Com o título “Gaivotas em Círculo”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. Leitura é “antídoto” contra a atrofia cognitiva de uma geração que corre o risco de terceirizar o próprio pensamento às IAs.
Confira:
Há instituições que chegam a um lugar.
E há instituições que passam a pertencer a ele.
O Instituto Fernand Braudel é do segundo tipo.
Talvez porque Norman Gall e Catalina Pagés tenham compreendido, há muito tempo, uma coisa simples e poderosa: um país se transforma quando seus jovens aprendem a ler o mundo, e não apenas as palavras.
Fernand Braudel dizia que foi no Brasil que aprendeu a pensar.
É isso que acontece quando estudantes de nossas escolas públicas se sentam em roda diante de um livro aberto.
Um gesto antigo que nenhuma tecnologia aposentou.
Ali não há centro nem periferia. Há vozes.
Um jovem lê.
Outro escuta.
Um terceiro discorda.
Alguém pergunta.
E, quase sem perceber, todos começam a pensar.
O resultado aparece nos números: mais de 300 escolas, mais de 70 mil estudantes. Mas aparece, sobretudo, naquilo que número nenhum consegue medir.
No menino do Sertão Central que lê Torto Arado e reconhece a terra do avô. Na menina de Fortaleza que atravessa Um Conto de Duas Cidades e descobre que também vive entre duas. No jovem de qualquer canto do Ceará que percebe, surpreso, que Machado, Cervantes e Dostoiévski também falam dele.
E alguns desses jovens levam a roda adiante.
Têm nome de pássaro: são as gaivotas.
Como Fernão Capelo, aprenderam que voar mais alto não é fugir do bando.
É voltar para ensinar o caminho.
Num tempo em que tantas respostas chegam prontas, e cada vez mais depressa, parar, ler, escutar o outro, discordar e construir o próprio pensamento talvez seja uma das formas mais bonitas de educação.
E um dos exercícios mais soberanos que uma juventude pode fazer.
Por isso, a filial do Instituto Fernand Braudel que hoje se inaugura no Ceará não abre apenas uma sede.
Amplia um círculo.
Aos professores que conduzem essas rodas, nosso reconhecimento.
A Patrícia e Amarílio Macêdo, e a tantos que acreditam nessa causa, a gratidão por ajudarem esse círculo a se ampliar e tantas gaivotas a descobrirem suas asas.
Que venham mais livros.
Mais círculos.
Mais perguntas.
Mais jovens descobrindo que sua voz importa.
Porque toda vez que um jovem aprende a pensar por si mesmo,
um pedaço do futuro deixa de ser destino e passa a ser escolha.
*Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.