“O Preço do que Não se Vê” – Por Maurício Filizola

Maurício Filizola é presidente da CDL de Fortaleza. Foto: Divulgação

Com o título “O Preço do que Não se Vê”, eisuma crõnica deMauricio Filizola, presidente da Câmara de Dirigentes de Lojistas de Fortaleza. 

Confira:

Outro dia me peguei olhando uma vitrine de loja onde estava exposto um relógio de luxo e e me fiz uma pergunta aparentemente simples: por que alguém paga uma fortuna por algo que marca as mesmas horas de um relógio comum?

Talvez porque quase nunca compramos apenas coisas. Compramos também significados.

No início do século XIX, durante as guerras contra Napoleão, mulheres da Prússia foram incentivadas a entregar suas joias de ouro para ajudar no esforço de guerra. Em troca, recebiam peças feitas de ferro, algumas carregando a ideia de “ouro por ferro”.

A matemática parecia absurda: entregar o precioso e receber o barato.

Mas aconteceu algo extraordinário. Aquelas joias escuras começaram a ocupar os salões da aristocracia com um valor que nenhuma balança conseguiria pesar. O ouro dizia: “eu tenho”. O ferro passou a dizer: “eu abri mão”.

E, naquele instante, o metal mais pobre ficou simbolicamente mais rico.

Essa história me fez pensar no quanto fazemos isso ainda hoje.

Há mais de um século, o economista Thorstein Veblen observou que parte do consumo não nasce apenas da utilidade, mas da necessidade humana de comunicar posição, pertencimento e prestígio. É o que ficou conhecido como consumo conspícuo.

Talvez por isso alguns objetos tenham duas etiquetas. Uma informa o preço. A outra, invisível, informa o que desejamos que pensem de nós.

Um automóvel pode transportar uma pessoa. Mas determinada marca transporta também uma mensagem. Um relógio mede o tempo, mas alguns parecem medir sucesso. Uma bolsa carrega objetos; outra pode carregar pertencimento.

Quem vive no comércio aprende cedo uma coisa: valor não mora necessariamente dentro do produto. Muitas vezes, mora na história que o acompanha.

E aqui está a parte que mais me interessa.

Se somos capazes de transformar ferro em joia quando colocamos significado sobre ele, quantas vezes fazemos o contrário com pessoas?
Há gente valiosa convivendo conosco que não possui embalagem sofisticada, cargo importante ou sobrenome conhecido. Pessoas cujo patrimônio está na palavra cumprida, na lealdade silenciosa, na competência sem plateia, na mão estendida quando ninguém estava olhando.

Talvez estejamos sofisticando demais nosso olhar para reconhecer marcas e simplificando demais nosso olhar para reconhecer gente.
Com o tempo, percebi que a vida também possui sua própria vitrine. Nela, algumas coisas brilham muito e valem pouco. Outras quase não chamam atenção, mas não têm preço.

Por isso, hoje, quando encontro algo muito caro, procuro perguntar menos quanto custa e mais o que representa.

E quando encontro alguém aparentemente simples, faço justamente o contrário: tento não confundir ausência de brilho com ausência de valor.

Porque o ouro pode revelar quanto alguém possui.

Mas, algumas vezes, é o ferro que revela quem alguém é.

*Mauricio Filizola

Presidente CDL Fortaleza.

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