Com o título “O Copo”, eis mais um texto de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plático.
Confira:
Em um bar, perto de casa, ouvi um cliente pedir ao garçom um copo limpo. A frase despertou minha curiosidade. Tomada ao pé da letra, não acusa um copo sujo. Mesmo assim, todos entendem o pedido.
A língua tem dessas sutilezas. Nem sempre o sentido está nas palavras. Muitas vezes, no silêncio entre elas. Dizemos uma coisa e fazemos entender outra. Comunicamos muito além do significado literal das frases.
Talvez por isso conversar vá além da fala: significa ouvir o não dito, perceber as entrelinhas e alcançar o verdadeiro sentido das palavras.
Dizer exige cuidado. As palavras aproximam ou afastam, consolam ou ferem, esclarecem ou confundem. Raramente trazem apenas o significado registrado no dicionário. Andam acompanhadas pelo tom da voz, pelo olhar, pelo silêncio e pela intenção. Falar bem não depende apenas da escolha de palavras bonitas, mas do momento, da medida e da alma presente em cada uma.
Dependendo da região, uma mesma palavra muda de sentido. Em determinado lugar, vale como elogio; em outro, transforma-se em insulto.
Certa vez, na Embaixada do Brasil, na França, durante uma temporada artística em Paris, respondi “aceito” quando me ofereceram um copo d’água. Um diplomata observou haver uma forma mais afirmativa de responder: “eu quero” ou “eu não quero”. “Aceito”, disse ele, sugeriria concordância diante da vontade alheia; as outras expressões revelariam uma decisão pessoal.
As palavras, assim como os copos, nunca chegam vazias. Sempre trazem o olhar de quem as oferece e de quem as recebe.
Mas um copo preenchido até a metade está meio cheio ou meio vazio? A resposta depende menos do tanto de água do olhar de quem o vê. Alguns enxergam a falta; outros, o suficiente. No fundo, o copo permanece igual. Muda apenas o olhar.
Falar em copo também remete à amizade. Aos amigos de copo e de cruz. Alguns chegam para brindar os dias de festa. Outros ficam nas horas difíceis, dividindo silêncios, perdas e esperanças.
Talvez por isso um simples copo ensine tanto. Meio cheio ou meio vazio, revela muito mais sobre o olhar humano do próprio recipiente. Assim acontece com as amizades. Algumas evaporam ao primeiro calor da vida. Outras resistem ao tempo, às distâncias e aos desencontros. Transformam-se em abrigo para a alma.
No fim das contas, amigo de verdade não mede o tamanho do copo. Senta-se ao lado, ergue um brinde à vida e fica. Mesmo depois do último gole. Da última gota.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plático.