“Henriqueta” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovítera, escritor, arquiteto e artista plástico. Foto: JN

Com o título “Henriqueta”, eis mais um texto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

“Assim me contaram, assim vos contei.” (Natércia Campos)

Confira:

Volta e meia dessas da vida, imagino Fortaleza no início do século passado. Ruas tranquilas, bondes cortando a cidade, senhores de paletó e chapéu, moças educadas para o piano, o bordado e os bailes elegantes. Entre tantas convenções, uma parecia inabalável: determinados cargos pertenciam aos homens. Às mulheres, restavam outros destinos.

Nesse ambiente surgiu Henriqueta Galeno.

Filha do poeta Juvenal Galeno, cresceu entre livros, poesia e boa conversa. Destacava-se em português, francês e literatura no Liceu do Ceará; a matemática era sua única dificuldade, motivo de brincadeiras da própria Henriqueta. Bacharel em Ciências e Letras, concluiu o curso de Direito, feito raro para uma jovem cearense daquele tempo.

Então chegou a notícia: o presidente do Estado, doutor João Thomé, nomeou-a Promotora da Capital. O gesto tinha algo de ousadia e muito de confiança. Pela primeira vez, o futuro parecia vencer os velhos costumes.

A alegria, porém, durou apenas uma noite.

Na manhã seguinte, Juvenal Galeno chamou a filha e encerrou o assunto. Aquele cargo não era para uma moça. Henriqueta obedeceu. Anos mais tarde, resumiria aquele instante numa frase memorável: “Desisti do meu belo sonho e chorei em silêncio.”

Poucas palavras retratam tão bem uma época. O amor paterno andava de mãos dadas com a autoridade. Obedecer era virtude; contrariar o pai, uma afronta.

João Tomé não ficou indiferente. Nomeou Henriqueta Inspetora do Ensino Estadual, contrariando políticos convictos de existirem cargos reservados aos homens.

Sem imaginar, ela mudava de caminho.

Vieram as aulas de Literatura na Escola Normal. A promotora nunca tomou posse. Em seu lugar, surgiu a educadora, dedicada por toda a vida ao ensino e à formação de gerações.

Gosto dessas ironias discretas da vida. Fecha-se uma porta por força do preconceito; outra se abre naturalmente. Nem sempre no lugar desejado, mas, muitas vezes, exatamente onde o destino reserva nossa melhor contribuição.

Henriqueta jamais esqueceu o sonho interrompido. Também nunca fez dele um motivo de amargura. Preferiu seguir em frente.

Quem sabe esteja aí sua maior vitória. Não combateu preconceitos com discursos, mas pelo exemplo. O tempo fez o restante. Hoje, Henriqueta é lembrada menos pela promotoria impedida, mais pelo legado deixado à educação cearense.

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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