, em permanente cruzada contra toda sorte de totalitarismos.
Nesta quinta-feira à tarde, assisti muito emocionado, à transmissão da Missa solene em que o Vaticano formalizou a subida do Venerável Fulton Sheen em mais um degrau a caminho da canonização. A Igreja Católica inscreve o seu nome no luminoso elenco dos Beatos. A belíssima solenidade ocorreu em Saint Louis, no Missouri-EUA. A celebração, presidida pelo cardeal Luis Antonio Tagle, representante do Papa Leão XIV, reuniu milhares de fiéis para reconhecer oficialmente a Bem-aventurança de um dos maiores comunicadores católicos do século XX. A cerimônia adquiriu particular significado pela leitura da “Carta Apostólica” de Leão XIV, que proclama Sheen Beato e apresenta a síntese essencial de sua missão: um “incansável pregador do Evangelho através dos modernos meios de comunicação” e um “pastor solícito, animado pelo zelo missionário”. Não se trata, portanto, de uma homenagem à celebridade, mas o reconhecimento de uma vida colocada a serviço de Cristo e da salvação das almas.
Na homilia, o cardeal Tagle insistiu em afirmar que Fulton Sheen é bem-aventurado não porque alcançou milhões pelo rádio e pela televisão, nem porque se tornou escritor célebre. Sua verdadeira grandeza está na comunhão com Cristo e na proximidade com os pobres e vulneráveis. Sheen, diga-se com firmeza e justiça, falava sobre os pobres não como massa de manobra político-ideológica. Via-os e tratava-os sempre como amados irmãos em Cristo, que pelas condições em que vivem são merecedores da caridade cristã. Para ele, a audiência numerosa que tinha no Rádio e na Televisão era tão-somente instrumento para levar homens e mulheres ao encontro com Jesus Cristo.
Fulton Sheen reunia, de maneira extraordinária, inteligência, cultura e ardor apostólico. Filósofo, teólogo, professor, escritor e bispo, estudou na Universidade Católica da América, em Lovaina e na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, em Roma. Sua formação intelectual não permaneceu encerrada nas salas de aula, posto que ele transformou o saber e o profundo conhecimento da Palavra de Deus, em linguagem acessível, capaz de alcançar tanto o intelectual quanto o homem simples. Foi precisamente na pregação que sua vocação encontrou uma de suas expressões mais extraordinárias. Em 1930, iniciou sua participação no programa radiofônico “The Catholic Hour”, que chegou a alcançar cerca de quatro milhões de ouvintes. Em 1951, transferiu sua presença evangelizadora para a Televisão com “Life Is Worth Living”, programa que chegou a atingir cerca de 30 milhões de espectadores.
Sheen compreendeu, antes de muitos outros, que Rádio e Televisão não eram necessariamente instrumentos de banalização da cultura e da fé. Podiam transformar-se em púlpitos modernos. Ele os utilizou para falar de Deus, da Igreja, da moral, da conversão, do pecado, da graça e do destino eterno do homem. O próprio Leão XIV recordou antes da beatificação, que Sheen foi uma “luz de fé, esperança e amor” que brilhou durante décadas por intermédio do Rádio e da Televisão. O atual Pontífice testemunhou, ainda jovem, a força evangelizadora de suas transmissões. O decreto de 2012, pelo qual Bento XVI reconheceu suas virtudes heróicas, já havia apresentado Sheen como verdadeiro apóstolo da época moderna, evangelizador que utilizava os meios tecnológicos mais recentes para anunciar o Evangelho, sustentado por profunda vida interior, pela Eucaristia, pela oração litúrgica e pela devoção mariana. A beatificação de Fulton Sheen é, assim, muito mais que a elevação de um grande comunicador aos altares. É a confirmação de que inteligência, cultura e modernos meios de comunicação podem ser colocados integralmente a serviço da Verdade e de Cristo. Sua vida recorda à Igreja que o verdadeiro pregador não apresenta a si mesmo, mas procura levar o homem a Deus.
A beatificação de Sheen neste momento chama a atenção da própria Igreja, no sentido de que tendo os pés entre os pobres pecadores deste mundo, não se desvista da busca da subida para o Cristo ressuscitado que está sentado à direita do Pai.
Barros Alves é jornalista e poeta