“A Liçao de Saboeiro” – Por Suzete Nocrato

Suzete Nocrato é jornalista, escritora e mestre em Comunicação Social pela UFC.

Com o título “A Lição de Saboeiro”, eis texto de Suzete Nocrato, jornalista, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará e escritora. 

Confira:

Os 39,4 milhões de abstenções e votos em branco no primeiro turno representam um contingente expressivo, comparável ao eleitorado de países como Chile, Peru, Portugal, Equador e Argélia, entre outros. Esses números merecem a atenção dos pesquisadores, que terão de investigar por que tantos brasileiros deixaram de votar e o que leva parcelas da população mais pobre a apoiar a extrema direita.

No livro Pobre de direita: a vingança dos bastardos, o sociólogo e escritor Jessé Souza, aponta o ressentimento, a sensação de abandono, a rejeição às elites tradicionais e os discursos que apontam culpados para as dificuldades da população, além da influência da elite econômica e da mídia na formação da opinião pública e na manutenção das desigualdades.

Nesses dias, tenho pensado em Saboeiro da minha infância e me transportada às eleições de 1976, quando o município tinha apenas 3.800 eleitores. Naquele ano, a oposição, derrotada nos pleitos anteriores, em 1970 e 1972, não conseguiu lançar um nome para disputar a Prefeitura. Os possíveis candidatos com maior potencial estavam desmotivados, sobretudo pela falta de dinheiro para enfrentar a máquina administrativa.

Embora a legislação proibisse a compra de votos, a prática corria solta, sem constrangimento. Em plena ditadura militar, a troca de favores acontecia à luz do dia. Uma dentadura, um milheiro de tijolos ou uma cacimba podiam garantir os votos de toda uma família.

Sem postulante, as lideranças oposicionistas, entre elas meu pai, decidiram fazer do voto em branco um protesto contra o governo municipal. Numa iniciativa quase quixotesca, percorreram a zona rural, conversando com os moradores e tentando romper o voto de cabresto. Aos insatisfeitos, recomendavam comparecer às urnas e deixar a cédula em branco.

Poucos acreditavam no resultado. Mas as urnas surpreenderam: cerca de 45% dos eleitores votaram em branco, impondo um dos maiores sustos políticos ao prefeito. A oposição conseguiu transformar o descontentamento em um recado contundente ao grupo no poder.

Quando menciono esse episódio, não estou fazendo apologia ao voto em branco. Muito pelo contrário. Quero mostrar que até o que parece improvável pode se concretizar. Naquele momento, em Saboeiro, talvez o voto em branco fosse a melhor opção. Hoje é Lula, o mais preparado para presidir o Brasil, e ele já deu provas disso ao longo de sua trajetória.

Não podemos nos omitir. É hora de nos posicionarmos e buscarmos cada voto.

Aquela experiência de 1976 me ensinou que o resultado de uma eleição depende da disposição de conversar, ouvir e convencer. É preciso mostrar o que está em jogo para o futuro do País. Meu pai e seus companheiros nos deram o exemplo: foram de casa em casa defender uma ideia em que poucos acreditavam.

Em Saboeiro, Lula recebeu 77,51% dos votos válidos no primeiro turno. É um resultado expressivo, mas a disputa nacional exige que a mobilização continue em cada cidade, em cada bairro e em cada conversa.

Até o último voto, a luta continua. Bora, Lula!

*Suzete Nocrato

Jornalista, mestre em Comunicação e escritora.

suzete.nocrato@gmail.com

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