“O voto últil se faz necessário” – Por Pedro Albuquerque

Pedro de Albuquerque Neto é sociólogo e advogado.

“Flávio é um reacionário, sua plataforma não visa preservar, mas refundar o Brasil de forma personalista, surfando na retórica da destruição”, aponta o sociólogo e advogado Pedro Albuquerque

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Nas vésperas da eleição, uma frase dita por minha filha resume o que as pesquisas quantitativas patinam para traduzir: “Sinto que as pessoas estão com medo de mudar”. Não era o desabafo de uma militante, mas uma percepção sensível sobre o mundo real. O que ela captou não é a aversão à mudança em si, mas o medo concreto da perda. O temor de ver o pouco que se conquistou — um direito, um emprego, a estabilidade econômica — ser tragado pelo imponderável.

Essa corrente invisível de autopreservação ajuda a explicar a reviravolta dos últimos dias. O Datafolha mostra que o cenário mudou nos maiores colégios eleitorais do país. Lula avançou em Minas Gerais e encostou em São Paulo, transformando o que parecia uma vantagem consolidada de Flávio Bolsonaro em um empate técnico asfixiante. Nacionalmente, o petista lidera os votos válidos. Diante desse desenho, o voto útil deixa de ser um mero cálculo matemático e passa a ser uma decisão de legítima defesa e responsabilidade histórica.

Não estamos diante de dois candidatos equivalentes. Lula tem biografia, ações testadas, e um programa que o país já conhece na prática. Ele governa dentro da previsibilidade. Flávio, por outro lado, representa o salto no escuro. É preciso dar o nome correto às coisas: ele não é um conservador clássico, cuja doutrina preza pela prudência e pela solidez institucional. Flávio é um reacionário. Sua plataforma não visa preservar, mas refundar o Brasil de forma personalista, surfando na retórica da destruição.

Sua promessa de “despetizar o país” é um eufemismo para um cavalo de pau institucional. Sob o pretexto de combater o sistema, o que se projeta é a desestabilização jurídica e o flerte com o caos. Quando faltam propostas articuladas para a saúde, a educação e a indústria, sobram o ressentimento, a agressão e a tese da “terra arrasada”, como se o Brasil precisasse ser incendiado para recomeçar do zero. Esse ambiente de conflagração permanente assusta o mercado, afugenta investidores e apavora o trabalhador.

Para piorar, sua candidatura apequena a dimensão geopolítica do país. Flávio já esteve com Donald Trump discutindo tarifas e riquezas estratégicas brasileiras, como terras raras e minerais críticos. Paralelamente, seu irmão Eduardo Bolsonaro e aliados atuaram nos Estados Unidos para pressionar o Brasil e pedir sanções contra autoridades nacionais. É legítimo perguntar: que lugar terá o Brasil nessa relação? Quem estará decidindo os nossos interesses? O atual primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, resumiu com precisão a lógica implacável do poder global na era Trump: “Se não estamos sentados à mesa, nós estamos no cardápio.”

Leonel Brizola tinha uma imagem cirúrgica para rebater essa submissão: o alambrado é nosso. Podemos conversar, negociar e fazer negócios com todo mundo, mas o alambrado é nosso. O Brasil não é e não pode ser o quintal de Washington, nem de Pequim, nem de ninguém. Quando um candidato constrói uma subordinação política tão estreita com uma potência estrangeira — cujo líder já provou que só defende os interesses do próprio país —, ele abre mão da nossa soberania. Flávio se comporta como o porteiro desse quintal, e não como presidente de uma nação soberana.

Cientistas políticos como Marcos Coimbra apontam que o eleitor de reta final costuma ser o menos ideológico e o mais pragmático. Sem uma crise catastrófica que justifique a ruptura, esse cidadão recusa o cheque em branco da aventura. Liquidar a fatura no primeiro turno não significa que Lula seja perfeito ou imune a críticas. Significa reconhecer que eleições são escolhas sobre riscos. O Brasil não é uma mesa de apostas nem um laboratório para reacionários. Diante da urna, o voto útil de responsabilidade para não jogar o país na aventura, reclama o voto em Lula.

Pedro de Albuquerque Neto
Sociólogo e Advogado (OAB/CE 16224)
dealbuquerqueneto.pedro@gmal.com

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