Com o título “Casas, Comércio e Elegância”, eis mais um texto de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
“Ele está de olho é na butique dela…” (Genival Lacerda e João Gonçalves)
Confira:
Fortaleza não costumava anunciar suas mudanças em voz alta. Elas chegavam discretas, quase sempre empurradas pela conversa miúda, pelo exemplo do vizinho, pelo faro de quem sabia ler a cidade antes dos números. Assim, entre ruas calçadas, casas abertas e negócios inventados, o urbano se reinventava com naturalidade, fazendo da intuição uma forma de economia e da casa um espaço legítimo de comércio.
Nos anos 1960 e 1970, a cidade vivia dessas modas que corriam de boca em boca. Primeiro vieram os postos de gasolina; depois, as farmácias, as granjas de galinha… De repente, todo mundo parecia conhecer alguém que tinha apostado num desses ramos. Não era novidade: Fortaleza sempre soube negociar. Desde cedo aprendeu a se mover como entreposto – lugar de passagem, troca e oportunidade.
Por isso mesmo, o fortalezense tem esse faro apurado para o comércio. Quando uma atividade dava sinal de futuro, logo virava assunto, tentativa, aposta. Naquele tempo, coube às casas de família abrirem espaço para um outro tipo de negócio: as butiques domiciliares. Nada de vitrines de rua ou fachadas chamativas. A elegância morava dentro.
Frequentadas por gente de médio a alto poder aquisitivo, essas butiques funcionavam nas salas, nos quartos adaptados, em garagens desocupadas, às vezes num corredor mais largo. Havia a de dona Altair Oliveira, chamada Casulo; a Modinha, de Áurea Frota; a de Lígia Aguiar; a de Miloca Aguiar; a de Zely Borges; a das irmãs Costa e Souza, conhecida como Souza’s Boutique; a Jô Boutique, de Josilda Belchior; e a da minha tia, Nancy Laprovitera, a Nancy Modas. Lembro da casa dela com outra atenção: o cuidado no arranjo das peças, a conversa baixa, o tempo respeitado de quem escolhia. Ali, mais do que vender, minha tia acolhia.
Vendiam roupas, claro, mas não só. Também havia perfumes, canetas, adereços e outras pequenas vontades. Coisas que talvez não fossem exatamente necessárias, mas faziam falta. Comprar nessas casas era mais do que se vestir: era participar de um ritual doméstico de elegância, onde o comércio acontecia sem pressa.
Hoje, quando a cidade se espalha em vitrines apressadas, luzes demais e compras sem rosto, fica claro que Fortaleza já foi moderna de outro jeito. Uma modernidade doméstica, feita de portas abertas, confiança mútua e conversa sem relógio. Talvez por isso aquelas butiques tenham deixado mais do que lembrança: deixaram um modo de negociar em que a pressa ainda não mandava e o comércio não precisava fingir intimidade.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.