“O pesquisismo non sense volta a pautar mais uma vez a eleição brasileira” – Por Francisco Bezerra

Francisco Bezerra é jornalista, radialista escritor.

Com o título “O pesquisismo non sense volta a pautar mais uma vez a eleição brasileira”, eis artigo de Francisco Bezerra, jornalista, radialista e escritor. ” já passou da hora de alguém bradar em alto e bom som no meio desta zorra: “Ou o Brasil acaba com o pesquisimo, ou o pesquisimo acaba com a democracia do Brasil”, expõe o articulista.

“As pesquisas eleitorais são previsões científicas perfeitas, desde que você ignore a margem de erro, ohistórico de erros e o fato de que a única precisão absoluta delas é a data em que foram publicadas.” (Aforismo irreverente e anônimo ).

Confira:

Vamos todos mais uma vez às urnas no próximo dia 4 de outubro par escolher o próximo presidente da República, renovar dois terços do senado, eleger 27 governadores e definir as cadeiras da Câmara Federal e Assembleias. Mais uma eleição desvirtuada em seu objetivo crucial pela profusão de pesquisas eleitorais de institutos suspeitíssimos e de interesses inconfessáveis. Um pesquisismo selvagem, confuso e sempre a serviço de interesses dos que detém força junto ao Establishment. E vem de Leonel Brizola, a quem considero uma espécie de Oráculo de Delfos da política nacional, as críticas mais ácidas contra tais pesquisas. Pesquisas que são publicadas todos os dias, de manhã, de tarde, de noite e até de madrugada. Os números delas são absurdamente díspares, desencontrados.

As declarações marcantes feitas pelo líder trabalhista, em campanhas presidenciais (como as de 1989 e de 1994) em programas como Roda Viva e sabatinas em emissoras de rádio e em jornais, asseguravam que os institutos de opinião pública eram instrumentos utilizados para a construção de cenários sob encomenda de grupos econômicos e governos. Conforme ele, os números divulgados não mediam a realidade, mas, ao contrário, tentavam, através da ficção, criar uma psicologia de voto útil ou de inevitabilidade de resultados para favorecer candidatos alinhados ao ‘sistema’ dominante. Para Brizola, os levantamentos perdiam credibilidade por atuarem a serviço de uma conspiração dos meios de comunicação e de elites econômicas contrárias às candidaturas populares e reformistas.

Já narrei, aqui neste espaço generoso do meu amigo Eliomar, que na eleição de 1985 em São Paulo, Jânio Quadros acusava os institutos de pesquisa de favorecerem a candidatura de Fernando Henrique Cardoso. Apoplético em entrevistas, Jânio chegou a afirmar que as pesquisas do Ibope eram desonestas, fraudulentas e corruptas. Ao final do pleito, o ex-presidente, a despeito de todas as pesquisas, derrotou oponente, então filiado ao PMDB.

Os erros das pesquisas ao longo de várias eleições são tão gritantes e grosseiros que levou o presidente do Vox Populi, sociólogo Marcos Coimbra, a dizer que elas envelheceram. Os números das urnas recorrentemente contrastam com as pesquisas eleitorais divulgadas na véspera. A coisa tem sido tão escandalosa que, na eleição de 2022, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), chegou a pedir abertura de inquérito contra os resultados de alguns institutos naquela disputa eleitoral. O documento tinha dez páginas com o pedido e foi encaminhado ao superintendente-geral do órgão, Alexandre Barreto.

Nele, Macedo disse que “erros foram evidenciados pelos resultados das urnas apuradas, quando se constatou que as pesquisas de diferentes institutos de pesquisa, tais como o Datafolha, Ipec, Ipespe, dentre outros, erraram, para além das margens de erro, nas pontuações em relação a alguns dos candidatos.” O texto finalmente mencionava que podia ter havido infração a legislação concorrencial e possível infração a ordem econômica. As derrapagens foram tão feias que, na época, o cientista político Renato Doce chegou a dizer que os institutos de pesquisas eleitorais precisavam ir para o divã porque não estariam conseguindo captar os movimentos dos eleitores durante o processo eleitoral. Este foi só um exemplo pinçado entre calhamaços de processos que correm na justiça eleitoral contras os aferidores da vontade
popular.

A tragédia maior é que as pesquisas pautam as campanhas eleitorais, embasam teorias de analistas políticos e dominam as conversas quotidianas da população de um modo geral. As discussões do vulgo sobre as pesquisas são tão acaloradas quanto as conversas flamejantes sobre futebol. Outra catástrofe é o emaranhado de números, teses, antíteses que nunca levam a uma síntese, dentro do processo dialético. Há ainda comentários velados sobre a compra de pesquisas por candidatos e/ou partidos, que as utilizam como ferramenta de marketing eleitoral com fito de induzir os eleitores incautos a votarem no “dono” do instituto contratado para tal fim a peso de ouro.

Nesta eleição de 2026, registrou-se uma epidemia de pesquisas eleitorais feitas por instituições que ninguém sabe de onde saíram e a serviço de quem estão. O debate de ideias, fundamental para a conscientização do eleitor sobre a importância de escolher bem o seu representante,virou questão subalterna. Mais relevante que o passado, o presente, a honestidade e o compromisso dos candidatos com a coisa pública são os números das pesquisas que inundam o noticiário nacional e as redes sociais. São tantos e desencontrados que acabam gerando uma barafunda na cabeça do eleitor.

Quando das suas viagens pelo Brasil no século XIX, o naturalista e botânico francês Auguste de Saint-Hilaire (1779–1853) , impressionado com a voracidade das formigas saúvas, que destruíam plantações, pastos e árvores proferiu a célebre frase que nunca saiu do imaginário popular de nosso país: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil.” A frase também ficou conhecida na literatura
brasileira após ser lembrada por Mário de Andrade na famosíssima obra modernista Macunaíma. Mutatis mutandis, já passou da hora de alguém bradar em alto e bom som no meio desta zorra: “Ou o Brasil acaba com o pesquisimo, ou o pesquisimo acaba com a democracia do Brasil. Até outra oportunidade porque nunca é demais lembrar que atrás vem gente.

*Francisco Bezerra

Jornalista, radialista e escritor.

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