“Uma eleição de poucas ideias como nunca se viu”- Por Luiz Henrique Campos

Peleja promete ser polarizada. Lula (foto Ricardo Stuckert) e Flávio (Divulgaçao)

Com o título “Uma eleição de poucas ideias como nunca se viu”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada por Luiz Henrique Campos, jornalista e psicólogo. “Mas é o que a campanha conseguiu entregar. Façam bom proveito”, expõe o colunista.

Confira:

Acompanho eleições brasileiras há mais de 40 anos e não me lembro de ter chegado a reta final de primeiro turno com discussões e propostas tão rasas quanto as deste pleito. No próximo domingo, mais de 158 milhões de eleitores estarão aptos a votar, mas a sensação é de que chegamos às urnas sabendo muito pouco sobre o país que os candidatos pretendem construir. E, quando falo em superficialidade, refiro-me sobretudo ao discurso da oposição. Da situação, goste-se ou não, já se sabe razoavelmente o que pretende fazer. Há projeto de continuidade, com suas virtudes e seus problemas. Mas o que, afinal, a oposição propõe para enfrentar os grandes desafios do país?

Há, é verdade, referências a contenção de gastos, redução de ministérios, desburocratização, privatizações, reforma tributária e redução da dívida. O problema é que permanecem pouco claros o tamanho do ajuste, seus instrumentos e, principalmente, quem pagará a conta. Analistas também apontam que as promessas fiscais carecem de detalhamento. Pode-se imaginar que o modelo pretendido seja algo próximo ao receituário de Javier Milei na Argentina no que diz respeito a redução drástica do Estado, corte de despesas e aposta radical no mercado. Mas nem isso foi assumido com clareza diante do eleitor. E nesse contexto, há pergunta inevitável. Seria mesmo esse o caminho?

Jair Bolsonaro chegou ao poder cercado da promessa de transformação liberal profunda. No entanto, seu governo terminou sem entregar o desmonte do Estado que muitos imaginavam, até porque não se pode comparar o Brasil com a Argentina. Quanto ao tão alardeado déficit público, faltou dizer muito mais. Falar simplesmente em reduzir juros não resolve o problema. A taxa Selic é definida pelo Banco Central, cuja autonomia foi estabelecida em lei. Não basta, portanto, anunciar que os juros cairão. É preciso explicar como as condições econômicas permitiriam essa queda. Exemplo disso é o próprio presidente Lula que vive criticando a taxa mas não pode fazer nada. Nos EUA, é bom lembrar, Trump também bate cabeça com o BC de lá, por ter as mãos atadas.

No fim, duas bandeiras parecem ter adquirido nitidez muito maior. Uma delas é reverter a situação jurídica de Jair Bolsonaro, concedendo-lhe indulto; e enfrentar ministros do STF considerados adversários políticos. A discussão sobre os limites do Supremo é legítima. O que não parece legítimo é transformar a instituição em inimiga conforme a conveniência de quem esteja sendo julgado. Os últimos fatos revelam proximidade de ministros com Daniel Vorcaro envolvendo igreja, mulheres, filhos, e muito dinheiro, mas por serem magistrados da ala, digamos, mais à direita, não vi questionamentos relacionados a suas condutas. Outra questão posta, é saber se as discussões sobre a prisão de Bolsonaro e o STF, interessam de fato ao brasileiro comum que vive o seu dia-a-dia cercado de dificuldades.

De todo modo, até de forma involuntária, talvez a própria campanha tenha prestado serviço importante ao desmascarar a apropriação eleitoral da tríade “Deus, pátria e família” por certo grupo político. No campo religioso, a reta final foi tomada pela controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida, inclusive com acusações e disputas judiciais sobre conteúdos publicados nas redes. Na defesa da família, escândalos envolvendo o caso Master, festas e apostas por parte do candidato que usava esse discurso, acrescentaram dose considerável de contradição ao viés moralista — ainda que as responsabilidades individuais em cada episódio precisem ser apuradas e não confundidas com acusações políticas.

E, quanto à pátria, talvez nem seja necessário dizer muito. Basta observar o constrangimento de quem se apresenta como patriota enquanto, em diferentes momentos, demonstra maior identificação com símbolos e referências políticas estrangeiras do que com os próprios símbolos nacionais. Há poucos dias da eleição, portanto, restará, então, ao eleitor, escolha que pode até dizer mais sobre si mesmo, do que sobre os candidatos e seus programas. A escolha, nesse aspecto, se dará mais pelos perfis pessoais de cada um, pelos valores e pela personalidade que os aproxima daqueles que pretendem conduzir o país. É pouco para uma eleição presidencial. Mas é o que a campanha conseguiu entregar. Façam bom proveito.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e psicólogo.

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