Com o título “Elmano, um Davi que derrotou um adversário que se achava um Golias invencível”, eis artigo de Francisco Bezerra, jornalista, radialista e escritor. “Apesar da fadiga de material do petismo no Ceará, Elmano ganhou a eleição com muita propriedade. Ele sai desta campanha muito maior do que entrou. Um candidato a reeleição que não precisou das muletas de Camilo. Um candidato que conduziu a campanha com a autoridade de um veterano”,expõe o articulista.
“A humildade é a base e o fundamento de todas as virtudes e sem ela não há nenhuma que o seja.” — Miguel de Cervantes.
Confira:
Caro leitor do Blogdoeliomar, começarei este artigo hebdomadário contando uma historieta bíblica das mais conhecidas entre cristãos e judeus. Vamos a ela. O povo de Israel, liderado pelo rei Saul, e os filisteus acamparam em colinas opostas no vale de Elá, separados por um entremontes. Por 40 dias, o gigante Golias — que media quase 3 metros de altura e usava uma armadura pesada — desafiou os israelitas a enviarem um homem para lutar contra ele em um duelo único. Todo o exército de Israel, incluindo o rei Saul, estava aterrorizado e sem coragem para enfrentar o guerreiro filisteu.
Davi, o filho mais novo de Jessé da cidade de Belém, foi enviado por seu pai ao acampamento militar para levar comida aos seus irmãos mais velhos. Ao chegar ao local, ouviu as afrontas de Golias contra o Deus vivo de Israel e se indignou, perguntando por que ninguém o enfrentava. Sem demonstrar nenhum temor diante do gigante, Davi resolveu enfrentá-lo não com espada ou lança, mas em nome do Senhor dos Exércitos, a quem Golias havia desafiado. No combate em que o contendor o havia subestimado por sua juventude e tamanho, Davi arremessou uma pedra com sua funda atingindo certeiramente a testa de
Golias, fazendo o gigante cair morto no chão.
Esta história bíblica que mais parece um filme de heróis de capa e espada me dá o gancho para uma análise política da vida real, ocorrida na eleição para governador aqui no Ceará neste 2026. De um lado o candidato do continuísmo, Elmano de Freitas em busca da reeleição. Do outro, Ciro Gomes desafiando o status quo local. Elmano costurou uma aliança que trafegava da esquerda ao centro. Ciro resolveu se aliar ao bolsonarismo tupiniquim, cosendo uma aliança que saia da direita indo ao encontro da extrema direita. Um movido pelo desejo de dar continuidade a um projeto consistente nas áreas de educação, saúde e inclusão social. O outro, movido por ressentimento, mágoa e inveja. Um apegado ao gancho do governo nacional comandado por Lula. O outro ancorado na velhacaria da política nacional e regional.
Neste cenário desenhado, me vi obrigado, por dever de ofício, a assistir aos chatos e confusos debates televisivos e digitais. Os confrontos mais confundem a mente do eleitor do que o esclarece sobre o que está em jogo e que diferenças existem entre projetos opostos. Temas são demasiadamente complexos para que, em espaços muito curtos de tempo, proporcionem aos candidatos possibilidades de exposições mais claras sobre soluções novas para velhos problemas da população. A imprensa adora este tipo de debate em que ela ganha em audiência e o eleitor perde em oportunidade para avaliar melhor as propostas das candidaturas majoritárias. A TV aberta, então, que adora o mundo cão que são os programas policiais que invadem os nossos lares quotidianamente chega ao êxtase quando os adversários se agridem em um festival dantesco de baixarias.
Dos quatro debates que assisti, percebi nitidamente a superioridade no desempenho do Elmano em relação a Ciro Gomes. O candidato tucano se comportou, nos quatro confrontos de ideias que vi, como uma biruta de Aeroporto. No primeiro embate, o Gomes adotou a tática do Cirinho Paz e amor. Não colou. Não colou porque ele se defrontou com um candidato que se preparou muito bem para os eventos desta natureza. Ciro foi pego de caças curtas. Para azar ele, o Elmano fez bem o dever de casa. O petista estava com todos os números na ponta da língua. O presunçoso oponente achava que a sua presença física por si só e a fama de bom orador iria fazer tremer nas calças o governador de plantão.
Eu já relatei aqui, neste espaço generoso de debate de ideias, que eu acompanho há muito tempo a carreira do ex-governador. Lá em meados dos anos 80 eu era um noviço repórter político e ele o líder do goverrno Tasso I na Assembleia. Eu e meus colegas de batente nos deliciávamos com a oratória enérgica, elegante e convincente do jovem parlamentar. Em 1988, Ciro Gomes se elege prefeito de Fortaleza e é catapultado para o cenário nacional. Ainda me lembro quando o prefeito eleito de nossa capital debutou em programa de rede nacional. Ciro concedeu uma brilhante entrevista a já calejada jornalista Marília Gabriela em seu prestigiado talkshow denominado de Cara a Cara. A partir daí Ciro Gomes virou figurinha carimbada em todas as rodas de debates e em entrevistas na mídia nacional. E em todos estes eventos jornalísticos nacionais ele dominou e chegava até a enfeitiçar os seus entrevistadores.
Pois bem, para espanto meu o prestidigitador das palavras me aparece nos debates aqui na terrinha gaguejando diante de um oponente bem menos experiente que ele na arte da oratória e com menos rodagem na vida pública. Como teve consciência que não se saíra bem no primeiro confronto com Elmano, no segundo encontro entre os candidatos, Ciro Gomes voltou a ser Ciro Gomes. Ele deixou para trás o Ciro melífluo e partiu para cima do petista com a habitual arrogância e prepotência que sempre o caracterizaram. A emenda saiu pior que o soneto. Mais uma vez o Elmano dominou o debate, onde foi firme e seguro em suas respostas às provocações que lhe atravessavam o caminho. Rigoroso, mas sem perder a ternura. Os dois outros debates não foram diferentes. Um Ciro inseguro e tatibitate, ante um Elmano frio e preciso em suas colocações.
Quanto aos programas eleitorais do tucano no rádio, na televisão e nas redes sociais pareciam reprises dos programas eleitorais do Capitão Wagner nas campanhas de 2016, 2020 e 2022. Programas monotemáticos onde o sangue jorrava nas casas dos cidadãos-eleitores. Para reforçar os argumentos sobre o “drama” da segurança no Ceará, a campanha do PSDB chegou a ressuscitar Moroni Torgan como um xerifão a serviço do Cirismo esgotado e esbaforido em seus argumentos. O Moroni estava tão fora de moda que, candidato a deputado federal, obteve pouco mais de 3 mil votos. Que horror!!! Além disso, os coordenadores da campanha do Ciro não conseguiram colocar na boca do candidato nenhuma proposta realmente nova e diferente. O falante Ciro, acredito, estava envergonhado com as companhias que escolheu para dividir o mesmo palanque. O tucano chegou até a blasfemar ao dizer que os seus bolsonaristas eram todos homens honrados. O discurso fez atolar mais ainda a campanha Cirista que nunca tele lá muito ibope com o eleitorado feminino. Bolsonarismo que é sinônimo de misoginia. Que o diga a prefeita de Crateús, Janaína Farias, a quem Ciro chamou de cortesã. Uma cortesã que, segundo ele, selecionava ninfetas para o deleite do Camilo Santana.
Apesar da fadiga de material do petismo no Ceará, Elmano ganhou a eleição com muita propriedade. Ele sai desta campanha muito maior do que entrou. Um candidato a reeleição que não precisou das muletas de Camilo. Um candidato que conduziu a campanha com a autoridade de um veterano. Granjeou apoios, sobretudos da larga maioria dos prefeitos do nosso estado. Elmano foi tão soberano que conseguiu colocar no mesmo palanque o MST e o agronegócio cearense. Hoje, posso afirmar com toda a convicção: o militante do movimento estudantil e o advogado dos Sem Terra que conheci no passado é o maior líder político do Ceará. Só tomara que ele não caia na besteira de, no segundo mandato, caso apareça a vaga, de indicar a mulher para ocupar cadeira no Tribunal de Contas do Estado. O gesto de um senador e ex-ministro ao colocar a cônjuge num “empregão” vitalício ainda rende desgaste para ele. Coisa mais deprimente, meu Deus!
Por fim, o jovem governante poderá, agora sim, no ápice de sua carreira política, governar o Estado sem os fantasmas do camilismo que povoaram o palácio Abolição nos últimos 4 anos. Um Davi que foi firme sem arrogância. Seguro sem parecer o dono da verdade. Preciso como os golpes do Mike Tyson. Já o Golias arrogante e prepotente está em casa lambendo as feridas e curtindo uma tremenda ressaca eleitoral. E vamos em frente que atrás vem gente.
*Francisco Bezerra
Jornalista, radialista e escritor.
Uma resposta
Ciro Gomes era considerado um forte adversário mais pelos apoiadores de Elmano do que os próprios apoiadores de Ciro.
Os diversos posts aqui neste blog demonstravam temor de uma eventual derrota do Elmano e jogavam ódio contra CIRO.
Realmente Elmano saiu mais forte, mas é preciso considerar que a eleição tinha apenas 2 candidatos.