“Não idolatre nenhum político, aliás, nenhum político deveria ocupar o lugar que pertence à família, aos amigos, aos valores e às convicções pessoais”, aponta o advogado Leandro Vasques
Confira:
O Brasil real não está nos palanques, nos jingles ou nas fotografias cuidadosamente produzidas durante as campanhas. Está na mulher que sai cedo para trabalhar, no trabalhador que enfrenta diariamente o transporte público, na família que precisa conciliar dois empregos para pagar as contas e naquele que, além das próprias responsabilidades, ainda precisa cuidar de um filho doente ou suprir a ausência de quem deveria estar ao seu lado.
Esse Brasil é muito maior do que a disputa eleitoral.
A cada quatro anos, entretanto, a mesma liturgia se repete: abraços ensaiados, gestos de vitória, promessas elaboradas e uma onerosa estrutura destinada a conquistar o voto.
Muitas vezes, o cidadão é lembrado durante a campanha e esquecido tão logo termina a eleição.E talvez seja necessário compreender que a política não se resume à velha divisão entre direita e esquerda, originária na Revolução Francesa com os girondinos e jacobinos.
Por trás dos discursos ideológicos, existe também uma disputa permanente por dinheiro, influência e poder.
As bandeiras mudam, os discursos se adaptam e os personagens se alternam, mas a busca pelo poder permanece como elemento central da atividade política.
Isso não significa que ideologias, projetos ou diferenças políticas não existam. Significa apenas que o eleitor não deveria permitir que essas diferenças fossem utilizadas para transformá-lo em soldado de uma guerra que não é sua.
Direita e esquerda frequentemente recorrem ao medo como instrumento de convencimento: um lado alerta para o perigo representado pelo outro, enquanto o outro faz exatamente o mesmo. O medo é uma das ferramentas mais primitivas e eficientes para conduzir escolhas.
A democracia, porém, pressupõe justamente o contrário: liberdade de consciência, capacidade de reflexão e responsabilidade individual.
Não idolatre nenhum político, aliás, nenhum político deveria ocupar o lugar que pertence à família, aos amigos, aos valores e às convicções pessoais. Políticos passam.
O cidadão permanece, inclusive para conviver com as consequências das escolhas que fez.
A eleição termina na segunda-feira. A vida, não. O trabalhador continuará labutando. O ônibus continuará passando. Os boletos continuarão chegando. Os problemas cotidianos continuarão existindo.
Por isso, talvez seja prudente olhar a política com menos paixão e mais espírito crítico.
Menos idolatria, menos ódio e mais consciência.
Não é necessário transformar adversários em inimigos, nem candidatos em heróis.
É possível votar de acordo com a própria consciência sem transformar uma escolha eleitoral em uma guerra pessoal.
Não entregue à política aquilo que ela jamais poderá lhe devolver: sua paz, suas amizades e o tempo da sua vida.
Leandro Vasques
Advogado, Mestre em Direito pela UFPE e Doutorando em Criminologia pela Universidade do Porto