“Se custos sobem e o cliente encontra dificuldade para absorver reajustes, crescer em faturamento pode representar pouco avanço na rentabilidade”, aponta o administrador de empresas Fabiano Mapurunga
Confira:
É extrema a necessidade de capital que o Brasil apresenta, para conseguir modernizar empresas, expandir a produtividade e amparar o financiamento da sua expansão. Porém, o atual ambiente econômico, vem tornando cada vez mais difícil a tomada de decisão em expandir no longo prazo.
Considerando o private equity, que opera com a compra de participações empresariais, focando em valorizá-las até vendê-las, tal conjunto de fatores passa a exigir um nível de cobrança crescente por resultados.
O ponto de partida dos desafios começa pelo custo do dinheiro. No mês de setembro, o Copom fez um movimento de redução da Selic para 13,75% a.a. Apesar de simbolizar um prenúncio do ciclo de redução, esse nível de taxa ainda inspira cuidados dobrados nas iniciativas de captações de investimentos e nos investimentos. Verificamos que, o próprio Banco Central indicou uma certa moderação gradual da atividade, sobretudo nos setores mais cíclicos, ao lado de um mercado de trabalho aquecido.
Para uma empresa, juros elevados atingem o capital de giro, o financiamento de equipamentos e a capacidade de realizar aquisições. Para o fundo, tornam mais difícil utilizar dívida para ampliar o retorno da operação. Parte do resultado que poderia sustentar a expansão acaba comprometida com despesas financeiras.
Há ainda a concorrência da renda fixa. Quando investimentos mais líquidos oferecem remuneração elevada, a participação em uma empresa precisa justificar seu risco e o tempo de espera. Isso aumenta a exigência sobre o preço de entrada, a qualidade da gestão e a perspectiva de retorno.
O segundo problema é a combinação de crescimento limitado e inflação persistente. No Focus divulgado em 28 de setembro, as medianas das projeções de mercado apontavam crescimento de 1,86% para o PIB e inflação de 4,99% em 2026. São expectativas dos participantes da pesquisa, não resultados já realizados nem previsões próprias do Banco Central.
Na minha avaliação, esse quadro dificulta duas tarefas essenciais para as empresas: aumentar vendas e preservar margens. Se custos sobem e o cliente encontra dificuldade para absorver reajustes, crescer em faturamento pode representar pouco avanço na rentabilidade. Um fundo precisa avaliar quanto dessa receita se transforma em caixa depois dos investimentos, dos tributos e do serviço da dívida.
A questão fiscal adiciona outra camada de incerteza. O mesmo Focus registrava projeção de déficit nominal de 8,90% do PIB para 2026, medida que inclui os juros da dívida pública. A preocupação com a trajetória das contas públicas pode influenciar os juros de longo prazo, o câmbio e o retorno exigido para investir.
É nesse ponto que a economia chega à mesa de negociação. Quando aumenta a taxa usada para descontar os fluxos de caixa futuros, o valor presente de uma empresa tende a cair, mantidas as demais condições. Surge uma dificuldade conhecida: o empresário preserva sua expectativa de preço, enquanto o investidor refaz a conta diante do risco.
O câmbio também merece atenção. Para quem aporta em dólares, a valorização do negócio em reais pode ser parcialmente consumida por uma eventual depreciação da moeda brasileira. Isso exige avaliar a exposição cambial da empresa e o custo de proteção ao longo do investimento.
A transição tributária amplia o trabalho de planejamento. 2026 é o ano de testes da CBS e do IBS, conforme a Receita Federal. Vejo potencial de ganhos futuros com a simplificação, mas a adaptação exige revisar sistemas, contratos e projeções. Os efeitos sobre margens e caixa precisam ser examinados em cada negócio.
Essas dificuldades encontram um setor que já enfrenta demora para realizar suas saídas. O Brazil Private Equity Report 2026, da Bain e da ABVCAP, mostra que, na amostra analisada, o prazo médio até o desinvestimento passou de cinco anos e três meses, entre 2018 e 2022, para seis anos e três meses, entre 2023 e 2025. O relatório também aponta a utilização de vendas a compradores estratégicos e a outros fundos como alternativas de liquidez.
Quanto mais demora a saída, maior a pressão para devolver recursos aos investidores e captar novos fundos. Por isso, a compra precisa ser planejada com alternativas realistas de venda, sem depender exclusivamente de uma futura abertura de capital.
Para as empresas brasileiras, inclusive as familiares cearenses, minha leitura é direta: conquistar investimento exige demonstrar capacidade de executar sob condições adversas. Governança, informação confiável, produtividade e disciplina de caixa tornam a empresa mais preparada para negociar.
O private equity pode contribuir para financiar essa transformação. Seu sucesso, porém, dependerá de reconhecer os riscos econômicos e construir resultados que resistam a eles.
O Brasil precisa tornar mais previsível a decisão de investir. E suas empresas precisam transformar capital recebido em produtividade, competitividade e caixa.