“Enquanto o primeiro turno privilegiou a comparação com experiências anteriores, o segundo procura apresentar dois projetos distintos para o Brasil, relacionando suas diferenças aos desafios dos próximos anos”, aponta o cientista político Cleyton Monte
Confira:
O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 revela uma mudança importante na comunicação política de Lula. Depois de uma campanha marcada pela valorização do passado e pela memória dos governos anteriores, o presidente busca construir uma narrativa voltada para as conquistas do presente e, principalmente, os caminhos do futuro, utilizando as redes sociais como espaço de mobilização e disputa política.
Os primeiros resultados chamam a atenção. Segundo levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo, Lula alcançou 9,9 milhões de interações nas redes sociais em um único dia, superando o desempenho diário de Flávio Bolsonaro no período analisado. O crescimento sinaliza uma nova dinâmica de comunicação, mais direta, espontânea e conectada ao cotidiano das pessoas.
Um elemento importante desse movimento é a aproximação de influenciadores digitais, youtubers, produtores de conteúdo e parlamentares de esquerda que construíram suas trajetórias políticas nas redes. Destaca-se o deputado André Janones, responsável pelo canal Exército do Lula, no WhatsApp, que ultrapassou 3,3 milhões de seguidores em poucos dias. Nomes como Ana Elisa, Pedro Rousseff e Jones Manoel também aparecem nesse processo de mobilização, ampliando a circulação das mensagens para além das estruturas partidárias tradicionais.
A mudança não está apenas nos personagens, mas também na linguagem. A comunicação institucional cede espaço a vídeos espontâneos, mensagens simples e temas próximos da realidade cotidiana, especialmente da juventude. Trabalho, educação, oportunidades e perspectivas de futuro passam a dialogar com uma geração que participa da política de maneira diferente, utilizando as plataformas digitais como espaços de expressão e organização.
Nesse contexto, o protagonismo juvenil ganha relevância. Jovens que se mobilizam nas redes também participam de manifestações e atividades nas ruas, aproximando o ativismo digital da participação presencial. A campanha passa a incorporar novas formas de engajamento, nas quais a comunicação não depende exclusivamente dos partidos ou das lideranças tradicionais.
Outra mudança significativa está no conteúdo político. Enquanto o primeiro turno privilegiou a comparação com experiências anteriores, o segundo procura apresentar dois projetos distintos para o Brasil, relacionando suas diferenças aos desafios dos próximos anos. A disputa deixa de olhar predominantemente para o retrovisor e passa a colocar o futuro no centro do debate.
Entretanto, engajamento não significa necessariamente convencimento eleitoral. O desafio continua sendo alcançar os indecisos, os desiludidos com a política e aqueles que se afastaram das urnas. A força das redes precisa ser compreendida para além dos números, considerando sua capacidade de produzir diálogo e participação.
A nova estratégia de Lula revela uma transformação mais profunda das campanhas eleitorais. A política continua nas ruas, mas agora também se organiza, se comunica e se confronta nas telas dos celulares. O segundo turno coloca à prova não apenas a capacidade de mobilização das candidaturas, mas sua disposição de apresentar respostas aos problemas do presente e perspectivas para as próximas gerações. Afinal, eleições não são decididas apenas pela memória do que passou, mas também pela confiança no futuro que cada projeto é capaz de representar.
Cleyton Monte
Cientista político