“A esquerda virou direita e a direita virou esquerda?” – Por Gérson Marques

Gérson Marques de Lima é professor e subprocurador-geral do Trabalho. Foto: Divulgação

Com o título “A esquerda virou direita e a direita virou esquerda?”, eis artigo de Gérson Marques, doutor e professor da Universidade Federal do Ceará. ” A verdadeira esquerda exige mudanças no modo de produção, no sistema de exploração das classes mais vulneráveis pelos grupos mais fortes. A versão paz e amor, que acredita no pacto entre o capital e o trabalho, no diálogo igualitário entre classes sociais tão diferentes, é a perspectiva da centro esquerda”, expõe o articulista

Confira:

Entre direita e esquerda está havendo uma troca de pautas. Ao menos, supostamente.

Ser nacionalista agora é coisa de esquerda. A direita defende os EUA, prega a intervenção no Brasil e mistura símbolos nacionais com símbolos estrangeiros. Para ela, os EUA devem mandar no Brasil, influenciar em seu processo eleitoral, punir as autoridades brasileiras, atropelar a soberania nacional, administrar a Amazônia e explorar nossas terras raras. E a bandeira de Israel tremula ao lado da norte-americana nas mobilizações da extrema direita brasileira, enquanto uma multidão de brasileiro(a)s é arrastada nos corredores de algumas avenidas e praças.

E o próprio uso da bandeira exclusivamente brasileira é reivindicação da esquerda (não é mais a vermelha, do comunismo), porque a bandeira empunhada pela direita agora é a americana, aquela listrada com as cores azul, vermelho e branco, senão a de Israel. A direita até usa a verde e amarelo, mas acredita que ela é potencializada com a dos EUA. Uma visão própria de submissão política, econômica e institucional. Ou entreguismo.

Defender a liberdade, mesmo que para a prática de absurdos, é pauta da direita. Liberdade de expressão, liberdade política, liberdade de manifestação. Liberdade, não importa em que termos e para quais fins. Liberdade para proferir palavrões, para agredir verborragicamente os amigos, os parentes, os concidadãos. Liberdade para gritar contra qualquer um que destoe das concepções de direita. Liberdade para agredir sem limites, inclusive fisicamente. Liberdade para desrespeitar as autoridades e desmantelar as instituições.

Defender direitos fundamentais, mesmo que às avessas (a extrema direita nunca compreendeu bem isso ou não aceitou), passou a ser bandeira da direita. Calma, não é na forma genuína. A defesa dos direitos humanos é pautada quando se trata de um membro preso da extrema direita. Para ela, a prisão de pobres e negros não é questão de direitos humanos, é de limpeza da sociedade. A defesa da extrema direita não é a defesa dos direitos humanos, mas sua defesa em favor de membros do grupo, de castas específicas e com características muito próprias. É uma defesa “de conveniência” da pauta humanitária, erguida enviezadamente. Entre o forte e o fraco, o direito humano defensável é o do forte. Direitos trabalhistas, sociais e previdenciários devem ser extintos. Mesmo assim, os direitos fundamentais são invocados. Quando o interesse não coincide, a pauta humanista é demonizada.

A defesa da ordem e do progresso agora é pauta da esquerda, assim como o respeito às instituições e à economia do país. A extrema direita quer a desordem, o falecimento das instituições, o assassinato de autoridades, o caos na democracia das casas legislativas, o golpe de Estado, o fim do Supremo Tribunal. Explodir bombas em prédios públicos é incentivado pela direita e recriminado pela esquerda. Bombas no Supremo, atentados a aeroportos. Interditar estradas e fazer motins também não é mais coisa da esquerda, é da direita. Principalmente em época eleitoral.

Uma esquizofrenia política.

Mas há uma lógica em tudo isso. Primeiramente, a esquizofrenia não é ideológica. Esquerda e direita continuam com seus propósitos. Ao menos relativamente, porque trilharam estratégias diferentes e absorveram os influxos sócio-políticos com impactos distintos. Na verdade, a esquerda de hoje não é a mesma de antigamente e, a rigor, já incorporou muito de uma compreensão política mais centrista. É a centro-esquerda, um notório desvio da esquerda, um simulacro da ideologia original, que foi se adequada com os anos. Para alguns, esta versão é uma perspectiva deturpada e corrompida da verdadeira esquerda.

E a direita avançou para a extrema direita, com intenção mais predatória, escancaradamente adepta das desigualdades sociais, discriminatória, defensora da violência, do elitismo e da autocracia. Quem estiver em seu caminho deve ser eliminado, porque não há espaço para diálogo nem construção de consensos.

A centro-esquerda dialoga muito, por vezes mais do que o devido. Abandonou o radicalismo e, na política, isso se reflete nos pactos de uma
administração multifacetada, onde representantes da direita (não da extrema direita) têm assento nos ministérios e em cargos de primeiro e segundo escalões. Nos governos de direita – sobretudo nos de extrema direita – , contrariamente, a esquerda (seja ela qual for) não logra assento algum no Governo. No máximo, algum cargo sem relevância nem influência, lá pelo terceiro ou quarto escalões, muito mais no fito de segurar pela cauda alguns focos de resistência.

Na prática, as concessões feitas pela centro-esquerda pouco ou nada contribuem para a governabilidade ou para a aprovação de projetos de relevância social no Congresso Nacional. Certos partidos têm fome insaciável. Poucos direitistas (mais, de centro-direita) é que se dispõem, efetivamente, a colaborar com os governos de centro-esquerda. É possível que a palavra “centro”, contida em centro-direita e em centro-esquerda, una esses atores políticos. Mas só na política, não na ideologia, não na percepção social.

A verdade é que a esquerda se endireitou – não no sentido de ter se consertado (porque não precisava), mas de ter assumido pautas de direita, ter amenizado seus discursos. Contrariamente, a direita aperfeiçoou sua funcionalidade, avançou para o radicalismo, fez brotar a extrema direita, adotou estratégias da esquerda, tornou-se irascível. Enquanto a esquerda se amofinou e se tornou mais “comedida”, a direita caminhou para o extremismo, assumindo sua forma mais impetuosa, virulenta, ostensiva e proativa.

A esquerda de hoje não é comunista, nem de perto! Nem chega a ser socialista. Não é bastante ter algumas pautas sociais para receber a alcunha de esquerda, sobretudo quando se encastele em burocracias e faça pacto de silêncio com governos de conveniência.

Basta defender meia dúzia de direitos sociais para receber a alcunha de socialista ou esquerdista. Compreensão errada, sem dúvidas. Ao lado de valores como igualdade, justiça social e solidariedade coletiva, a defesa intransigente de mudança social é elemento balizador do que se entenda por esquerda, cuja atuação efetiva deve ir muito além dos discursos, das perfumarias e das meras aparências. Soluções políticas moderadas, que buscam a conciliação entre pautas humanitárias e a ferocidade do capital, sem ruptura urgente do stablishment, são posições de centro, não de esquerda. A verdadeira esquerda exige mudanças no modo de produção, no sistema de exploração das classes mais vulneráveis pelos grupos mais fortes. A versão paz e amor, que acredita no pacto entre o capital e o trabalho, no diálogo igualitário entre classes sociais tão diferentes, é a perspectiva da centro esquerda.

*Gerson Marques

Doutor e professor da Universidade Federal do Ceará.

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias