“Antes que a Chuva Chegue” – Por Maurício Filizola

Maurício Filizola é presidente da CDL de Fortaleza. Foto: Divulgação

Com o título “Antes que a Chuva Chegue”, eis crônica de Maurício Filizola, presidente da CDL Fortaleza. “Porque escolher o futuro não é apenas esperar por tempos melhores. É também perguntar a nós mesmos que sementes estamos plantando agora”, expõe o cronista.

Confira:

Em minhas leituras encontrei a história de uma comunidade indígena que atravessava uma grande seca. Perguntaram ao líder quando fariam uma oração para pedir chuva.

Ele respondeu: — Nós não pedimos chuva.

Quando se reuniam, explicou, procuravam senti-la antes que chegasse. Imaginavam o cheiro da terra molhada, a água tocando o rosto, o barro debaixo dos pés. E agradeciam.

Nunca soube se aquela cerimônia fez chover. Talvez essa nem seja a pergunta.
O que ficou comigo foi a imagem.

Quem nasceu ou vive no Ceará sabe que chuva nunca foi apenas água. Por aqui, há gente que reconhece seu cheiro antes da primeira gota. Basta o céu mudar de cor para alguém olhar para cima e dizer: “Está querendo chover.”

É esperança aprendida com a terra.

Lembrei disso olhando o Brasil de hoje. Há algo de chão esperando inverno neste nosso momento. Todos queremos chuva, embora nem sempre concordemos de qual nuvem ela deva cair.

Queremos emprego, segurança, saúde, educação, justiça e um país mais sereno para nossos filhos. Podemos discordar profundamente dos caminhos.

E está tudo bem.

Democracia não é pensar igual. É conseguir dividir a mesma terra mesmo quando enxergamos nuvens diferentes.
Talvez nosso erro seja esperar que o futuro venha sempre de cima.

Aprendi que esperança sem responsabilidade pode virar apenas espera.
E voto é responsabilidade.

Não deveria nascer do medo, da raiva nem da paixão por alguém. Muito menos da procura por salvadores. Talvez o voto consciente comece com perguntas: quem respeita quem pensa diferente? Quem aproxima em vez de dividir? Quem apresenta caminhos sem precisar fabricar inimigos? Quem entende que poder é serviço, não propriedade?

Antes de escolher pessoas, deveríamos escolher princípios.

Porque pessoas passam. Princípios ficam.

A urna também se parece com a terra. Colocamos nela algo pequeno, quase silencioso, e depois convivemos durante anos com aquilo que ajudamos a plantar.

Mas há uma verdade ainda mais incômoda: não podemos cobrar do país aquilo que não praticamos na calçada de casa.

Queremos honestidade dos governantes? Que ela comece nas pequenas escolhas. Queremos respeito? Que apareça também diante de quem discorda de nós. Queremos responsabilidade? Então não podemos entregar a Brasília aquilo que também pertence às nossas mãos.
O sertanejo conhece essa sabedoria há muito tempo.

Mesmo quando o céu demora, ele prepara a terra.

Talvez cidadania seja isso.

Daqui a alguns dias, diante da urna, estaremos sozinhos com nossa consciência. Nenhuma torcida entrará conosco. Nenhum palanque caberá naquele silêncio.

E cada voto será uma pequena semente lançada no chão do futuro.

Quando sair dali, quero menos a sensação de ter escolhido um vencedor e mais a tranquilidade de ter ajudado a escolher o país que desejo deixar para quem vem depois.

Porque nós, cearenses, aprendemos cedo uma coisa: antes que a chuva chegue, é preciso preparar a terra.

E talvez o Brasil que tanto esperamos também comece assim.

*Mauricio Filizola

Presidente da CDL Fortaleza e empresário.

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