Com o título “Marte em Chamas”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.
“IA, soberania e a terceirização do pensamento”
(a Demerval Carneiro, Diretor do melhor Planetário da AL)
A notícia é do New Marte Times, que não tem o hábito de exagerar.
Guerras. Fome. Solidão. Recursos naturais indo para o beleléu. Máquinas cada vez mais inteligentes.
Marcianos cada vez mais apressados.
Nunca antes na história deste planeta se produziu tanto para se precisar de tão pouco.
Os marcianos dividiram o átomo, pousaram naves de ré, puseram bibliotecas inteiras no bolso e ensinaram máquinas a aprender.
Mas estão perdendo o hábito, terceirizando tecnologias mais antigas.
Conversar. Escutar. Esperar. Conviver.
E, ultimamente, pensar.
Marte em Chamas.
Nenhum alarme tocou. Nenhuma fumaça subiu.
Talvez seja esse o incêndio mais perigoso de Marte. O que não produz fumaça.
*1. PSICOLOGIA — Digito, logo existo*
Zygmund Mars, famoso psicanalista da Universidade de Olympus Mons, no Baixo Marte, não vê mistério.
Marte entrou na era da atenção líquida.
A mensagem chega antes de a conversa acabar. O vídeo seguinte começa antes de o anterior deixar qualquer ideia. A resposta chega antes de a pergunta incomodar.
Nas ruas, marcianos caminham de cabeça baixa, em reverência a pequenas rapaduras eletrônicas luminosas.
Atravessam avenidas olhando para elas. Dirigem carros movidos a areia renovável teclando nelas. O seguro morreu de velho. O pedestre marciano, de notificação.
À mesa, cada um no seu quadrado. Retangular.
Na escola, o jovem jura:
— Agora vou prestar atenção, professor.
Cinco minutos depois.
Plim. Olha. Não era nada. Guarda.
Plim. Olha. Também não era nada.
Seria fácil culpar a juventude marciana. Mas os adultos não ficam atrás.
Na reunião importante, resistem bravamente. Até não resistirem.
— Vou bem ali ao banheiro.
E levam o celular.
E os idosos? Alguns já conversam com a rapadura eletrônica sobre a mesa. Ela responde. Não diz “depois eu te ligo”. Não olha para outra tela enquanto o velho fala.
Tem idoso que já prefere a rapadura. Ela, ao menos, escuta.
*2. ECONOMIA — O Markitalismo*
Mark Smith, em A Pobreza das Nações, garante que a mão invisível continua funcionando.
Apelidou o sistema de Markitalismo. Tempo é dinheiro. Atenção também. O sono, quando sobra, vira assinatura premium.
O pensamento também. Com desconto no plano anual.
Nunca Marte produziu tanto. Nunca seus habitantes compraram tanto. E nunca reclamaram tanto da falta de tempo.
Smith escreveu a frase que tirou os economistas ortodoxos do sério:
“Há marcianos tão pobres que a única coisa que possuem é dinheiro.”
A disputa do momento é entre o cartão Credit Mark, o velho MISA é um tal de MIX, invenção de um tal de Mrasil, fabricante de avião que ainda não aterrissou na pista da Inteligência MArtificial (IMA).
Quando Marte percebeu o tamanho do problema, um contribuinte perguntou no auditório de Olympus Mons:
— E as universidades de Marte?
Silêncio.
Ninguém respondeu.
Estavam preenchendo o https//Marttes…
*3. TECNOLOGIA — A Terra NÃO é o limite*
Tecnologia nunca foi problema em Marte.
Mark Turing construiu a máquina ternária: Zero, Um e Talvez.
Os historiadores garantem que o “Talvez” abriu caminho para a Inteligência Martificial, a IMA. Os políticos marcianos protestaram: já usavam o “talvez” muito antes. Em campanha, principalmente.
Depois vieram os Markcenters de IA.
Consomem energia suficiente para iluminar pequenas luas e água para matar a sede de grandes desertos. Talvez explique por que Marte só tem deserto.
Então apareceu Elon Marsk. Foguetes. Satélites. Robôs.
Seu último lançamento para passar a sacolinha nos investidores: um carro movido a pensamento.
Único defeito: para dirigir, o marciano precisa pensar.
As vendas preocupam.
Marsk já anunciou a versão 2.0. O carro pensa sozinho. O marciano só paga.
Esgotou na pré-venda.
Água. Oxigênio. Terras raras. Energia. E oito bilhões de terráqueos produzindo dados vinte e quatro horas por dia. De graça.
Perguntaram quanto custaria conquistar o planeta azul.
— Conquistar? Para quê? Basta controlar a infraestrutura, os dados e a atenção. Eles mesmos pagam a mensalidade.
Zygmuntd Mars anotou:
“O problema nunca foi chegar a outro planeta. Foi aprender a negociar neste.” (acho que esta deixa seria do Mark Smith … rsrsr).
*4. FILOSOFIA — Marciano não rouba marciano*
Apesar do progresso, Marte conserva um hábito ancestral: a guerra.
Jovens que nunca se viram são mandados matar outros jovens que também nunca se viram. Por território. Poder. Minério. Religião. Fronteira.
Ultimamente, nem isso. A IMA escolhe o alvo. O drone vai lá. Ninguém assina.
No fundo, guerra é roubo de farda. E há queles que dispensam a farda. Leva-se o minério com contrato, os dados com um “li e aceito”, a atenção com uma notificação.
Foi quando a filósofa Markina de Beauvoir lançou um movimento de radicalidade assustadora:
“Marciano não rouba marciano.”
Parecia óbvio. Por isso mesmo virou polêmica.
Seu companheiro de mesa no Deux Markôts, Jean-Paul Mark, assinou embaixo, com uma ressalva: o inferno continua sendo os outros. Mas não é motivo para roubá-los.
E lembrou que o marciano está condenado a ser livre. Liberdade não se terceiriza.
O cantor Caetano Martoso aderiu e dedicou seu Podres Poderes de Marte ao Supremo Tribunal de Marte.
O tribunal não se manifestou. Fez ouvido de mercador… com conta no Banco Marker.
*5. EDUCAÇÃO — A jumentização cognitiva do planeta vermelho. De raiva.*
Aqui a brincadeira perde a graça.
Nunca uma geração marciana teve tanto conhecimento na palma da mão.
A Inteligência Martificial (IMA) explica física muântica, resolve equação sideral, programa, escreve, argumenta, resume.
Deveria ser a geração mais sabida da história de Marte.
Deveria.
· Diante da pergunta: IMA
· Diante da dúvida: IMA.
· Diante da página em branco: IMA.
A máquina passou a chegar antes da dúvida. Antes da tentativa. Antes do erro. Antes do pensamento.
Os educadores recorreram a uma expressão pouco científica, aparentemente contrabandeada da Terra: jumentização cognitiva.
Nunca se terceirizou tanto raciocínio. Nem se teve tanta preguiça de usar o próprio.
Foi então que alguns professores marcianos cometeram uma heresia.
· Primeiro: pense.
· Depois: escreva.
· Depois: explique.
· Só então: confronte com a Inteligência MArciana (IMA).
· Por fim: reflita.
Batizaram de FÊNIX.
O problema não era a IMA. Era a ordem das coisas.
Depois de pensar, tragam a melhor que houver. Questionem. Discordem.
Mandem atacar seus argumentos. Descubram onde erraram. E voltem a pensar.
A IMA deixa de ser muleta. Vira adversária.
Terceiriza-se a tarefa. Nunca o pensamento.
Alguém reclamou:
— Mas isso demora.
Zygmund Mars retrucou:
— É para demorar mesmo.
Tem coisa na vida que não roda em 2x.
*6. ARTE que imita a VIDA*
Mark Anysio, o Chaplin de Martiguape, era humorista, pai de mais de duzentos personagens. Marte gargalhava sem perceber que ria de si mesmo.
Um dia, os personagens saíram do palco e foram para as ruas em Marte.
Na Escolinha do Professor Raimundo, ninguém sabia nada e todo mundo tinha resposta. Agora todo mundo acerta. A IMA sopra no pé d’ouvido.
Alberto Roberto, o canastrão apaixonado pela própria imagem, era piada. Virou modelo de negócio. A IMA escreve a legenda, escolhe o filtro e responde aos fãs.
Então chegou Mark Zuckermarte.
Pegou um velho ditado, quem não é visto não é lembrado, e transformou em indústria.
Em Marte já não basta viver. É preciso publicar a prova.
Pôr do sol sem foto não aconteceu. Jantar sem post não foi digerido. O que os olhos não postam, o coração não sente.
Mark Anysio também pintava telas. Os marcianos passaram a morar nelas.
*7. SOBERANIA MARCIANA*
Não se perde a soberania só quando o vizinho invade.
Perde-se também quando se deixa de pensar e de decidir por conta própria.
Marte já teve campanha nacional: “A areia é nossa”. Bons tempos.
Marte sempre foi generoso. Generoso de um jeito meio abestado.
Exportava areia. Importava chip. Entregava energia. Recebia a conta. Hospedava os Markcenters de IMA. E depois alugava de volta a inteligência produzida com seus próprios dados.
Mark Smith chamou aquilo de livre mercado.
Zygmund Mars preferiu “entusiasmo do colonizado”.
Imagina. Isso é complexo de vira-lata, diria o colunista marciano Mark Rodrigues
Só havia uma novidade.
Desta vez, a caravela vinha pela nuvem.
Foi quando Marte descobriu que soberania tem camadas:
Primeiro, o território. Depois, os recursos. A infraestrutura. Os dados… até chegar à última fronteira: O pensamento.
Ela fica dentro da cabeça de um jovem. E de quem o ensina.
Por isso o silêncio das universidades pesava tanto.
Até que uma delas saiu da zona de acomodação e fez a pergunta que incomodou o planeta:
— Que pedaço do futuro de Marte é nosso?
Escreveu um Manifesto pela Soberania. Depois percebeu que manifesto se assina e se esquece. Passou a colecionar compromissos.
Depois de tanta tecnologia, Marte talvez esteja redescobrindo a invenção mais revolucionária do Marciano sapiens: pensar e agir por conta própria
***
Mas vocês, terráqueos, fiquem tranquilos.
Tudo isso acontece a uns 225 milhões de quilômetros daqui, meu Caro Amigo.
“Aqui na terra, tão jogando futebol/ Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll”
Ninguém faz guerra. Ninguém rouba ninguém. Ninguém dirige olhando o celular. (OPA, Olha aí o motoqueiro. VIXE MARIA).
Em época de eleição, vocês, terráqueos, são exemplo cívico da galáxia. Todo mundo vota pensando no interesse coletivo… né não?
E no Brasil, então…
Exportar matéria-prima para importar tecnologia? Entregar nossos dados? Terceirizar nossa inteligência?
Jamais.
Tudo nos conformes
Pelo menos, ninguém viu fumaça.
Deus é brasileiro.
Coitados dos marcianos.
*Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.