Com o título “O Triste e Melancólico Fim do Lulopetismo”, eis artigo de João Arruda, sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará. “O que parecia uma caminhada tranquila rumo à reeleição converteu-se em uma disputa cada vez mais difícil para o descondenado, marcada por reveses sucessivos e pela possibilidade de uma derrota histórica do lulopetismo”, expõe o articulista.
Confira:
O encerramento da segunda semana após o primeiro turno está se transformando em um pesadelo político para Lula e sua anacrônica militância. A arrogância de quem se julgava favorito absoluto, amparado por pesquisas que alimentavam essa expectativa, deu lugar à apreensão, ao nervosismo e à corrida desesperada para conter o avanço de Flávio Bolsonaro. O que parecia uma caminhada tranquila rumo à reeleição converteu-se em uma disputa cada vez mais difícil para o descondenado, marcada por reveses sucessivos e pela possibilidade de uma derrota histórica do lulopetismo.
A semana posterior ao dia 4 foi especialmente desastrosa para a campanha petista. Três dos quatro candidatos presidenciais identificados com o campo conservador declararam apoio a Flávio, enquanto pesquisas indicam que quase dois terços dos eleitores desses candidatos estavam migrando para sua candidatura. O Partido Novo e importantes forças do Centrão, como PP, União Brasil, Republicanos e Podemos, além de setores expressivos do MDB, também aderiram ao candidato do PL.
O movimento alcançou os governos estaduais: os governadores eleitos do Pará, de Alagoas, do Maranhão e de Minas Gerais, além de Ratinho Júnior, governador do Paraná, manifestaram apoio a Flávio. Ciro Gomes também passou a discutir uma possível adesão com lideranças políticas, entre elas o governador de São Paulo e o presidente do PL. Enquanto Flávio amplia alianças e fortalece sua base eleitoral, Lula enfrenta o progressivo desgaste de sua sustentação política e a formação de uma frente cada vez mais ampla em torno de seu adversário.
As pesquisas acrescentaram mais combustível à inquietação petista. Na primeira semana após 4 de outubro, institutos registraram crescimento de quatro a seis pontos percentuais nas intenções de voto de Flávio. Na segunda-feira, dia 12, a Jovem Pan noticiou que pesquisas internas, conhecidas como trackings, apontavam uma vantagem de dez pontos para o candidato do PL. Na terça-feira, o instituto Gerp, o único que acertou os resultados do primeiro turno, divulgou levantamento que também indicava dez pontos de diferença: 55% para Flávio contra 45% para Lula. Uma vantagem dessa dimensão representa um duro golpe nas pretensões de reeleição do ex-presidiário e evidenciaria a crescente dificuldade do lulopetismo para reverter o cenário eleitoral.
Mas os golpes mais contundentes contra a campanha lulista, entretanto, vieram nos últimos dias da semana passada, por duas frentes distintas e potencialmente devastadoras. A primeira foi a repercussão das antigas publicações de Ana Elisa, apresentada com entusiasmo como a nova coordenadora da campanha lulopetista nas redes sociais e como a aposta para reverter o quadro desfavorável no ambiente digital. A divulgação de suas postagens anteriores, porém, provocou forte desgaste para a campanha de Lula, justamente quando ela havia sido convocada para reforçar a estratégia de comunicação digital do petista no segundo turno. Entre as mensagens atribuídas a ela estavam manifestações hostis a católicos e evangélicos, ódio às pessoas brancas, defesas do fechamento de templos por determinação governamental, do bloqueio de plataformas como Instagram, Facebook e WhatsApp e o fim da isenção tributária das igrejas evangélicas. A repercussão dessas publicações gerou constrangimento na campanha e culminou em seu afastamento da função, frustrando a tentativa de transformar sua atuação digital em um trunfo eleitoral.
A segunda frente de desgaste explodiu na sexta-feira, com a divulgação, pela revista Veja, de depoimentos do Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, sobre um gigantesco esquema de corrupção envolvendo o ministro Alexandre Padilha, Jaques Wagner, Augusto Lima, Olavo Noleto, João Vaccari Neto, Paulo Okamotto e o próprio presidente Lula.
As acusações, de extrema gravidade, atingem o governo em plena disputa eleitoral e ampliam a pressão política sobre o presidente. Segundo os relatos de Vorcaro, o esquema envolveria recursos de fundos de pensão dos trabalhadores ligados à Petrobras, aos Correios, ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal, em operações estimadas em R$ 10 bilhões. Desse montante, os articuladores teriam exigido R$ 1 bilhão, enquanto os R$ 9 bilhões restantes ficariam com o Banco Master.
Essas denúncias deverão provocar um dos mais graves abalos políticos do governo do ex-presidiário. Essas acusações não podem ser ignoradas ou abafadas por conveniência eleitoral: é indispensável que as autoridades competentes investiguem os fatos com rigor, identifiquem os responsáveis e esclareçam o destino dos recursos. A gravidade do caso exige transparência, apuração independente e responsabilização de todos os envolvidos, sem privilégios ou proteção política.
Esse saque contra o patrimônio dos trabalhadores só não avançou porque três gestores da FUNCEF — Leonardo Silva, Mariangela Fraga e Daniel Gracio — emitiram parecer técnico contrário a um investimento de R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master. A decisão impediu a concretização da operação e expôs os riscos de comprometer recursos previdenciários em investimentos questionáveis, reforçando a necessidade de fiscalização rigorosa pelos órgãos de controle. Em reação à postura exemplar dos gestores da FUNCEF, eles foram afastados e perderam suas gratificações.
Esse episódio impõe uma pergunta incômoda para os cúmplices do lulopetismo: até que ponto os recursos destinados a garantir a segurança financeira de trabalhadores e aposentados estão protegidos sob a gestão de um governo do Partido dos Trabalhadores? Essas denúncias tiveram um importante papel de reavivar a memória dos escândalos que, em governos petistas anteriores, atingiram os fundos de pensão. Em 2016, a CPI dos Fundos de Pensão investigou déficits e perdas bilionárias nas quatro maiores entidades do setor — Previ, Funcef, Postalis e Petros —, prejuízos que comprometeram o patrimônio previdenciário e despertaram a indignação de milhares de participantes e aposentados. A história não pode simplesmente se repetir, enquanto os verdadeiros responsáveis escapam da cobrança e os trabalhadores arcam com as consequências.
O patrimônio previdenciário não pertence a governos, partidos ou grupos econômicos: pertence aos trabalhadores que contribuíram durante décadas para assegurar uma aposentadoria digna. Qualquer tentativa de expô-lo a operações temerárias ou de subordiná-lo a interesses particulares exige apuração rigorosa e responsabilização. A aposentadoria de quem trabalhou a vida inteira não pode virar moeda de troca nos bastidores de um governo corrupto. O dinheiro dos trabalhadores não é patrimônio do PT, muito menos caixa à disposição dos banqueiros corruptos de estimação! O Brasil exige investigação, transparência e punição exemplar de todos os responsáveis.
Essa história confirma a sabedoria popular que afirma: “Os petistas quando não estão roubando, estão mentindo”. Eu, particularmente, acredito que a maioria petista faz isso de forma simultânea.
*João Arruda
Sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará.
Uma resposta
Gostei muito de como o professor ligou o caso Master à CPI dos Fundos de Pensão de 2016. Previ, Funcef, Postalis e Petros com perdas bilionárias naquela época, e agora a Funcef de novo no meio da história. É o dinheiro de quem trabalhou a vida inteira. As denúncias do Vorcaro ainda precisam ser investigadas, claro, mas se já aconteceu uma vez, por que a gente deveria confiar que não vai se repetir?