Com o título “A fé brasileira escolhe a democracia”, eis artigo de Suzete Nocrato, jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará e escritora. “
Confira:
Pego emprestada a frase do Manifesto Inter-Religioso para o título deste artigo porque, diante do que estamos vivendo, precisamos, mais do que nunca, de fé e democracia. Nos últimos dias, uma informação envolvendo Nossa Senhora Aparecida tomou conta das redes sociais. Circulou a notícia de que o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A notícia provocou uma onda de indignação nas redes sociais, não apenas por católicos, mas também entre aqueles que defendem a liberdade religiosa. A santa negra é celebrada pelo povo desde 1717.
A cada nova fala do candidato na campanha eleitoral, tenho a sensação de que ele está testando a saúde mental dos brasileiros. Em meio a denúncias de corrupção, lavagem de dinheiro e envolvimento com milicianos, o postulante da extrema direita defende a interferência dos Estados Unidos nos assuntos do Brasil e a entrega de riquezas estratégicas do país aos estadunidenses, além do fim do Pix.
Em meio à polarização e desinformação, artistas, intelectuais e lideranças religiosas se mobilizaram em defesa da nossa democracia e da nossa soberania. Na semana passada, cardeais, bispos, arcebispos, padres e freiras da Igreja Católica entraram em campo e utilizaram as redes sociais para denunciar o avanço da intolerância e defender a democracia.
Dom Jaime Splenger, cardeal arcebispo de Porto Alegre e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), conclamou as pessoas ao discernimento para não olharem só as promessas de campanha, mas principalmente para a história de vida dos candidatos e as consequências dos compromissos assumidos e alertou que a abstenção não é a melhor escolha.
Já dom Orlando Brandes, bispo de Aparecida, foi mais incisivo na defesa da nossa soberania. “Nenhum poder de fora, seja quem for, não pode mandar aqui. Aqui é nossa casa, aqui é nossa pátria”. E dom Guilherme Werlang, bispo emérito da Diocese de Lages, chamou a atenção para a manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus.
Dom Vicente Ferreira, bispo da Diocese de Nossa Senhora do Livramento, na Bahia, resumiu sua posição em uma frase: “A democracia não pode ser ameaçada por autoritarismo golpista”.
É justamente esse o sentido do Manifesto Inter-Religioso, assinado por lideranças e pessoas de diferentes tradições religiosas: “Democracia é esse chão comum onde nossas diferenças podem existir sem medo. A fé brasileira escolhe a democracia”. Sem democracia, nossos direitos de escolha e nossa liberdade ficam ameaçados. Não podemos aceitar que interesses estrangeiros interfiram nas decisões sobre o futuro do
Brasil. Muito menos permitir que grupos políticos se sintam donos da verdade e tentem impor sua vontade aos demais.
Precisamos estar alertas, pois as big techs têm procurado influenciar o ambiente político e, em especial, as eleições de 4 de outubro. Quem se opõe aos interesses da direita e extrema direita enfrenta dificuldades no ambiente virtual. E fico com apenas dois exemplos.
O perfil da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no Instagram foi derrubado após a publicação do vídeo com depoimentos dos religiosos. O mesmo aconteceu com o humorista Fábio Porchat, cuja conta do projeto “Revelando” no Instagram foi bloqueada pela Meta depois da publicação de um vídeo sobre supostas conexões entre o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e Flávio Bolsonaro. Após a repercussão, a conta foi restaurada.
Como ressaltou o presidente Lula em discurso na ONU, “o Brasil não é quintal de ninguém”. É bom que não esqueçamos disso.
*Suzete Nocrato
Jornalista, Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará e escritora.
suzete.nocrato@gmail.com